Ascensão e queda – Wander Shirukaya

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PRÓLOGO

Autor: Wander Shirukaya nasceu em Carapicuiba-SP, em 1980. É mestre em Literatura e Cultura pela UFPB, dedicando-se à pesquisa da obra de Lygia Fagundes Telles. Atualmente mora em Itambé-PE, onde trabalha como professor. Participou das antologias Contos de sábado (2012), Goiana revisitada (2012) e tem dois livros publicados Balelas (2011) e Ascensão e queda, pelo qual foi o grande o vencedor do 2º Prêmio Pernambuco de Literatura em 2014.

Livro: O romance Ascensão e queda marca a estreia de Wander Shirukaya. Entre os 155 inscritos, o livro foi o grande vencedor do 2º Prêmio Pernambuco de Literatura em 2014 e publicado em 2015 pela Cepe. A comissão julgadora inicial do prêmio foi formada por Homero Fonseca, Astier Basílio e Rinaldo de Fernandes. E a final foi composta por Wellington de Melo, Everardo Norões, Pedro Américo de Farias, Nelly Carvalho e Lourival Holanda.

Tema e enredo: A história da banda de rock Doce Anfitrite, que precisa lidar com a súbita perda do seu líder, o vocalista e guitarrista Johnny.

Forma: Escrito através da sucessão e alternância de relatos dos quatro integrantes da banda (mais a namorada de um deles), a narrativa ganha em fluidez devido a aproximação com a linguagem oral e tropeça na redundância, com excessivas repetições sobre os mesmos fatos por parte dos narradores.

CRÍTICA

Redundâncias musicais

Um importante critério de observação de narrativas transmídia é a redundância. Quanto menos repetições houver nas diferentes modalidades narrativas que envolvem um projeto, mais eficientes e maduros serão os projetos. Embora não seja o caso de Ascensão e queda, romance sem pretensões de expandir as fronteiras do impresso, o critério da redundância se revela bastante útil para analisarmos a obra que marcou a estreia solo de Wander Shirukaya e foi a grande vencedora do 2º Prêmio Pernambuco de Literatura.

Escrito como uma sucessão de relatos dos quatro integrantes da banda de rock Doce Anfitrite, o romance Ascensão e queda usa a técnica da alternância de perspectivas na tentativa de dar mais complexidade ao discurso. Revezam-se na narração o baterista Walter, a baixista Lune, o guitarrista Adrian, o vocalista/guitarrista Johnny e, depois, Glenda, a namorada de Walter. Pela soma de seus depoimentos, criados como num documentário, acompanhamos a trajetória do grupo musical, desde o início (quando os integrantes se conhecem numa loja de música) até o seu fim, passando por crises, shows, gravações.

Mas ao contrário de outras obras que se valem dessa técnica e usam a alternância para trazer novos elementos, contradizer vozes e oferecer outros caminhos de interpretação (a exemplo de O fotógrafo de Cristovão Tezza, A parede no escuro de Altair Martins, O outro lado da meia-noite de Sidney Sheldon e da bíblia do punk Mate-me por favor de Legs McNeil e Gillian McCain), o livro de Wander Shirukaya se limita a repetições dos mesmos fatos e detalhes, num processo pra lá de cansativo de reafirmações de sugestões que se tornam óbvias de tão sugestivas.

Quando um dos narradores destaca um detalhe (um olhar, um acessório), pode ter certeza, outro personagem trará a explicação para aquela minúcia nas páginas seguintes. Não há pontas soltas, é como se o autor modelasse os dois lados para forçar o encaixe. O resultado é que Ascensão e queda se torna um jogo de quebra-cabeça para crianças, sem arestas, onde o encaixe das formas (no caso, impressões e perspectivas dos personagens) limita-se ao óbvio, não opera por sinapses, nem funciona como um Lego que possamos criar nossas próprias construções.

E assim, palavras, frases, parágrafos e páginas são consumidas apenas para respaldar a “técnica” do autor, sem oferecer qualquer contribuição ao seguimento da trama. A leitura segue a passos lentos, forçando passagem pelos entulhos de caminhos previamente avistados. Uma, duas, três, quatro vezes! Uma sucessão de voltas pelos mesmos fatos que terminam não por louvar a capacidade narrativa de Wander Shirukaya, mas por (1) revelar e (2) confirmar e (3) reiterar e (4) reafirmar as fragilidades da sua narrativa.

