Árvore de Maravilha | Léxico

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As palavras se perderam de mim. Não sei onde se esconderam, as danadas, mas não as encontro mais quando preciso. Acho que foram embora quando passei a ser solicitada pelo mundo real, adulto, aquele das contas a pagar, do planejamento financeiro e do pânico noturno. Sim, tudo bem que antes isso também acontecia, mas pelo menos elas estavam lá e eu escrevia sobre a falta de ar. Agora parece que tenho que aguentar (até o trema foi-se embora) tudo calada. Elas não estão mais aqui, simplesmente.

É que, em pouco tempo, as vírgulas começaram a separar preocupações. Os romances e contos ao lado da minha cama se transformaram em soporíferos livros técnicos. Passei a ser uma cidadã respeitável, com vida conjugal, CPF em dia e restituição a receber do imposto de renda. Passei a ter contracheque e a visitar os bebês das amigas na maternidade. E as palavras, aparentemente, não gostam muito desse tipo de programa. Tenho a impressão de que elas prefeririam que eu levasse uma vida mais glamurosa, que eu tivesse um destino de glória e badalações, em vez de uma rotina pacata e pouco, digamos assim, narrável. E eu sou a mais comum das banalidades.

Acho que as desapontei. Sou uma amante abandonada. Fico remoendo acontecimentos, fantasiando motivos que possam explicar essa súbita desconexão. Elas devem ter me trocado por alguém mais jovem, bonito e excitante. Tenho certeza de que elas estão, neste exato momento, ajudando algum jovem sonhador aí pela cidade, qualquer um agora tentando escrever um poema para a namorada. Comigo elas não fazem mais versos, nem bonitos nem feios.

Outro dia me disseram que elas poderiam voltar se eu me voltasse à leitura. Mas minhas horas de ler tiveram que ser trocadas por horas de trabalhar. E trabalho não é só aquele que paga o tal contracheque, mas o esforço que se faz pra se construir o trabalho de amanhã. Eita, droga, não foi à toa que fiquei sem palavras: elas odeiam a minha cabecinha classe-média burguesa. É tudo culpa minha.

Mas depois que a raiva arrefece, e eu procuro dar algum tipo de sentido às minhas frustrações, eu até que me perdôo. E acho que as danadas foram cruéis demais. Aqui dentro, cá entre as minhas paredes, acho que na verdade elas fugiram porque eu estou feliz! Elas nunca me amaram de verdade. Só se interessavam pelas minhas dúvidas, por meus maus bocados. Enquanto eu estivesse pra baixo, elas estariam por perto. Minha tristeza estava à serviço delas, vampiras. Agora que, contente, eu procuro simplesmente viver a minha vida, fazer planos e até sonhar pequenas conquistas, não estou mais disposta a ser escrava.

Quer saber, decidi que vou enganá-las. Vou capturá-las continuamente, uma a uma, para o uso conforme minha conveniência. Posso forçá-las a trabalhar para mim, por mim! A-ha! Vou mantê-las sob estreita vigilância, escondidas longe dos lugares-comuns da rotina. Elas nem saberão por que estão sendo economizadas. Direi que, por aí, deve haver sempre algum parágrafo a começar.

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Sobre o autor

2 Comentários

  1. Até mesmo deixar um comentário está difícil para quem, como você, se sente em algum instante abandonada pelas letras, até isoladas. Nem aaaaaaaaaaaaaaaaaaa, ou ooooooooooooooooooo, nada…
    De qualquer forma, concordo com a descoberta da paixão proibida que sentem elas, as letras, pelas dores. Talvez agora, postas em público, se emendem e percebam que sim, existem palavras também em sorrisos.

  2. Arsenio Meira em

    Aline, lembre-se de Drummond: “Palavra, palavra/Se me desafias/Aceito o combate”.
    Espero que você siga ao pé da letra a lição do nosso Poeta Maior.

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