Aniversário

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Filhota,

Embora a gente troque altas ideias em aurorês e seja divertido conversar através de gligogligogligos e aaaatuns, confesso que não sei ao certo o que digo nesses momentos. Por isso resolvi escrever esta carta, na esperança de que um dia você leia e se divirta com essas memórias tanto quanto nossos diálogos a base de gligogligogligos e aaaatuns.

Hoje é dia para te dar parabéns, desejar feliz aniversário, te abraçar, apertar, dar beijo, desejar tudo de bom, muita saúde e felicidades. Talvez você estranhe tudo isso hoje, se assuste com a vela e com todo mundo cantando e batendo palmas ao seu redor, mas te garanto que daqui a um tempo você vai adorar esse dia. Porque ele é um dia especial. Logo você vai aprender que o aniversário é dia de festa, de reunir a família, juntar os amigos, ganhar presente, comer bolo e brigadeiro. E tudo isso para lembrar o dia em que você nasceu.

Passamos um dia inteiro te esperando. Era a noite do dia 11 de novembro, eu estava assistindo televisão quando mamãe apareceu na sala dizendo que tinha sentido uma contração com dor. Desconfiamos que fosse um alarme falso, mas logo em seguida veio outra. Esperamos mais algumas e resolvemos checar com os profissionais. Você já não deve lembrar, mas a gente tinha contratado uma doula (na verdade um anjo) chamada Dan para nos ajudar, nos acalmar e ensinar a te receber bem neste mundo.

Já era tarde da noite, mas Dan nos atendeu e confirmou que sim, você estava vindo. Apesar de ser de madrugada, Dan então foi lá para casa, conversou e mandou a gente descansar, porque muita coisa iria acontecer dali pra frente. Eu ainda consegui tirar um cochilo, mas mamãe não pregou o olho por causa dos movimentos dentro barriga, que foram se intensificando, tornando-se mais dolorosos e frequentes até chegar ao nível de choro. Quando isso aconteceu era perto do fim de tarde. Seguimos rumo ao hospital, mamãe gritando de dor no banco de trás, eu concentrado no trânsito, torcendo para que desse tempo de chegar ao hospital.

Deu, mas foi por pouco. Por sorte, quando a bolsa rompeu, já contávamos com os reforços do grande doutor Renato e Suzely. O ritmo de acontecimentos ficou ainda mais frenético. Não sei ao certo o que aconteceu naqueles instantes, só lembro que foi uma correria danada e eu devo ter virado uma barata tonta nos corredores do hospital, subindo e descendo escadas, carregando dúzias de malas e sacolas, com comidas, roupas, abajur, aparelho de som, garrafas de suco de uva, água, máquina fotográfica.

Em algum momento sei também que enchi a piscina inflável, porque logo depois eu estava lá dentro, servindo de encosto para mamãe. A cada contração, ela se jogava com toda força para trás, me espremendo contra a borda da piscina. Como não sabia o que estava acontecendo ou em que poderia ajudar, aceitei minha condição de almofada, recebendo todo impacto, todo empurrão, todo desconforto de ser recheio de sanduíche espremido pelos dois lados; como uma tentativa de amenizar a dor de mamãe.

Chegou uma hora que deu pena. As contrações cada vez mais fortes, ela cada vez mais fraca, exausta, sem dormir desde a noite anterior. Hoje vendo as fotos tiradas por Suzely me pergunto se alguma vez já senti uma dor tão intensa quanto a de mamãe. Acho que não. E eu ali, como um encosto, sem saber o que estava acontecendo, sem saber o que fazer, se já estava perto, se faltava muito, me arrependendo de não ter lido mais sobre as fases do parto, posições e técnicas de relaxamento. Ainda bem que eu não estava sozinho. Nos momentos de fraqueza, com mamãe já pedindo um alívio praquelas dores, a equipe médica entrou em ação com carinho, mensagens de incentivo e instruções para facilitar tua chegada, filhota.

Não sei exatamente a ordem, mas lembro que Dan pegou um lençol e mandou mamãe puxar nos momentos das contrações. Não como a coitada da Dan não caiu na piscina junto com a gente, tamanha a força que mamãe puxava. Mas deu certo, parece que assim mamãe conseguiu direcionar a força para te empurrar. Depois, ou talvez antes, quando mamãe já estava quase desistindo de ter parto normal, Suzely disse para ela tocar e sentir tua cabecinha saindo, filhota. Ali mamãe pegou confiança, acreditou que poderia e conseguiria aguentar tanta dor até te conhecer.

E aí você veio, filhota. Saiu para os meus braços desajeitados e logo voltou para o aconchego da mamãe. Vocês se olharam, se cheiraram e se amaram. Eu demorei mais um pouco para entender que já era pai. Claro, eu sabia que aquele momento era importante, estava feliz com sua chegada, aliviado por saber que tudo tinha dado certo, que você e mamãe estavam bem. Mas só fui descobrir realmente o que aquela noite significaria para mim quando todo mundo foi embora e só ficamos nós três – eu, você e mamãe. Mamãe na cama se recuperando, você chorando naquele berço gigante para os seus 49 centímetros e eu lá, pai de repente, sem nenhum treinamento, com o mesmo jeito destrambelhado, bruto, quase um ogro diante da tua delicadeza de recém-nascida. Com todo cuidado, te peguei no colo, te abracei e o silêncio que você fez me disse que havia sido acolhido. Ali, naquele instante, te fazendo dormir sobre meu peito, percebi que não estava mais só no mundo.

Então, antes que a festa comece, preciso te agradecer em vez de te dar parabéns. Obrigado!

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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