Árvore de Maravilha | Blues

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A mulher olhava para o mar e voltava a olhar o céu, num movimento que, se alguém estivesse acompanhando, poderia ser descrito como pendular. Olhos em frente, olhos ao alto. Ambos os horizontes azuis, mas em tons diversos. Enquanto o céu, claro e límpido, convidava à liberdade, o mar era denso, compacto como uma boca aberta faminta. Um era solto, bem dizer um eterno partir, e o outro era a promessa de um abraço apertado.

Caminhava e, quanto mais se aproximava do mar, mais a mulher olhava para o céu. Parecia que procurava algo em um dos dois sumidouros, sem se decidir pela maior probabilidade de sucesso.

O dia estava belo, fresco, novo. O mar estava calmo, frio, quieto: era como se repreendesse toda aquela soltura, o descarado desvencilhamento que o outro propunha. Ambos poderiam parecer confortáveis, harmoniosos, mas estava claro para ela que havia uma guerra declarada, mesmo que surda e ignorada. O que se sabia dos embates travados naquela linha de contato ao fundo, onde se uniam e se indefiniam?

Incapaz de se decidir, a mulher virou as costas e voltou lentamente, pé ante pé silencioso, e em nenhum momento levantou a cabeça. Parecia agora abdicar da amplidão para sentir prazer na familiaridade de seus pés no chão. Nem ao céu, nem ao mar. Talvez por essa tranquilidade, ninguém viu quando ela passou. Mas todos ouviram o estampido oco que veio primeiro, o baque surdo que o seguiu, e o grito de pavor que pôs fim àquela batalha.

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