As paredes em torno de Carneiro Vilela

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Como toda cidade secular, Recife é cheia de segredos, com contradições guardadas em suas ruas e escândalos abafados rumo ao esquecimento. Nos nomes de uma estreita rua de paralelepípedo ainda contornada por casas no bairro dos Aflitos e do casarão que serve de sede à Academia Pernambucana de Letras (APL), escondem-se pequenas homenagens a um dos mais polêmicos e frutíferos intelectuais que já habitou o Recife. Ainda que os efeitos do tempo tenham desprendido o nome de Joaquim Maria Carneiro Vilela da sua trajetória intelectual, recontextualizando-o na política de tapinhas nas costas que se instalou na APL; a força da sua obra tem suportado as mudanças históricas, tal qual a rua que leva o seu nome vem resistindo à verticalização do Recife. E é através dessa obra que as paredes, que decretavam o isolamento de Carneiro Vilela, começam a ser derrubadas.

Por ocasião do seu centenário de morte, completados sem muito alarde no último 1 de julho, parte do legado construído por Carneiro Vilela passou a emergir com a publicação dos seus escritos. Primeiro com Cartas sem arte (Ed. Universitária da UFPE, lançado no fim de 2012), volume organizado pela pesquisadora Fátima Maria Batista de Lima que reúne crônicas publicadas pelo autor na revista A Cultura Acadêmica e nos jornais Diario de Pernambuco e A Província. E agora com a reedição de seu livro mais famoso, o romance A emparedada da Rua Nova, que chega à 5ª edição através da Cepe. Embora representem apenas a ponta do iceberg, considerando-se a volumosa obra de Carneiro Vilela; esses dois livros já nos oferecem uma boa ideia da sua produção intelectual.

BIOGRAFIA

Nascido em 9 de abril de 1846 no Recife, Carneiro Vilela teve uma trajetória que custa caber nos seus 67 anos de vida. Formado pela Faculdade de Direito aos 20 anos, ele chegou a exercer a advocacia como juiz municipal em Natal (RN) e como juiz substituto em Niterói, no Rio de Janeiro.  Entre um e outro, foi chefe de seção da Secretaria de Governo do Pará e depois assumiu a função de bibliotecário da Faculdade de Direito do Recife. Além de tudo isso, ainda arranjou tempo para ser ilustrador, cenógrafo, pintor paisagista e fabricante de gaiolas, porque, segundo ele próprio escrevera, “vender gaiolas rende mais do escrever para o público”. Mas, com tantas andanças e responsabilidades, foi no Recife que ele se estabeleceu como intelectual de grande influência.

Carneiro Vilela foi um jornalista versátil e um escritor de fôlego. Já aos 18 anos, ele estreava na literatura publicando o poema DEUS no Diario de Pernambuco. Segundo o jornalista Mário Melo, no prefácio da 2ª edição d’A Emparedada da Rua Nova, o autor era capaz desenvolver ao mesmo tempo dois a três folhetins diários. Como jornalista, Carneiro Vilela quase sempre era o escolhido para preencher os espaços vazios do jornal A Província, segundo relata o médico e memorialista Rostand Paraíso. E o acadêmico Sebastião Vasconcelos Galvão, que foi contemporâneo do autor na APL, dizia que “ele poderia encarregar-se, sozinho, da confecção de um jornal inteiro, desde o grave e sisudo artigo de fundo, até a sátira mordaz, em verso ou prosa, desde o inocente folhetim, que faz as delícias das respeitáveis matronas e românticas moçoilas, até o bisbilhoteiro noticiário, a atrair a atenção dos que andam à cata de sensacionais acontecimentos.”

Com todo esse gás, não é de se espantar que Carneiro Vilela tenha contribuído com mais de 15 periódicos da época e no seu currículo conste uma obra com 10 peças de teatro, cinco operetas, quatro traduções, 15 folhetins, o livro de poesia As Margaridas (1872) e diversos artigos e crônicas espalhadas pelos jornais A Província, Jornal Pequeno, Correio do Recife, Jornal do Recife e Diario de Pernambuco. Apesar de tantas pistas deixadas, a língua ferina de Carneiro Vilela acabou sendo silenciada pouco a pouco pelo tempo. “Muito do que ele escreveu se acha perdido. Principalmente o que foi escrito para ser publicado em livro”, diz o professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE Anco Márcio Tenório Vieira.

CRONISTA

A leitura das crônicas reunidas em Cartas sem arte, porém, fornece material suficiente para contextualizar a figura de Carneiro Vilela na sociedade pernambucana do fim do século XIX e início do XX e localizar a sua produção nas estantes da literatura brasileira. “Carneiro Vilela se inscreve em uma tradição de grandes moralistas que escreveram na nossa língua e, particularmente, no Brasil. O primeiro deles é Gregório de Mattos e o último grande foi Nelson Rodrigues. É verdade que cada um deles tinha princípios morais distintos, no entanto, o que há em comum entre eles é um certo modelo ideal de sociedade ao mesmo tempo que tinham uma profunda compreensão da medida do homem”, analisa o professor da UFPE.

