A minha alma é irmã de deus – Raimundo Carrero

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

rc-almaAutor: Raimundo Carrero (Salgueiro-PE, 1947). Recebeu o Prêmio APCA, o Prêmio Jabuti (categoria Crônicas e Contos), o Prêmio São Paulo de Literatura e dois prêmios Machado de Assis, concedidos pela Fundação Biblioteca Nacional.

Livro: A minha alma é irmã de deus é o 17º título de Carrero. Com ele, o autor venceu pela segunda vez o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio São Paulo de Literatura. A obra integra tetralogia que o autor batizou de Quarteto Áspero, composto ainda por Maçã Agreste (1989), Somos pedras que se consomem (1995) e O amor não tem bons sentimentos (2007).

Tema e Enredo: Processo de decadência da personagem Camila, que assume outras quatro personalidades que se contradizem e promovem uma série de reconstruções da própria narrativa.

Forma: O autor se mostra mais interessado em expandir os limites da linguagem. O enredo é mínimo, são raras as cenas de ação.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Palavras da loucura

A obra do escritor pernambucano Raimundo Carrero é um labirinto linguístico, repleto de becos estreitos e escuros que se interligam. Essa relação incestuosa entre seus livros aparece mais concentrada no novo romance A minha alma é irmã de Deus, que fecha o ciclo Quarteto Áspero iniciado com a publicação de Maçã Agreste (1989) e continuado com Somos pedras que se consomem (1995) e O amor não tem bons sentimentos (2007).

Embora integre uma tetralogia, o novo romance pode ser visto como um livro onde o autor natural de Salgueiro revisita sua obra, mantendo uma rede subterrânea de túneis com outros de seus títulos. Para isso ele volta a trabalhar com a memória, retoma a discussão do narrador suspeito, matéria-prima dos seus últimos dois romances – Ao redor do escorpião… uma tarântula? e O amor não tem bons sentimentos.

A experiência, no entanto, torna-se ainda mais radical em A minha alma é irmã de deus por ser narrado, mesmo que de forma indireta, pela protagonista Camila. Ao longo do livro, a jovem de classe média assume outras quatro personalidades que se contradizem e promovem uma série de reconstruções da própria narrativa. Elas discutem entre si, recontam os mesmos fatos até a exaustão, expondo os vários lados de um único pensamento, como se estivessem ruminando, ponderando, para ajudar na sua digestão.

O enredo é mínimo, são raras as cenas de ação. De concreto vemos a decadência de Camila. Ela trai a melhor amiga, sai de casa por um suposto sequestro e passa a conviver com uma trupe de tipos estranhos como o vendedor ambulante Alvarenga, do rabequeiro Conrado e o pastor alcoólatra Leonardo, que prega tocando sax e serve de referência ao protagonista de Sinfonia para vagabundos.

O livro se constrói no plano psicológico da mente perturbada de Camila. Enquanto a maioria dos escritores contemporâneos se limita a contar uma história, Carrero parece não se preocupar muito com o enredo, que se desenrola devagar, lentamente. O autor se mostra mais interessado em expandir os limites da linguagem. Como um vanguardista do início do século 20, ele espicha uma frase aqui, puxa outra ali, refaz tudo acolá na tentativa de absorver, no texto, a loucura das personagens.

Apesar das suas 172 páginas e da possibilidade de muitas passagens serem suprimidas, a narrativa não precisa de uma lipoaspiração. Sua gordura tem sentido, tem função, feito na estrutura corporal de um lutador de sumô. Ela é a força da narrativa de A minha alma é irmã de Deus, ajuda a dar peso à história, transmitindo sensações de angústia nesse mergulho psicológico de culpa e ressentimento, características tão marcantes da obra de Carrero.

Mas nem tudo é experimentalismo. Vez ou outra, surgem ilhas cercadas do fluxo de consciência de Camila, punhados de terra que permitem aos leitores tomarem fôlego antes de embarcarem na correnteza de incertezas outra vez. Entre esses conjuntos de frases, que nos agarramos com as forças do instinto de sobrevivência da memória, está a primorosa descrição do orgasmo feita pela narradora e a maneira singular do autor em revelar o momento em que a protagonista descobre que existe através do encontro com a sombra, remetendo ao conto escrito por Carrero para a coletânea Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa.

É também nesses bancos de areia, que o escritor declara sua devoção ao Recife, revelando grande intimidade com a cidade através de delicadas memórias afetivas como o cheiro das frutas vendidas e o Carnaval na Avenida Guararapes. Uma proximidade, no entanto, que não omite a miséria de parte de seus habitantes, as transformações urbanas e aspecto decadente da capital pernambucana e tão bem tem servido de cenário às almas solitárias de Carrero.

Lido em setembro de 2009

Escrito em 28.09.2009

Reescrito em 21.10.2009

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Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o autor: Próxima. Fui aluno da Oficina de Carrero e depois, como jornalista, nos mantivemos sempre em contato para entrevistas e matérias.

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[learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

A minha alma é irmã de deus

Raimundo Carrero

Record

1a. edição, 2009

174 páginas

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[learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Ele se inquietaria. Muito. Porque não deve ter sentido a pequena morte, aquela morte que vem do sangue, arrebenta as veias, causa soluços e gemidos: a pequena morte do orgasmo. Do gozo. Não se espante se olhar de longe, congelado de surpresa, a face de homem ou de mulher que se debate no orgasmo: obedece a um rictus, os músculos se contorcem, os olhos giram espantados, o nariz intumescido, a boca torta, num esgar de paixão e morte. E, a partir da vida, a enlevação da morte, que se instala no corpo só por um momento. É neste instante que o homem ou a mulher supera as limitações do corpo, as paredes onde se debate a alma, porque tudo que se tem de profundo e de leviano, de sagrado e de profano, de feio e de sublime, começa a se movimentar rumo ao encanto da existência.” (p. 85).

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[learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Adriano Koehler, no Rascunho, em 29 de agosto de 2001

(http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-lirismo-das-ruas/)

“É um belo trabalho, árduo, a princípio, se o leitor espera uma leitura linear, convencional, mas que de sua aparente confusão — e tenha certeza de que tudo no texto é premeditado, nada está ali ao acaso — é possível extrair um retrato inusitado de personagens e pessoas que para nós são invisíveis e incompreensíveis.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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