A começar por uma questão de ordem técnica, a qual podemos citar a caracterização dos personagens, feita à base de reprodução de clichês (como o líder depressivo, o guitarrista virtuoso, a namorada problema) e símbolos (de vestuário, temperamento, ideias, gostos musicais), mas sem nenhuma diferenciação na dicção deles. É como se o mesmo narrador contasse o que se passou na perspectiva do outro, do outro, do outro e do outro.

Um problema que termina evidenciando e reiterando outro: falta de capacidade imaginativa. Da mesma maneira que o autor se apoia nos símbolos do mundo pop para delinear seus personagens, ele também o faz para construir sua história. Para montar um momento importante da narrativa que serve como ponto de ruptura nos embates da banda, Wander Shirukaya recorre ao filme Quase famosos, reproduzindo a famosa cena em que os integrantes do grupo Stillwater fazem as pazes cantando Tiny dancer de Elton John.

E, por fim, uma fraqueza que diz respeito ao entendimento de mundo apresentado por Wander Shirukaya. Soa superficial e fantasiosa a descrição que o autor faz em relação ao mercado da música, comprando com ingenuidade a ideia de que ferramentas como o Soundcloud ou o MySpace são capazes de gerar sucessos megalomaníacos de uma hora pra outra, mesmo que alavancados pela morte de um dos seus integrantes.

Lido em janeiro de 2016
Escrito em 04.02.2016


Relação com o escritor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Ascensão e queda
Wander Shirukaya
Cepe
1ª edição, 2015
177 páginas

TRECHO

“É foda! Tipo, quando você acha que o mundo é injusto com as pessoas, mas que tudo pode melhorar, tipo, nessas horas é que você vê que a vida é horrível. Ela se resume a buscar a fuga dela mesma. Todo mundo quer fugir da realidade, porque não tem quem aguente essa merda toda. Tem quem pegue, tá ligado, seringa, se encha de coisa, tem quem injete até lama; tem quem prefira algum joguinho de baralho, cacheta, truco, tem que prefira uma cerveja, um vinho fuleiro, vodca, muita vodca. Há quem queira a arte, disciplina, a que pode ser, tipo, a única saída pra se fazer algo que valha a pena nessa porra. Mas tem quem não segure a onda e acabe morrendo afogado.” (p. 73)

OUTRAS OPINIÕES

Diogo Guedes, Jornal do Commercio, em 8 de fevereiro de 2015

(http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2015/02/08/em-ascensao-e-queda-wander-shirukaya-faz-narrativa-veloz-e-virtuosa-167342.php)

“Apesar das vozes bem desenvolvidas, a estrutura – com três ou quatro relatos de cada acontecimento – se torna repetitiva ao longo do romance, mesmo que o ponto de vista de cada um dos personagens sempre acrescente algo. Outro porém é a falta de contexto: o grupo e seus personagens habitam uma geografia indefinida, uma idealização do mundo do pop que poderia ser enriquecida com o cenário brasileiro ou de outro canto. Existem alguns clichês também, mas eles são parte dos próprios personagens: rebeldes, arrogantes e sensíveis, como vários de nós. Wander foi capaz de criar uma narrativa que tem seus riffs simples e velozes e seus solos virtuosos: envolvente, como as música de que gostamos.”

Raimundo Carrero, Suplemento Pernambuco, em 26 de fevereiro de 2015

(http://www.suplementopernambuco.com.br/old/105-colunas/raimundo-carrero/1369-a-humanidade-e-uma-grande-banda-de-rock.html)

“Os quatro componentes da banda oferecem as vozes narrativas para a construção da história – se é mesmo que existe uma história ou variações em torno das histórias que, no íntimo, representam improvisação e criatividade -, que o autor trabalha com habilidade e arte, numa criação romanesca cheia de equilíbrio e harmonia. Talvez por conhecer esse forte elemento musical – a harmonia –, o autor compôs, mais do que simplesmente escreveu, uma obra de qualidade e, por isso mesmo, vencedora. O autor compreendeu, de cara, que não podia trazer a humanidade para sua narrativa numa voz única, voz de narrador absoluto com mão de bronze, mão de ferro, artificial, bonitinha, mas ordinária.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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