No prefácio que assina em Cartas sem arte, Anco Márcio observa que o cronista era um tipo de intelectual que não se omitia da função de provocar engasgos na sociedade. Membro da geração que ficou conhecida como a Escola do Recife, as crônicas de Carneiro Villela revelam que ele foi um homem do seu tempo, influenciado pelas ideias de Tobias Barreto e pelo ceticismo religioso. Uma postura que tinha a ver com a época e passava tanto pela liberdade de imprensa conferida pelo Império de Dom Pedro II, como pelos ideais iluministas do individualismo ético, que conferiam o poder do exercício à crítica contra as normas sociais. Diante dessa combinação, o autor usava suas crônicas para atacar tudo e todos, através de uma escrita corrosiva, permeada por ironias que iam da galhofa à jocosidade, da paródia à sátira.

Um arsenal que ele apresenta logo na sua crônica de estreia no Diario de Pernambuco, quando diz que só aceitou o convite para escrever no jornal “depois que daquela parte do velho e conceituado Diario foram varridos o enxame de mosquitos e a magna quantidade de teias de aranha, que o tornavam inabitável para quem adquiriu o hábito da boa sociedade”. Em outra crônica, publicada três meses depois, Carneiro Vilela expõe o ridículo jogo das aparências de um país ainda culturalmente colonizado como o Brasil. Ao narrar sua experiência como pintor no Rio de Janeiro, ele diz que seus quadros foram expostos por seis dias numa galeria da Rua do Ouvidor e, embora as telas recebessem elogios por parte dos entendedores, não houve um comprador sequer. Ele então resolve adotar o nome inglês William Brotherood, volta a expor os mesmos quadros com a nova assinatura e, em apenas cinco dias, todos os quadros são vendidos. Ao que ele conclui num chiste: “O público não queria quadros, o que queria era… inglês”.

ACADEMIA

O mesmo espírito arredio que empregava nas crônicas, Carneiro Vilela aplicava nos assuntos pessoais. Em 1890, ao ser convidado para fundar a Academia Pernambucana de Letras, ele recusa alegando que “o elogio mútuo é mais do que prejudicial, é ridículo, além de ineficaz em seus intuitos” e que “para pertencer a uma associação qualquer, é preciso, antes de tudo, que essa associação nos inspire confiança, já pelo seu objeto, já pelo seu sujeito, isto é, pelos seus promotores”. Curiosamente, por algum motivo hoje desconhecido, Carneiro Vilela volta atrás e se torna não apenas um dos fundadores, mas o primeiro presidente da APL, exaltando a importância de “uma agremiação forte, consciente e compacta, solidária e compenetrada da utilidade e da nobreza do seu ideal” no seu pronunciamento de instalação da academia.

Como presidente, Carneiro Vilela ficou apenas 11 dias à frente da APL, sendo citado como presidente provisório pelo Almanaque de Pernambuco. Mas os efeitos da sua recusa inicial já haviam sido registrados pela história, impedindo que a APL se tornasse a primeira academia a ser fundada no país. A espera por ele, no entanto, parece se justificar pela importância de Carneiro Vilella no meio literário da época. “Ele era muito conceituado, com vários livros publicados, era um intelectual de renome, por isso passou a ser um dos principais organizadores da academia e foi nomeado como presidente enquanto se constituía a sociedade”, conta o memorialista Rostand Paraíso. Um prestígio que contrasta com o esquecimento da sua obra, mas que se estendeu à sua morte, sendo nomeado patrono da cadeira 21 da APL e batizando a sede da academia como Casa de Carneiro Vilela, que antes era chamada Casa de Bento Teixeira Pinto.

EMPAREDADA

Ao que tudo indica, muito desse prestígio se deve ao romance A emparedada da Rua Nova, publicado inicialmente em livro no ano de 1886, embora sua fama ficasse restrita aos limites de Pernambuco. “Não temos nenhum registro de sua repercussão fora do Estado. Aliás, Vilela é um autor quase que ignorado pelos seus contemporâneos das hoje regiões Sudeste e Sul. O crítico José Veríssimo não o cita e Sílvio Romero o cita sempre de modo vago, como representante desta ou daquela linha do romance oitocentista.”, observa o professor da UFPE.

Mas como o próprio Carneiro Vilela apontava, na carta em que recusava participar da criação da APL: “o juiz que processa e julga os literatos é o público e, em recurso de revista, o supremo tribunal que lhes dá a sentença definitiva, sem apelação nem agravo, é o futuro, é a posteridade, é a História”. E ele estava certo, tanto que anos mais tarde, sua história voltava a ser publicada, desta vez como folhetim, no Jornal Pequeno, entre 1909 e 1912. “Quando uma obra não agradava, acontecia dela ser retirada pelo editor e substituída por outra. A Emparedada da Rua Nova não só não teve a sua publicação suspensa, como ficou em ‘cartaz’ durante quase três anos. O que, mesmo para a época, era um tempo muito longo”, explica Anco Márcio.

