A sangue frio – Truman Capote

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Dossiê de sangue

São tantos boatos, polêmicas e mitos em torno do romance A Sangue Frio, de Truman Capote, que a obra em si parece ter sido ofuscada pela sua própria fama, sendo ela relegada ao segundo plano. O recente filme Capote é apenas mais uma prova disso. Ele resgata o conflito ético vivido pelo escritor enquanto preparava o livro, que, para concluí-lo, precisou aguardar a execução dos assassinos Perry Smith e Richard Hickcock, com quem acabou criando uma relação de amizade durante os seis anos de pesquisa.

E esse é só um dos pontos que giram pela órbita de A Sangue Frio. Na sua aura, também estão presentes o suposto relacionamento entre Capote e Perry Smith, questões relacionadas à criação de um novo gênero literário, o tal “romance de não-ficção” do qual o autor gabava-se ter inaugurado, e à veracidade dos fatos narrados. Independente do resultado dessas discussões sobre originalidade e fidelidade jornalística, A Sangue Frio continuará tendo um lugar reservado na estante de obras-primas do século XX.

Isso porque Truman Capote soube perceber a literatura existente por trás do mundo real retratado pelo jornalismo. Ele não apenas se inspirou numa notícia, mas foi a fundo nela, investigou dados em mais de oito mil páginas, entrevistou várias pessoas, por diversas vezes, ao longo de três anos. Conheceu tão bem o caso que conseguiu preservar os fatos e a alma dos seus entrevistados, costurando-os na história de uma forma tão competente –gerando tensão narrativa ao oscilar o bem e o mal através de passagens informativas, descritivas e analíticas – que até parecem ter sido inventados.

É quase um clichê, como se tudo, todas as coincidências e contrapontos possíveis, todos os elementos para contar uma boa história, tivessem ocorrido justamente na notícia que, mesmo antes de serem revelados, já despertara a atenção de Truman Capote. Estão lá a família Clutter (típica família exemplar, justa, próspera e admirada por todos), a pequena cidade de Holcomb (com um clima amigável e de companheirismo da sua comunidade religiosa), Perry Smith e Richard Hickcock (uma dupla de ex-presidiários cheia de ressentimentos velados), uma equipe de investigadores competentes e uma série de pormenores que fizeram de toda a trajetória dos assassinos uma obra do acaso.

Mas seria uma injustiça considerar A Sangue Frio um mero lance sorte do autor. Foi com base num trabalho minucioso de apuração, que Capote pôde captar os vários ângulos de um assalto frustrado que acabou no assassinato de quatro pessoas de uma mesma família. Começa no dia-a-dia da família Clutter, com as preocupações e a formação do caráter dos seus integrantes; passa pelo sadismo com que ela foi assassinada; pelo medo e desconfiança dos moradores de Holcomb após o crime; pela construção da mente criminosa de Perry Smith através dos problemas sociais enfrentados por ele e seu comparsa; pela angústia do investigador Al Dewey em não achar os culpados; e vai até às contradições encontradas na legislação do Kansas.

Apesar de tanta informação disparada por Capote, seu texto foge à rigidez insossa do jornalismo, sem, contudo, perder a objetividade e clareza exigida. A história (real) do assassinato da família Clutter é contada como um romance de ficção dos bons. Elegante, profundo, questionador e sarcástico. Com habilidade, o autor usa os pontos de tensão da trama para jogar a narrativa sempre para as páginas seguintes, deixando o texto fluído e cativante. Em alguns casos, para não revelar os segredos antes da hora, a estratégia de Capote é alternar os depoimentos colhidos. Assim, ao invés do narrador onipresente matar a charada logo, ele usa as aspas de alguém para igualar a narrativa ao sentimento de incerteza vivido pelo entrevistado.

E se a ocasião pedir os talentos literários de Capote para uma metáfora, ele não nega. Mas faz isso provando que sua criatividade está mesmo é no poder de observação. Exemplo disso é a maneira como o autor apresenta o cenário agitado à espera da apresentação dos assassinos em Holcomb através de gatos de rua, ou como encerra os tempos de liberdade de Perry Smith e Richard Hickcock com o aparecimento da primeira neve de um inverno.

Thiago Corrêa
lido em Abr./Mai. de 2007
escrito em 05.05.2007

: : TRECHO : :
“Nas primeiras horas daquela madrugada de novembro, porém, sons nada costumeiros sobrepuseram-se aos ruídos noturnos normais de Holcomb – a histeria aguda dos coiotes, o arrastar seco das folhas sopradas pelo vento, o lamento distante dos apitos de locomotiva. Na ocasião, não foram ouvidos por ninguém na Holcomb adormecida – quatro disparos de espingarda que, no fim das contas, deram cabo de um total de seis vidas humanas.” (pp. 23-24).

: : FICHA TÉCNICA : :
A sangue frio
Truman Capote
Trad. de Sergio Flasksman
Companhia das Letras
1a. edição, 2003
432 páginas

: : LEIA TAMBÉM : :
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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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