Árvore de Maravilha | Sereno

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Sereno
Aline Arroxelas

Ainda bem que ainda estava escuro e que, pelas frestas da janela, nenhuma claridade me deixava ver mais do que saber sua presença ao lado. Saber que eu poderia tocar, se quisesse, mas sem querer tocar para que nada se movesse, para que você permanecesse ali, quieto, até que meus olhos pudessem se acostumar à escuridão, à noite, aos contornos. Eu olhava e imaginava onde estaria sua perna direita, sua mão, pensava que você devia estar com frio, porque estava coberto até o pescoço e parecia meio que encolhido. Você, tão maior que eu, encolhido.

Agora eu já podia ver onde seu cabelo encontrava sua nuca, onde sua nuca encontrava as costas, onde suas pernas encontravam os pés. Podia ver você embaixo do lençol como sempre pude ver por baixo e através dos seus escudos. Não seria a noite que o esconderia.

Tive tanto medo de que você acordasse, de que eu acordasse, de que o dia chegasse, tive medo de não lembrar mais como era dormir sem saber que você estava do lado. Ainda bem que não lembrei. Ainda bem que não tive pesadelos, nem sonhei com a cama vazia. Saber que poderia ouvi-lo respirar se apenas me movesse não me deixava sonhar: era um ensejo para sincronizar a respiração. Que bom que eu sabia que amanhã, se me acordasse assustada, era só escorregar pelo colchão que estaria salva.

Que felicidade, a porta fechada! Quase podia ver o meu sorriso, enquanto pensava em fazer da minha pele um lençol contra seu frio. Esticada, ela o cobriria em um emaranhado de cabelos, dedos, unhas, sulcos, saliências, imperfeições; ela seria a sua cama, e o meu cobertor. Seu chão, e o meu toldo. Nossa superfície.

Mas você se mexeu, meu amor, você me abraçou dormindo, acho que sem nem perceber, e caí no sono como quem se perde da lucidez: segura, morna, embalada, presa na cama até que o sol nos acordasse. E fomos lá viver outro dia, até a próxima noite, sem que eu me preocupasse com a chuva.

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Sobre o autor

1 comentário

  1. Voce escreve de uma forma absolutamente envolvente…. gracas a Deus, por ter encontrado seus textos.

    Amei 🙂

    um super beijo!

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