Árvore de Maravilha | Insular

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Insular
Aline Arroxelas

Passou a chuva.
Enquanto me seco, transparente,
Empurro para me acomodar às quinas,
Arestas,
Cavernas.
Descubro uma fluidez inédita,
Uma pele anfíbia,
Camuflada.

Enquanto me curo,
Minha alta voz deve ser abafada
(disseram-me que nos silêncios é que se operam os milagres).
Meu peito já encolhido espera a dor de agulhas,
Com medo do médico,
Com medo da doença.
Ainda que cercada de cuidados,
Frequentemente me afogo por entre lençóis.

Contudo há, nesta ilha, um barco.
Um barco apenas.
Em forma de porta, ele vai e vem,
Leva e traz
Abre e fecha espaços.
Pontes. Passagens.
Grudada ao fundo do casco eu viajo
E chego, desapercebida.

Apago a luz. Afasto-me.
Fecho a cortina. Dobro-me.
Encurvada, apartada, pequena,
Quase imperceptível,
Espero.
E me faço caminho.

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