Árvore de Maravilha | Casa Vazia

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Casa Vazia
Aline Arroxelas

Minha casa vazia.
As estantes tombadas.
Eu, perdida por entre as fotografias
do passado, do futuro desejado,
do presente espalhado.
As paredes que vão se desnudando aos poucos,
caindo literalmente em pedaços,
que recolho depois em feias caixas de papelão.

A sala será varrida por folhas.
O quarto só será visitado pelo vento.
O barulho da cortina batendo no vidro não incomodará mais ninguém.
O silêncio. O oco. A ausência.
Em toda parte há o pó das coisas substituídas.
Despeço-me do lar como um soldado
que sabe que a guerra não o deixará voltar.
É um adeus perpétuo e contínuo.
É um renunciar ao colo da mãe.

Minha casa, que era a minha pátria e meu quartel,
vai ficando vazia.
Os gatos já a deixaram.
Os outros vão fechando as malas.
Eu parto lentamente,
diariamente,
linearmente.
Em breve, a casa será só corpo.
Deixará de haver ali nossa alma e nossos sons,
para restar apenas a triste espera pelos próximos estranhos.
E para mim, que serei sempre estranha fora dela,
(rainha em busca de território)
ela passará a ser um monumento imaginado
ao que em mim existe de mais antes
de mais duro,
de mais meu.

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