Árvore de Maravilha | Newnho

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Você acorda e está em sua cama, sob seus lençóis, a cabeça no seu travesseiro de sempre. Mas sua cama não está no mesmo lugar. Você não está no mesmo lugar. O sol inunda o quarto de manhã por um ângulo diferente. Você abre os olhos, e o teto é outro.

Foi um processo difícil. Abrir os armários e as gavetas, desenterrar papéis, roupas, presentes, cartas, lembranças. Um monte de lixo. Um outro punhado de história. Empacotar tudo, encaixotar, cobrir. Divorciar-se de outra época. Separar o que vai continuar com você e o que vai continuar com estranhos. A preocupação com a louça, os pratos, o cristal da avó. Seu melhor amigo é feito de plástico bolha. Muito anos couberam em muitas caixas. Pilhas. E sempre as cartas de ex-algumas-coisas. Sempre as fotos. Sempre bilhetes que insisti, a vida inteira, em guardar.

Aqueles homens entraram e colocaram minha casa nas costas. Décadas em poucas horas. Empurraram tudo pra dentro de um grande caminhão. E levaram a casa para longe de casa. Fui na frente, abrindo caminho pro mundo que seguia a reboque. Nervosa. Uma caravana para o novo.

Quando cheguei, e tudo chegou, não soube dizer o que ia onde e por quê. Olhavam para mim esperando ordens – e isso aqui? – e eu não sabia nem onde é que eu deverei me guardar. Ainda não havia fincado bandeira, assinado tratados, construído cercas. Ainda não podia chegar e saber que estava em casa. Tive medo, e quis que tudo estivesse exatamente onde estava antes. Cada coisa em sua gaveta. Quis ficar sozinha, e era impossível. Não tinha idéia de onde era o melhor lugar para acomodar as plantas – será que aqui não bate sol demais?

E então, voilá, lembrei-me que ali já estava a casa. Prontinha, inteirinha, arrumadinha. Roubada. Veio comigo, perfeitamente encaixada por entre as folhas da columéia: o ninho de passarinho. Cuidadosamente arquitetado na minha antiga varanda, todos os dias era visitado por seu construtor. Semana após semana.

Aquele morador não botou nenhum ovo, não fez nenhuma benfeitoria. O ninho estava pronto, mas vazio. O passarinho já devia saber, de antemão, que não era para ele que construía. Pobrezinho. Agora, ele sim, era um sem-teto. Partiu meu coração. Mas mesmo assim eu quis trazer o ninho comigo, intocado.

A casa, o quarto, a cortina, o teto, tudo mudou. O passarinho e eu chegaríamos em casa e a casa não estaria mais lá. Tinha se mudado. Mas foi ele quem perdeu sua casa, eu não. Eu ganhei a minha. Eu acordo, coloco mais alguma coisa em seu novo lugar, e espero pra ver quando é que outro passarinho vai entrar pela janela e tomar posse de um novo lar.

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4 Comentários

  1. ai que deu aquele aperto no peito agora que lembrei do passarinho… tomara que ele faço um outro tão bonito quanto aquele, na planta de uma casa tão amorosa e feliz quanto aquela/essa. :*

  2. Olá Aline,

    Adorei seus textos…São bem delicados…..

    Vendo seu sobrenome você tem algum parente chamado Diego?

    Pois qdo fui pra Porto Alegre conheci um rapaz que se chamava Diego Arroxelas….

    Bjs escreva mais

  3. obrigada pessoal. e danielle, que eu saiba não tenho nenhum primo chamado Diego não… deve ser algum primo distante.

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