Árvore de Maravilha | Pé de casa

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Pé de casa
Aline Arroxelas

A mangueira continuava onde sempre esteve desde que eu a plantei, há uns bons vinte anos. Mas já não havia mais jardim, já não havia mais grama. Era só a mangueira saltando de um quadrado no concreto: rebelde, indômita.

Lembro bem que havia pé de tudo quanto era fruta… tinha a goiabeira perto do muro que dava pro prédio vizinho – de onde meus amigos roubavam, para desespero de meu pai, as melhores goiabas que deixávamos amadurecer no pé. Tinha carambola no quintal. Azeitona preta. Acerola. Pitanga. Meu pai plantava naquele jardim sementes de tudo o que encontrava pelo caminho. E agora, pela janela do carro estacionado na frente da casa, eu não via essa nossa criação, esse nosso pedacinho de chão plantado, eu via só a minha mangueira saltando do concreto.

Parecia que o novo dono tinha especial predileção por concreto. Tinha mandado tapar o janelão da frente (decerto por medo de assaltos). Tinha mandado subir o muro. O que teria sido feito do jardim de inverno no canto da sala de estar?  Mais concreto para fechar os muitos olhos da casa.

Eu me perguntava se tinha mandado substituir o piso das salas: era um piso azulejado com motivos florais, e todas as vezes, ainda hoje, quando sonho com a minha infância, é pisando sobre essas pedras que eu me vejo. O desenho das flores azuis e brancas se misturou com a própria substância das minhas terminações nervosas, e criou essa zona cinzenta de lembranças em que não se sabe mais o que foi real, e o que lhe foi agregado pela nostalgia. We are such stuff as dreams are made of. Foi nisso que pensei olhando a casa da janela do carro.

E assim decidi não descer para vê-la de perto. Não quis sujar meus pés pisando nas placas de concreto que sepultavam meu jardim. Não quis entrar na sala para não ver os azulejos, ou o jardim de inverno onde, em um domingo de noite, uma gatinha deu à luz em frente aos olhos curiosos meus e de meus irmãos. Não quis entrar para ter minha lembranças estragadas pela realidade fria e distante de uma casa que já não era mais minha. Nunca mais seria, como nunca mais seria infância.

Fui embora e nunca mais voltei a passar pela frente da casa. Talvez porque ela tenha em mim raízes tão profundas, inconscientes, que faça parecer apenas cansativa uma briga contra o concreto. Forjada em mim como parte do que sou, a casa permanece de pé, intacta, erigida sobre a pedra do passado.

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