Árvore de Maravilha | Lamento

0

Lamento
Aline Arroxelas

Pinga, pinga seu Zé. Só por hoje eu vou esquecer de te ouvir, fingir que te ignoro pra ver como me viro. Foi-se, seu Zé. Partiu-se. Perdeu-se. Tudo o que eu ainda guardava de sonho foi passear; esqueceu-se de que fiquei aqui, esperando.

Eu continuo lá, talvez ainda pensando se volto. O problema, seu Zé, foi que voltei. Mas deixei lá um pedaço que não posso mais recuperar. Areia, areia, seu Zé. Acho que foi tudo coberto por areia. Aquelas tardes, aquelas estradas. Sepultadas sob pés de areia, insepultas nessa carcaça que agora chora o que nunca teve. Se eu pudesse voltar, ainda estaria aqui?

Passei todos esses anos me perguntando. E agora a resposta não existe mais, ainda que eu pudesse, quem sabe, encontrá-la. Morreu. Sumiu. A resposta foi lá, rir-se da minha sina. Mas pinga, seu Zé, pinga. Manda chamar aquele menino que toca violão e ordena uma música triste. Depois eu dou uns trocados. Manda tocar uma música sobre tudo o que se perdeu. Meus anos, meu destino; veja bem, seu Zé, esse destino que eu inventei pra mim. E que agora não pode mais. Tenho que arrumar outro, ou me pôr embaixo de terra também.

Nem me venha falar de curar essa dor. Essa dor é minha, o que pode você saber dela? Essa dor me enoja, me ferve, mas é minha. Pode ser a única coisa que me reste daquele tempo. Essa dor, essa saudade, seu Zé. Entende? Esse abandono. Eu tenho todo o direito do mundo de chorá-la. Você não, você me sirva mais um pouco, vai. E manda trazer o menino.

Porque eu sempre pensei que ainda poderia consertar as coisas. Havia sempre essa brecha malvada, que me perseguia, e eu sempre pensei que poderia me aproveitar dela assim, meio que de soslaio, sabe? Sem que ninguém percebesse. Eu estaria lá quando precisasse. Foi isso o que me tiraram agora: essa possibilidade. O que é uma pessoa sem possibilidades, seu Zé? É uma grande reta para o buraco debaixo da terra. Agora, eu sou essa flecha lançada, apontada para a escuridão; sequer tenho possibilidade de alterar mais o meu curso. Perdi-me.

Sabe que eu nem me lembro mais de muita coisa? Virou tudo um troço só, um cheiro. Pronto, isso mesmo, um cheiro. Ou um determinado tom de azul. Ali se fundiram todas as lembranças, como num porto, onde todos os navios são na verdade um só. Chegam, vão. Também cheguei, também fui, mas as lembranças se enfiaram por debaixo da minha pele e agora eu não consigo mais expulsá-las. Pinga, seu Zé, vai, pinga logo… que essa lua, essa música e essa perda sem tamanho — porque nunca tem tamanho o que se perde de dentro pra fora — vão ter que acabar de matar o que ainda sobrou do que eu fui.

Compartilhe

Sobre o autor

Comente!