A mulher mais linda da cidade – Charles Bukowski

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mulher-mais-linda-da-cidadeAntes de continuar a ler este texto, vá à geladeira e pegue uma cerveja. Abriu? Tomou o primeiro gole? Pronto, pode ler o resto. Você está ficando apto para encarar alguém como Charles Bukowski. Um brinde ao velho Buk, ele merece! Fez o que todos gostaríamos de ter feito. Chutou o balde com os planos de vida estável que qualquer pai faz para seus filhos e foi viver uma aventura. Com esse impulso juvenil, tornou-se personagem de si mesmo, enchendo a cara, envolvendo-se com o submundo para depois escrever suas experiências.

Na coletânea de contos A mulher mais linda da cidade, o leitor pode conferir algumas dessas histórias vividas e criadas pelo autor. Sem papas na língua, Bukowski vai direto ao que interessa. Tanto no estilo de escrever, quanto na vida. Dá respostas que a maioria das pessoas gostariam de dizer, mas se calam, entaladas com os sapos que engoliram. Sua atitude pode até parecer desagradável, embora seja um libelo de sinceridade em meio a tanta hipocrisia. Representa uma verdade dura e, talvez por isso mesmo, incapaz de ser encarada por alguém que leva a vida de acordo com as regras.

No conto Você aconselharia alguém a ser escritor?, essa idéia fica bastante clara, junto ao meio acadêmico dos Estados Unidos. Contratado para dar palestras a estudantes universitários, Bukowski é alçado ao status de irmão mais velho, conhecedor dos pecados do submundo. A sua simples presença serve como um grito de protesto, uma retomada do espírito rebelde de gente que um dia foi jovem e não seguia as imposições do sistema.

O interessante é que Bukowski percebe o papel exótico que interpreta aos olhos da sociedade. Reconhece seus defeitos, sabe que a bebedeira e as apostas em cavalos são apenas subterfúgios para suportar a vida. Mas ao mesmo tempo, também enxerga como uma prisão a rotina formal do trabalho. Resultado: das duas opções que lhe restam, prefere o convívio com ex-detentos, ladrões e viciados.

Apesar de exaltar seu estilo de vida, há uma certa melancolia nas palavras de Bukowski. Talvez pela consciência de que seguiu esse caminho por uma questão de sobrevivência e não por diversão. Quando sóbrio, ele parece não se misturar inteiramente com o submundo, mantém uma distância que só se desfaz após alguns goles de cerveja. É justo nesses momentos que ele encarna o personagem e diz foda-se para o mundo.

Thiago Corrêa
lido em Nov. de 2006
escrito em 27.12.2006

: : TRECHO : :


“Nomes! Fiquei casado dois anos e meio com a minha primeira mulher. Uma noite chegaram visitas. Eu disse pra ela: ‘Este aqui é o Louie, que meio-bobão, e esta é Marie, a Rainha da Chupada Relâmpago, e este aqui é Nick, que meio-rengo.’ Depois virei pra eles e disse: ‘Esta é minha mulher… a minha mulher… esta é a…’ Por fim tive que me virar pra ela e perguntar: ‘PORRA, COMO É MESMO TEU NOME?’” (p. 85, conto: O grande casamento zen-budista)

: : FICHA TÉCNICA : :

A mulher mais linda da cidade & outras histórias
Charles Bukowski
L&PM
1a. edição, 1997

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 comentário

  1. Parabéns… também curto muito esse cara, ler Bukowski é sempre bom, suas narrações são fantásticas, um dos melhores escritores que já existiu.

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