Árvore de Maravilha | Minutos

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Minutos
Aline Arroxelas

Ainda faltavam dez minutos para o despertador tocar.

Pensou que deveria voltar a dormir e aproveitar os últimos instantes de descanso antes das duras batalhas do dia. Mas, antes mesmo que pudesse se entregar, lembrou que tinha muito o que fazer, o dia seria cheio. Dez minutos poderiam fazer a diferença, ora essa.

Poderia regar as plantas na varanda; algumas já se ressentiam do tempo quente. Talvez regadas, florescessem. Poderia ligar logo para o encanador, porque tinha um vazamento na cozinha há dias, e vinha adiando o conserto porque não tinha tempo de ficar em casa esperando o serviço. Poderia se dar ao luxo de escolher a roupa com cuidado, quem sabe se sentiria melhor no trabalho. Era possível até mesmo sair mais cedo e chegar antes de todo mundo na empresa, e aí a opinião geral a seu respeito seria irretocável.

E no entanto… e se fosse a seu encontro, talvez se esperasse na frente de sua casa… teriam uma conversa mais ou menos – ei, acordou tão cedo! – é, resolvi que viria te esperar. (aqui, um belo sorriso). – o pior é que já é tão tarde, eu vou ter um dia daqueles, desculpa, não vou poder conversar contigo, talvez mais tarde? Eu te ligo – Não, deixa, eu só queria ver você sorrir mesmo. (e então outro sorriso).

Poderia até se apaixonar, quem sabe. Essas coisas só precisam de uma chance, já dizia a velha canção.

Tentou se lembrar do sonho que tivera. Foi um só ou foram vários, e já não sabia discerni-los? Sabia que tinha sonhado com água. A água invadia, e tudo boiava. A cama, as cadeiras, os sapatos. Não havia nada quebrado, não, era tudo silêncio, era tudo empuxo. Não lembrava direito o que tinha acontecido; os sonhos normalmente não seguem lógica, os fatos nem sempre se encaixam nos símbolos. De manhã quase ninguém sabe contar exatamente o que sonhou; e isso já era outra canção.

De repente lembrou-se que tinha esquecido de cortar as unhas dos pés antes de dormir. E de lavar os copos na pia. E de limpar a sola do sapato, porque tinha chovido no dia anterior. Tinha chovido muito. – por isso toda a água, naturalmente. Tampouco tinha lido aquele artigo que o colega recomendava. Meu Deus! Como teria tempo de fazer tudo isso, se logo teria que sair? Não seria possível, é claro, ia deixar para amanhã.

Mas ontem também tinha acordado dez minutos antes de seu despertador. Provavelmente no dia anterior também. Se não dez, sete, doze. E também não tinha feito nada, apesar de… apesar de que mesmo? Apesar de ter sonhado, apesar de ter imaginado, apesar de ter vivido sem se levantar da cama?

Era preciso recuperar o tempo perdido. Fazer. Mas agora vai ser a qualquer momento. Não queria nem olhar, porque sabia que seria a qualquer momento. Se tivesse se levantado, poderia ter feito uma música, escrito um poema, pensado num slogan genial para uma campanha contra o desmatamento da Amazônia. Seria, então, alguém? Mudaria a sua vida?

Perguntou-se se a vida era isso, se era gasta nos dez minutos de intermédio entre acordar e ouvir o despertador tocar. Ficou em pânico e puxou o lençol com um só golpe de resolução.

E então o despertador tocou.

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