A trágica morte da Patinha – Fernando Farias

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Ler um livro de contos é como assistir a um festival de cinema do minuto. A cada intervalo de 60 segundos ou quatro páginas, surge outro universo. Os contos são histórias curtas e independentes, mas, por serem publicados juntos num único volume, geram a falsa idéia de unidade. A proximidade espacial entre os textos exige cuidados do escritor, tanto no sentido de evitar repetições na estrutura textual, como no de construir narrativas sólidas, densas e fechadas em si mesmas.

Preceitos que o escritor Fernando Farias não faz questão de aplicar no livro A Trágica Morte da Patinha e outros contos. Já na introdução do livro, o autor avisa aos leitores que não segue linhas retas, lógica, nem tem pretensões de ser coerente. Ao longo de 84 páginas e 31 histórias, Farias apresenta uma variada gama de personagens, temas e estilos. Faz uma releitura de Romeu e Julieta, imagina a visita de um alienígena, desconstrói fábulas infantis, solta um elefante na cidade, escreve sobre regressões no divã, rompe as barreiras do conto, passa pelas crônicas e adentra nas reflexões.

A diversidade, porém, parece não ter sido planejada. A impressão que se tem é que a obra foi montada em cima de textos escritos pelo autor, sem qualquer tipo de seleção, apenas com o objetivo de se juntar um bom volume de páginas até dar o aspecto de livro. A Trágica Morte da Patinha possui bons momentos (Meu príncipe encantado; Festa de 15 anos; Brincadeira de criança; Invasões marcianas), mas acabam se perdendo em meio à profusão de textos ainda verdes, sem o tempo necessário de gaveta.

Na busca pelo diferente, Farias dá seus golpes e raramente consegue acertar o alvo. O ímpeto pela experimentação, a necessidade do grito e o inconformismo estão presentes, o autor se esforça para criar novos caminhos, mas quase sempre cai na falta de sentido. Suas tentativas de inovar soam como imaturidade e descontrole narrativo. Algo que descamba para os finais incompletos e para a óbvia presença do autor nos textos, fazendo comentários e dando lições de moral de forma direta, sem qualquer personagem encobrindo sua face.

Thiago Corrêa
lido em Fev. de 2007
escrito em 18.03.2007

: : TRECHO : :
“Nos olhos de cada um, observei, almas presas, encantadas, incompletas, solitárias, esperando um beijo, um carinho, uma companhia.” (p. 21, conto: Meu príncipe encantado).

: : FICHA TÉCNICA : :
A Trágica Morte da Patinha
Fernando Farias
Edição do Autor
1a. edição, 2005
84 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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