As aventuras de Tom Sawyer – Mark Twain

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Eu e essa síndrome de recuperar o tempo em que ainda não era nem nascido.  Quero tirar o atraso de só ter nascido na década de oitenta, quero me situar no mundo, quero ler os pilares da literatura contemporânea, ler o que todo mundo já leu e diz que é leitura obrigatória. Quero fazer parte do grupo que já leu Kafka, Joyce, Dostoiévski, Proust e Madame Bovary, quero ter minhas próprias opiniões, discutir com essas pessoas de igual pra igual, sem me sentir inferior por ainda não ter lido Dom Quixote.

Foi a partir desta síndrome que resolvi ler As aventuras de Tom Sawyer. Estava curioso para saber quem era Tom Sawyer, personagem já utilizado em filmes e tema da canção mais famosa do Rush (aquela mesma, que deu origem ao tema da série de Tv McGaiver).

Ler As aventuras de Tom Sawyer nos dias de hoje não é apenas uma experiência literária, mas histórica também. Percebe-se a ação do tempo agindo não na história em si, mas em sua estrutura e estilo. Muito do que hoje é considerado um dogma pra mim, na época de Mark Twain talvez até nem existisse.

Discípulo do mestre Raimundo Carrero que sou, tenho como princípio a não intromissão do autor, a não ser em casos especiais onde isto faça parte da história. Por isso o meu estranhamento em ver seguidas vezes o dedo do autor no meio da história. Mark Twain se intromete demais, ele é uma espécie de deus onipresente que surge a toda hora, um professor que não confia no potencial dos seus alunos/leitores, um ditador que dá ordens aos seus personagens, não lhes dando chance de liberdade. A impressão de estar se lendo notas de rodapé é constante, é como se elas estivessem inseridas no texto.

Algumas chegam a ser engraçadas para os olhos contemporâneos: “Se fosse um grande e sábio filósofo, como o autor deste livro,” (p. 21); “Talvez o leitor possa suportar um resumo:” (p. 135). Não quero com isto, julgar a qualidade do livro, quero apenas relatar as mudanças acontecidas na literatura. Hoje, algo deste tipo seria imperdoável, mas em 1876, volto a repetir, talvez nem existisse.

As boas histórias, contudo, são alheias à ação do tempo. As motivações para se escrever hoje, são as mesmas do passado, queremos difundir nossos pensamentos, dividir angústias, perpetuar nossa época em palavras. Mark Twain faz isto, ele retrata as brincadeiras de criança, o autoritarismo dos professores, o poder da igreja entre a população, o dia-a-dia de uma cidadezinha do interior. Algumas coisas, porém, nos causam estranheza hoje em dia. Em vários momentos do livro, o racismo aparece. São insultos aos negros e mestiços, escritos com a naturalidade de uma verdade absoluta, não como uma forma de denúncia.

A história em si não me agradou. As aventuras de Tom Sawyer é um livro juvenil que deveria ser lido por pré-adolescentes. Só a partir da página sessenta e cinco, no capítulo IX, é que fui realmente pego pela história. Não fui pego pelas palavras, mas pela ação, porque foi preciso haver um assassinato para que isto acontecesse. É um livro de ação e pouca reflexão que segue o mesmo modelo utilizado hoje pelo cinema de hollywoodiano.

Thiago Corrêa
lido em Jul. de 2004
escrito em 04.08.2004

: : TRECHO : :
“Uma certa Amy Lawrence desapareceu do seu coração sem deixar atrás de si o mais leve rastro. Pensara amá-la até a loucura, julgara a sua paixão uma espécie de idolatria, e agora via que não passava de uma simples inclinação. Levara meses a conquistá-la e, quando, uma semana antes, ela se decidira a aceitá-lo, julgara-se o menino mais feliz do mundo. Isso acontecera há uns escassos sete dias, e agora, ali, num instante, ela deixou de fazer parte da sua vida, como uma estranha que tivesse passado por ela”. (pp. 24-25)

: : FICHA TÉCNICA : :
As aventuras de Tom Sawyer
Mark Twain
Trad. Luísa Derouet
Nova Cultural, 1a. edição
221 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 comentário

  1. Olá Thiago,

    Adorei o primeiro parágrafo desse seu texto. Rolou total identificação, tanto que já li alguns dos livros que vc já leu e comentou (Kafka, Saramago, Page, etc). Também gosto dos clássicos, mas sempre mesclo com algum livro, vamos dizer, alternativo, como a biografia do Jimmi Hendrix, por exemplo.
    Bom, só queria dizer que eu adorei suas críticas. Gostei tanto que resolvi que vou ler o Memórias do Subsolo e também o livro da Adriana Falcão (sim, eu também li a crônica do Mario Prata, mas acabou passando). Um abraço, Ana

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