Árvore de Maravilha | João, menino

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João, menino
Aline Arroxelas

O menino, ao cruzar a praça, já podia ver as prateleiras cheias. Não que sua vista alcançasse, ao cruzar a sombra do primeiro banco de cimento, a grave seqüência de estantes guardadas no edifício azul do outro lado, mas sua imaginação já se acordava.

Menino de chinelos, menino de bermudinha marrom clarinha, quase desbotada, menino de camiseta branca e olhos de medo. Ou seria raiva?

O fato é que ele atravessou a praça com passos leves e direção resoluta. Os bancos de cimento, plantados no chão duro, estavam a poucos metros das mudinhas de algum tipo de ficus, que dali a alguns anos cresceriam para além do cimento e do chão duro e deixariam profundas rachaduras. O menino deixou-os todos para trás: ficus, raízes em crescimento, bancos, chão, cimento, sol. Sabia para onde estava indo, e já antecipava o que traria de volta.

A porta, é evidente — também, com aquele calor! — estava aberta, e o frescor que o menino sentiu naquela sala não veio de nenhum ventilador de teto, que, aliás, nem funcionava muito bem. Veio do cheiro mofado dos livros.

Era um por semana na biblioteca pública. Tinha lido “Robinson Crusoé” na semana passada, um Monteiro Lobato na anterior, mas naquele dia, justo naquele dia ensolarado, foi uma aventura um tanto quanto mais, digamos, comedida que lhe roubou os olhos. “Minha vida de menina”, com a capinha amarela.

Em casa, não quis esperar; deitado na cama o menino leu, surpreso, uma aventura muito mais próxima à realidade daquela pracinha, daquela casinha, daquele menino. E não era que todos os meninos e meninas acabam sendo iguais? Guardou para mais tarde a continuidade da estória, para amanhã o menino, e para amanhã a vida de menina.

Ao chegar da escola no outro dia, seus dedos procuraram embaixo da cama a capinha. Procuraram. E o que ele encontrou foi o pai, parado à porta, com a vida de menina na mão, perguntando o que era aquilo. — É um livro, mas é claro!  — Mas que livro! É de menina! — Não, o livro é de uma menina, mas eu sou menino, pai. — Menino não lê vida de menina, moleque. Devolve já. Agora. Passe.

E bateu a porta, deixando o livrinho em cima da mesa de jantar, esperando. O menino olhou a porta, abriu a porta, com passinhos cansados viu a mesa, olhou o livro. Virou-se para a mãe, sentada na cadeira de ferro: — Vai devolver o livro, João, tem outros melhores.

Calçou o chinelinho, botou o livro por baixo da camiseta banca (foi aí que seus olhos se encheram de ira, foi bem aí, um misto de vergonha e raiva e medo e calor). Calado, com os olhos nas pontas dos pés, saiu de casa. Suando, suado, calado, menino.

A vida da menina tinha durado só vinte e três páginas. O menino se sentia roubado, sentia-se humilhado. Ao cruzar mais uma vez a praça, assim, logo no outro dia depois de retirar o livro, ia pensando que não haveria jeito de esconder que fora obrigado a devolver minha vida de menina justo por ser menino. Estava escrito logo na capa do livro. Era escrito bem no seu nome, João, que é nome de menino.

Não sentiu sombra, nem cimento, nem chão com ficus, nem as crianças correndo em volta da praça, nem o barbeiro esperando os clientes. Só queria acabar logo com aquilo. Dessa vez, o frescor do edifício azul acinzentado quase não foi percebido, embaciado que estava pelo vermelho vivo de suas faces. Não, só das faces não, principalmente de seu peito. Mesmo se funcionasse direito, o ventilador de teto não faria a menor diferença. Era o mundo que pegava fogo.

Entregou o livro sem dizer uma só palavra. Atravessou a praça sem dizer uma só palavra. Calmamente, equilibradamente, resignadamente. Um pé na frente do outro. Chegou em casa e não chorou, não brigou, não esperneou, não se lamentou. Sequer se escondeu. Sentou-se no balanço que o pai havia instalado no jardim. E pôs-se a imaginar como terminaria o livro, naquela vida que era sua, e que não era contada por ninguém.

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