Abrigo, coletânea de contos

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A Coleção Solidária, da editora Vacatussa, ganha um novo título com o lançamento da coletânea de contos Abrigo. O livro reúne, em torno da ação social, a produção de dez contistas, numa seleção entre autores veteranos, nomes premiados e promessas ainda inéditas da literatura brasileira. A edição já está disponível para venda na Amazon.

Em meio à crise que enfrentamos por conta da pandemia do novo coronavírus, a literatura se tornou um refúgio para preencher os vazios criados pelas ausências do isolamento social e pelas já quase 130 mil mortes provocadas pelo Covid-19 no Brasil. A coletânea de contos Abrigo foi pensada nesse contexto, como um lugar de proteção, acolhimento, amparo. Tanto num guarda-chuva para agregar autores de diferentes gerações e dicções no mesmo volume, como numa união em defesa de uma causa social, que visa o cuidado de pessoas em situação de rua.

Com organização de Cristhiano Aguiar e Thiago Corrêa Ramos, Abrigo reúne histórias sobre mudanças e os efeitos do tempo. Nas páginas da coletânea é possível encontrar um dos primeiros contos publicados pelo escritor pernambucano Gilvan Lemos (1928-2015), lá em 1948, na revista Alterosa. Nele, Gilvan promove um diálogo com o tempo, através da jornada de retorno ao mundo rural de sua infância, após três anos distante.

Também participam da coleção três vencedores do Prêmio Jabuti na categoria de contos: Marcelino Freire, Sidney Rocha e a escritora carioca Carol Rodrigues. Todos, cada um do seu jeito, trazem histórias sobre despedidas e suas consequências, como saudades e mudanças. Marcelino (que conquistou o prêmio com Contos Negreiros) traz um conto bem característico da sua prosa tão pessoal. Carol Rodrigues (do premiado Sem vista para o mar e atual semi-finalista do Prêmio Oceanos com O melindre nos dentes da besta), por sua vez, explora o viés aleatório da vida, que envolve a vontade dos outros em nosso destino, numa oferta de pontes e abismos.

Já Sidney Rocha (do premiado O destino das metáforas e recém agraciado com o Prêmio Literário Guerra Junqueiro) apresenta uma história de despedida situada nos recentes vazamentos de óleo que atingiram as praias do Nordeste. O uso de fatos históricos também é visto nos contos de Renata Santana e Diogo Monteiro, ambos se mostraram rápidos em ambientar suas narrativas no mundo pandêmico. Renata (autora de Na outra margem do agora) se vale de um tom mais realista, observando o passo-a-passo do vírus e suas implicações num grupo de amigos que se reuniam pra jogar na praça.

Já Diogo Monteiro, que prepara seu primeiro livro de contos e um título infantil, opta pelo fantástico, construindo uma metáfora em névoa para falar sobre o medo, a distância de amigos e familiares. O fantástico também está no conto do escritor paulista Oscar Nestarez, desta vez na vertente das histórias de terror, numa narrativa em que o desconhecido soa como convite.

Num viés mais realista, as escritoras Joana Rozwykwiat, Débora Ferraz e Camilla Inojosa, bordam histórias marcadas pela violência. Enquanto Joana e Camilla trazem reflexões sobre os abusos sofridos pelas mulheres, expondo conflitos entre o urbano e o rural, classes sociais e de gênero; Débora Ferraz (Prêmio Sesc e Prêmio São Paulo de Literatura) mostra que nem sempre as mulheres se encaixam no papel da inocência.


COLEÇÃO SOLIDÁRIA

A coletânea de contos Abrigo integra a Coleção Solidária, da Vacatussa. A ação foi idealizada pelo  escritor Diogo M. de Almeida, que inaugurou a coleção com o livro de contos Restos de Família. Também pela coleção saiu Trilogia da Febre, de Cristhiano Aguiar.

Por acreditar que a literatura pressupõe diálogo, capaz de promover a conversa entre seres de diferentes épocas, culturas, espaços e classes sociais; a Coleção Solidária foi pensada como vetor de transformação, não apenas no campo das ideias, mas também como forma de arrecadação de fundos a serem destinados para doação ao Samaritanos Recife, grupo que tem se dedicado aos cuidados de pessoas em situação de rua.


SOBRE OS AUTORES

RENATA SANTANA (Recife-PE, 1986) é escritora, recitadora, bibliotecária, jornalista e pesquisadora. Após 10 anos recitando seus textos nos mais diversos eventos literários de Pernambuco, lançou em 2019 as publicações Eu me lembro e o livro de contos Na terceira margem do agora (Castanha Mecânica).  A autora também integra as antologias Quem dera o sangue fosse só o da menstruação (Ed. Urutau), No entanto: dissonâncias (Castanha Mecânica), Coisas de mulher (Mariposa Cartonera), entre outros. Já teve seus textos publicados em periódicos como o Suplemento Pernambuco e as revistas Outros Críticos e Mallarmargens. Desde 2018 promove e se apresenta no Sarau Eroticuzinho. Em 2019 recebeu o segundo lugar nacional no 15º Concurso Literário Mario Quintana (RS) na categoria crônica. Mestre em Ciência da Informação pela UFPE, pesquisa comunicação, memória e esquecimento de documentos sonoros nos espaços urbanos.

