Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas – José Saramago

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PRÓLOGO

Autor: O escritor português José Saramago faleceu em 2010, aos 87 anos, deixando algumas obras de grande destaque, como O Evangelho segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a Cegueira. Venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Livro: Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas é um livro póstumo de Saramago; o autor escreveu pouco mais de 50 páginas. Nesta edição, a Companhia das Letras reuniu pensamentos do autor sobre a obra e textos críticos a respeito da produção de Saramago.

Tema: Na publicação, Saramago investiga não apenas o lado humano da história das guerras como também a formação de uma sociedade que evolui em direção ao conflito – a partir de uma instância íntima, um personagem central.

Forma: Na obra, publicada ainda inconclusa, o autor sugere marcas de estilo recorrentes em sua prosa: frases longas, pensamento humanista, confronto de ideologias opostas – tudo isso filtrado a partir da relação de um casal.

CRÍTICA

Um dos critérios mais valorizados na literatura contemporânea é a originalidade: a capacidade de surpreender, através do enredo, dos personagens, das ações ou reações; apresentar algo novo, talvez inédito, que arrebate enquanto invenção. Uma qualidade igualmente relevante, embora menos percebida em seu potencial simbólico, é repensar um gênero clássico e encontrar, nos escombros dos velhos hábitos, meio secreto em um panorama bastante conhecido de opções, novas possibilidades, arranjos modernos fascinantes.

É o caso de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, livro inconcluso de José Saramago (1922-2010). O escritor português começou a rascunhar o texto em 2009, na época de lançamento de Caim – a obra Claraboia, publicada em 2011, é na verdade o segundo romance do autor, escrito nos anos 1950; Saramago enviou o manuscrito para uma editora lusitana, que não se interessou pela narrativa. Após a morte do vencedor do Prêmio Nobel, a família decidiu lançar o texto inédito.

O livro parte de uma inquietação do autor; nas anotações, reunidas no fim do livro, Saramago revela a tensão que motivou a escrita: por que nunca houve uma greve numa fábrica de armamento? A partir desse questionamento, e instigado por uma passagem no livro L’Espoir, de André Malraux – em que o autor francês relata o fuzilamento de operários que sabotaram uma artilharia pesada -, Saramago desenvolveu uma história que se aproxima de grandes temas (as guerras, a humanidade, as crises) a partir de eventos de pequenas proporções.

É através de Artur Paz Semedo, homem perfeitamente comum, obediente e reservado, “um interessante exemplo das contradições entre o querer e o poder”, que trabalha na fábrica de armas Produções Belona S.A., que Saramago revisa as narrativas de guerra, os absurdos historicamente chocantes, as atrocidades que permanecem relevantes. É um personagem que fascina pela absoluta inocência: a visão turva, escurecida pela ignorância, sugere a ascensão de um novo tipo de conservador, que segue com fidelidade regras progressivamente destrutivas por um sentido vago de submissão e ordem. Seus pequenos prazeres são inofensivos e egoístas; é indiferente às razões e emoções dos que o cercam.

A esposa de Artur, Felícia, pede divórcio por coerência: pacifista, ela não aceita a proximidade do marido à indústria bélica. Ao ler o livro de Malraux, algo profundo e até então adormecido em Artur é perturbado; é o primeiro passo para o homem, então seguro em certezas, questionar o universo em volta. Os dois traçam um plano para o protagonista vasculhar a história de sua empresa e perceber o que homens e instituições de poder são capazes de fazer para sobreviver a regimes de opressão. Embora Saramago tenha escrito apenas 50 páginas, é possível identificar as ambições históricas e humanistas do autor; a maneira como Artur observa o passado, as guerras, e o envolvimento decisivo da indústria bélica.

Do ponto de vista de estilo, é um texto que parece constituído das características geralmente associadas às marcas de Saramago – embora seja possível inferir que, como se trata de um livro em progresso, o autor faria revisões e possivelmente mudanças: os longos parágrafos, as frases construídas um pouco como labirintos, que passeiam por corredores apertados da consciência moral de seus personagens, em que na saída há o prazer de uma descoberta fascinante: o potencial emotivo da literatura.

