A Revolução dos Bichos – George Orwell

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Mais uma vez atual

Interessante ler A Revolução dos Bichos nos dias de hoje. As denúncias de corrupção do deputado Roberto Jefferson – revelando o envolvimento do alto escalão do PT no pagamento do mensalão – eliminaram o cheiro de mofo que, desde o fim da Guerra Fria, em 1989, vinha transformando a história do livro em História.

Escrito em 1945, pelo inglês George Orwell, A Revolução dos Bichos fala de uma fazenda na Inglaterra, chamada Granja Solar, em que os animais, dado os maus tratos e a fome, revoltam-se contra o proprietário, Sr. Jones, expulsando-o das suas terras, e assumem o controle da Granja.

A obra, classificada como literatura infanto-juvenil, não tem sua importância no enredo nem na linguagem utilizada. Ambos são simples e diretos, sem quaisquer inovações ou sinais de rebuscamento. Seu valor está no conteúdo. É uma crítica ferrenha ao que o comunismo se tornou, a partir do stalinismo.

Fazendo essa analogia, Orwell destrói, gradativamente, a ideologia e o sonho de uma sociedade justa e igualitária que impulsionaram a revolução. Primeiro, logo após a expulsão do Sr. Jones, relata a substituição dos símbolos, numa estratégia clara de negação a tudo aquilo deixado pelo governo anterior (proibição do uso de roupas, bebidas alcoólicas e a adoção do lema “quatro pernas bom, duas pernas ruim”). Depois vem a construção de um Estado digno, promovendo a educação, a divisão igualitária da colheita e benefícios sociais – feriados, aposentadoria. Um Estado democrático, com a participação de todos em reuniões semanais para tomadas de decisões.

Nessas reuniões, destaca-se a atuação dos porcos, animais com maior capacidade intelectual, em especial Bola-de-Neve e Napoleão. Os dois bipolarizam a liderança da Granja, gerando embates acirrados. Um representando o lado trotskista, mais intelectual e humanitário, e o outro, a vertente ditatorial stalinista, preocupada apenas com seu bem-estar social.

Com a ajuda de um exército de cachorros, Napoleão expulsa Bola-de-Neve e passa desvirtuar os ideais da revolução. Acabam as reuniões e o poder se concentra nos porcos. Assegurados pela proteção canina, exploram a ignorância dos outros animais, tomando medidas em benefício próprio e corrompendo os sete mandamentos, um a um. No fim, tudo acaba se parecendo com o início.

Depois de A Revolução dos Bichos, ler os jornais do dia adquiriu aspectos de déjà vu. Tudo acontecendo novamente, a euforia do novo governo, esperança de mudanças, aumento de impostos e de regalias para os homens do poder, esquecimento de promessas de campanha, envolvimento com adversários, denúncias, escândalos, decepções com a lama no colarinho de pessoas com passado histórico.

É uma pena, mas pelo que estamos vendo nas CPI’s, ao que tudo indica, George Orwell parece continuar certo, não existem diferenças entre homens e porcos.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2005
escrito em 06.07.2005

: : TRECHO : :
“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos ate a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-se com hedionda crueldade. Nenhum animal, na Inglaterra, sabe o que é felicidade ou lazer, após completar um ano de vida. Nenhum animal, na Inglaterra, é livre. A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade, nua e crua.” (p. 08)

: : FICHA TÉCNICA : :
A Revolução dos Bichos
George Orwell
Trad. Heitor Aquino Ferreira
Globo, 2a. edição, 2000
118 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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