MARCELINO FREIRE (Sertânia-PE, 1967) vive em São Paulo, vindo do Recife, desde 1991. Escreveu, entre outros, Angu de sangue (Ateliê Editorial, 2000), Contos negreiros (Prêmio Jabuti 2006, Editora Record, também publicado na Argentina e no México) e Nossos ossos (Prêmio Machado de Assis 2014, Editora Record, também publicado em Portugal, na França e na Argentina). Em 2004, criou e organizou a antologia Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê Editorial). Vários de seus livros foram adaptados para o teatro. É o criador e curador da Balada Literária, evento que acontece anualmente em São Paulo desde 2006. É conhecido também por suas oficinas de criação literária. Para saber mais sobre o autor, acesse o blog Ossos do Ofídio: marcelinofreire.wordpress.com

CAMILLA INOJOSA (Salvador-BA, 1982) é escritora, e está honrada por estar aqui, no meio de tanta gente incrível. Já publicou os títulos ? e Antônio com M pelas Edições Bagaço. Pela Editora IMEPH publicou o título Lápis mágico, pelo qual recebeu menção honrosa da Academia Pernambucana de Letras no ano de 2016, com o mesmo título foi finalista no prêmio Nacional Ganymédes José promovido pela UBE-RJ no ano de 2017. No ano de 2017 foi finalista dos prêmios Monteiro Lobato e Carlos Drummond de Andrade, promovidos pelo SESC-DF. Com o texto inédito Quanto tempo dura o para sempre é a vencedora do prêmio Elita Ferreira, promovido pela Academia Pernambucana de Letras, do ano de 2018. No ano de 2019, o título Onde está o meu sonho recebeu menção honrosa da Academia Pernambucana de Letras. Publicou o conto Angelino na Vacatussa, em 2020.

OSCAR NESTAREZ (São Paulo, 1980) é escritor, tradutor e pesquisador da ficção literária de horror. No campo acadêmico, tem mestrado em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, e atualmente cursa doutorado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela FFLCH-USP. Como ficcionista, publicou a coletânea Horror adentro (ed. Kazuá, 2016) e o romance Bile negra (Pyro Editora, 2018) – que recebeu o prêmio ABERST de melhor romance de horror em 2018 –, além de contos em inúmeras antologias. Como tradutor, já verteu importantes obras para o português, como O Castelo de Otranto, de Horace Walpole (ed. Novo Século), e dois relatos da trilogia Auguste Dupin – O primeiro detetive (ed. Novo Século), de Edgar Allan Poe. Também é colunista da revista Galileu, para a qual escreve mensalmente sobre literatura de horror.

DÉBORA FERRAZ (Serra Talhada-PE, 1987) é escritora e jornalista. Seu romance, Enquanto deus não está olhando, foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio São Paulo de Literatura (autor estreante com menos de 40 anos).

GILVAN LEMOS (São Bento do Una, 1928 – Recife, 2015) foi um dos principais escritores de Pernambuco no século XX. Publicou mais de 30 títulos, entre romances, novelas e livros de contos. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e conquistou os prêmios Orlando Dantas e Olívio Montenegro, com o romance Jutaí menino e o Prêmio Othon Bezerra de Melo com Emissários do diabo. Destacam-se ainda obras como O anjo do quarto dia, Morte ao invasor, Espaço terrestre e Cecília entre os leões. Desde de 2012, sua obra tem sido reeditada pelo Cepe Editora.

JOANA ROZOWYKWIAT (Recife-PE, 1981) é jornalista e desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem contos publicados em suplementos literários, revistas, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

DIOGO MONTEIRO (Recife, 1978) é jornalista por formação e escritor por insistência. No jornalismo, dividiu-se entre as páginas de Política e Cultura. Tem contos publicados em antologias como a Tempo bom, da editora Iluminuras, e em revistas como a Vacatussa e a Continente Multicultural. Seu principal processo de criação é baseado na inércia e na procrastinação. Afirma ter livros prontos para serem publicados, mas isso também pode ser pura ficção.

CAROL RODRIGUES (Rio de Janeiro, 1985) é autora dos livros Sem vista para o mar (Edith, 2014), que venceu os prêmios Jabuti e Biblioteca Nacional na categoria Contos, ilhós (e-galáxia, 2017) e O melindre nos dentes da besta (7Letras, 2019). Trabalha com curadoria literária na Biblioteca Mario de Andrade, escritas de roteiros audiovisuais e oficinas de criação literária. É formada em Imagem e Som pela UFSCar e tem mestrado em Estudos de Performance pela Universidade de Amsterdam. Participou de festivais literários como FLIP, Feira do Livro de Guadalajara, Bienal do Livro de São Paulo, Festival Pessoa em Nova Iorque e Lisboa. Vive em São Paulo.

SIDNEY ROCHA (Juazeiro do Norte-CE, 1965) é escritor e atualmente mora no Recife. É autor dos romances Sofia, uma ventania (1994, vencedor do Prêmio Osman Lins), Fernanflor (2015) e A estética da indiferença (2018), dos livros de contos Matriuska (2009), O destino das metáforas (2011, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas) e Guerra de ninguém (2016). Integrou ainda a antologia Geração Zero Zero (2010) e foi um dos vencedores do Prêmio Literário Guerra Junqueiro em 2020.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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