Lido em março de 2015
Escrito em 17.03.2015

FICHA TÉCNICA

Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas
José Saramago
Editora: Companhia das Letras
1ª edição, 2014
112 páginas

TRECHO

“O homem chama-se artur paz semedo e trabalha há quase vinte anos nos serviços de faturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento conhecida pela razão social de produções belona s.a., nome que, convém aclarar, pois já são pouquíssimas as pessoas que se interessam por estes saberes inúteis, era o da deusa romana da guerra. Nada mais apropriado, reconheça-se. Outras fábricas, mastodônticos impérios industriais armamentistas de peso mundial, se chamarão krupp ou thyssen, mas esta produções belona s.a. goza de um prestígio único, esse que lhe advém da antiguidade, baste dizer-se que, na opinião abalizada de alguns peritos na matéria, certos petrechos militares romanos que encontramos em museus, escudos, couraças, capacetes, pontas de lanças e gládios, tiveram a sua origem numa modesta forja do trastevere que, segundo foi voz corrente na época, havia sido estabelecida em roma pela mesmíssima deusa. Ainda não há muito tempo, um artigo publicado numa revista de arqueologia militar ia ao ponto de defender que alguns recém-descobertos restos de uma funda balear provinham dessa mítica forja, tese que logo seria rebatida por outras autoridades científicas que alegaram que, em tão remotos tempos, a temível arma de arremesso a que se deu o nome de funda balear ou catapulta ainda não havia sido inventada. A quem isso possa interessar, este artur paz semedo não é nem solteiro, nem casado, nem divorciado, nem viúvo, está simplesmente separado da mulher, não porque ele assim o tivesse querido, mas por decisão dela, que, sendo militante pacifista convicta, acabou por não suportar mais tempo ver-se ligada pelos laços da obrigada convivência doméstica e do dever conjugal a um faturador de uma empresa produtora de armas. Questão de coerência, simplesmente, tinha explicado ela então. A mesma coerência que já a havia levado a mudar de nome, pois, tendo sido batizada como berta, que era o nome da avó materna, passou a chamar-se oficialmente felícia para não ter de carregar toda a vida com a alusão direta ao canhão ferroviário alemão que ficou célebre na primeira guerra mundial por bombardear paris de uma distância de cento e vinte quilómetros. Voltando a artur paz semedo, há que dizer que o grande sonho da sua vida profissional é vir a ser nomeado responsável pela faturação de uma das secções de armas pesadas em vez da miuçalha das munições para material ligeiro que tem sido, até agora, a sua quase exclusiva área de trabalho. Os efeitos psicológicos desta entranhada e não satisfeita ambição intensificam-se até à ansiedade nas ocasiões em que a administração da fábrica apresenta novos modelos e leva os empregados a visitar o campo de provas, herança de uma época em que o alcance das armas era muito menor e agora impraticável para qualquer exercício de tiro.”

OUTRAS OPINIÕES

Eliane Boscatto, no site Homo Literatus, em 9 de janeiro de 2015

(http://homoliteratus.com/alabardas-alabardas-sobre-obra-inacabada-de-jose-saramago/)

Em mais uma obra da genialidade narrativa de Saramago, ele nos sacode da inércia, do embotamento das ideias, e nos faz pensar. E como é bom e necessário tomarmos às vezes essa “sacudidela”.

Diogo Guedes, no Jornal do Commercio, em 26 de outubro de 2014.

(http://m.jc.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2014/10/26/jose-saramago-fala-sobre-industria-de-armas-em-obra-inedita-152782.php)

“Como costumam ser as obras póstumas incompletas – cada vez mais frequentes no mercado editorial –, há uma dose de frustração garantida ao ler-se Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. A história é longa o suficiente para despertar a curiosidade do leitor, mas, por motivos óbvios, acaba justamente quando começaria a se desenrolar.”

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Do mesmo autor:

As intermitências da morte – José Saramago

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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