As intermitências da morte – José Saramago

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A morte segundo José Saramago

Aos 83 anos, José Saramago pensa na morte. E gosta. Em seu novo livro, As intermitências da morte, o vencedor do Prêmio Nobel de 1998, vai em direção contrária aos avanços da medicina, e ressalta a importância da morte. Não à toa, a obra surge nos dias de hoje, em que os índices de expectativa de vida são cada vez maiores e a sociedade vem buscando formas de se manter vivo e jovem, seja através de exercícios físicos, cirurgias plásticas, congelamento ou clonagem.

Partindo da premissa kafkiana o que aconteceria se…, Saramago cria um país onde, com a virada do ano, ninguém mais morre. Nem no primeiro dia do ano, nem no segundo, nem no terceiro. E por aí vai. A euforia é geral, bandeiras são colocadas à mostra para comemorar a eternidade. Mas logo os problemas começam a surgir. A velhice vai se prolongando, o corpo se esvaecendo sem nunca chegar ao fim. Hospitais e asilos ficam lotados, sistema de aposentadorias, funerárias e seguradoras em colapso. Como não há mortes, não pode haver ressurreição e sem isso a retórica da igreja perde sentido.

Enquanto os problemas vão se desenvolvendo, Saramago aproveita para dar suas alfinetadas. Mostra um jornalismo preocupado com as vendagens ao invés das notícias e o jogo de interesses que pauta a política, com cada grupo querendo sua parte do bolo. Mas é através da criação da máphia, encarregada de levar moribundos até o outro lado da fronteira para que descansem em paz, que o autor desmascara o poder, expondo a sua fragilidade perante os interesses econômicos.

A narrativa é impessoal, conta a história de um país como um todo, sem se apegar a personagens. Alguns poucos aparecem como exemplo, não tem rostos nem nomes, apenas cargos e parentesco. Só lá pela metade do livro é que aparece a protagonista, que já o era mesmo na ausência. A morte, através de uma carta enviada ao diretor de uma emissora de televisão, explica seus motivos de inatividade e anuncia que voltará à ativa, mas passará a avisar os futuros mortos uma semana antes, para que estes possam se despedir e resolver pendências como o testamento.

Com a presença da personagem morte, na figura de um esqueleto embrulhado num lençol, a narrativa perde qualquer vínculo com a realidade e descamba para o non-sense. Não é como A Metamorfose de Kafka, o realismo fantástico de García-Marquez ou mesmo a primeira parte do livro, onde você sabe que aquilo não existe, mas mesmo assim você aceita, embarca na história como se pelo menos ali, naquele universo, tais acontecimentos pudessem realmente acontecer. Já a segunda parte de As intermitências da morte vai além, quebra o pacto de tolerância ficcional entre autor e leitor, fazendo com que a gente desconfie. É como se Saramago quisesse testar o seu poder de persuasão e só não destrói as sementes plantadas na primeira parte, por conta do seu controle e maestria em narrar histórias.

Thiago Corrêa
lido em Nov./Dez. de 2005
escrito em 07.12.2005

: : TRECHO : :
“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos uma caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.” (p. 11)

: : FICHA TÉCNICA : :
As intermitências da morte
José Saramago
Companhia das Letras, 1a. edição, 2005
207 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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