A explicação para isso e para a sua contínua reedição até os nossos dias está em cada uma das suas mais de 500 páginas. No plano estético, percebemos a capacidade do autor em envolver os leitores na narrativa, seja pelo uso de um narrador onisciente que (de maneira didática e repleta de marcações para orientar o leitor) muda de perspectiva a toda hora, promove avanços e retornos cronológicos para embaralhar os fatos e renovar as expectativas dos leitores; ou pela estrutura de romance policial da obra, com a esperança de resolução do mistério de um assassinato motivando o avanço da leitura. A isto, some-se ainda a complexidade com que Carneiro Vilela constrói os personagens, criando pontos de interseção com o moralismo de suas crônicas, ao revelar lados sombrios nos arquétipos do herói e da mocinha.

No plano temático, como observa Lucilo Varejão Filho no prefácio da 3ª edição d’A Emparedada, a história se destaca por inserir uma trama de crimes no seio de uma família abastada, dando tons de escândalo à sociedade pernambucana: “o clima é outro: o de um lar burguês onde se respirava até então a tranquilidade de uma vida abastada e, ao que tudo indica, feliz”. Para tanto, não por acaso, Carneiro Vilela ambienta a história na Rua Nova. “A Rua Nova era o grande centro do comércio de Pernambuco, ali ficavam as melhores lojas, tinham casas de lanche, cinemas e o sistema de bondes confluía para lá. Era famosa, ali moravam muitos comerciantes portugueses. Toda tarde, às 16h, a Rua Nova via um desfile de mulheres que iam às compras e andavam por ali pra se exibir”, explica Paraíso, autor do livro A velha Rua Nova e outras histórias.

É nesse cenário que Carneiro Vilela insere a família do comendador Jaime Favais, um imigrante português que adquiriu fortuna como comerciante no Recife. Casado com a prima Josefina, ele é pai de Clotilde e vivia tranquilo até o jovem Leandro Dantas surgir no seu caminho. Galanteador, o rapaz moreno chama a atenção das damas da sociedade com sua elegância e põe em xeque a honra de famílias importantes. De acordo com a pesquisadora Helena Maria Ramos de Mendonça em sua dissertação de mestrado, a trama é uma releitura do mito do Don Juan, recheando o enredo com intrigas, ciúmes e traições.

Mas o que parece ter contribuído mais para a fama d’A Emparedada foi a mistura entre realidade e ficção promovida pelo autor, que se utiliza de fatos verídicos (a exemplo do corpo encontrado no Engenho Suaçuna logo no início do romance) para desenvolver sua trama. Por fazer parte da Escola do Recife, Carneiro Vilela foi influenciado pelos ideiais do Realismo e do Naturalismo, fazendo com que sua ficção se tornasse um documento da época, registrando detalhes sobre a vida política, econômica e social do Recife. Segundo Anco Márcio, isso se traduz n’A emparedada com “a crença no determinismo, no evolucionismo social, na História como dotada de um sentido, no anticlericalismo panfletário, na defesa da República como mortalmente superior à monarquia, e, por fim, em uma certa crença de que entre a palavra e a coisa a ser narrada existe uma certa naturalização, isto é, a palavra não está no lugar da coisa em si, mas é como se ela fosse a própria coisa em si”.

Resultado, com a mistura entre fatos verídicos e imaginários, até hoje a dúvida sobre o crime d’A Emparedada ainda paira sobre a Rua Nova, cenário que guarda outras tragédias como o do assassinato de João Pessoa, então presidente da Paraíba, e o desabamento das lojas 4$400 e Maison Chic. “Muitos acham que foi um caso de ficção, mas o próprio Carneiro Vilela diz que a história foi baseada nos relatos de uma escrava. Outros dizem que o caso foi real, aconteceu num primeiro andar de uma casa entre a descida da ponte e a Rua da Palma. É possível que tenha sido, mas não há comprovação”, diz Paraíso. “Ela entrou no imaginário da população, como se os fatos ali narrados tivessem ocorridos de fato”, conta Anco Márcio, que também assina o prefácio da nova edição. E isso tem se comprovado com as sucessivas produções que retomam A emparedada da Rua Nova como inspiração, como o curta de mesmo nome de Marlom Meirelles e de adaptações teatrais recentes como O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, encenada pela Trupe Ensaia Aqui e Acolá.

Thiago Corrêa
Escrito em setembro de 2013
Publicado originalmente na Revista Continente

Referência para citação:

RAMOS, T. C. . Carneiro Vilela: As paredes em torno de um autor. Revista Continente, Recife, p. 34 – 38, 01 out. 2013.

Leia também:

Entrevista com o professor Anco Márcio Tenório Vieira sobre A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela

Link:

Café Colombo: entrevista com o professor Anco Márcio Tenório Vieira sobre A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela

 

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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