Ascenso – Vários

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PRÓLOGO

Autores: Ascenso Ferreira nasceu em Palmares (1895) e faleceu no Recife em 1965. No álbum, seus versos foram transcriados pelos quadrinistas Ana Blue, Christiano Mascaro, Flavão, Laerte Silvino, Eloar Guazzelli, João Lin, Liz França, Luciano Félix, Rafael Anderson, Raoni Assis e Tiago Acioli.

Livro: O álbum traz 12 histórias em quadrinhos criadas a partir de poemas de diversas fases do poeta Ascenso Ferreira. O livro é o primeiro produto do Laboratório de Autoria Ascenso Ferreira, do Sesc Cais de Santa Rita. Foi criado através de um residência artística para marcar a 5ª Mostra Sesc de Literatura Contemporânea, que teve sua programação dedicada aos quadrinhos.

Tema e enredo: Como o volume reúne várias fases da poesia de Ascenso Ferreira, as histórias transitam pela nostalgia, pelo provincianismo, o moralismo, o diálogo com expressões da cultura popular e a fase modernista do poeta, abordando o problema da descaracterização da paisagem urbana.

Forma: Por reflexo da variação de temas, o traço das histórias também se diversifica. Vão desde o preto e branco ao uso de cores nostálgicas; exploram a nitidez do caricato aos ruídos de uma história áspera, passando por elementos da xilogravura e do candomblé.

CRÍTICA

Molduras para Ascenso

Para inaugurar a proposta do Laboratório de Autoria Literária Ascenso Ferreira de investir em produtos mais perenes do que os eventos e cursos que já vinha realizando desde o início de suas atividades; nada mais natural de que a escolha fosse fundamentada na obra do patrono do laboratório do Sesc Cais de Santa Rita. Assim, pegando carona na programação inteiramente dedicada aos quadrinhos da Mostra Sesc de Literatura Contemporânea, a poesia de Ascenso acabou ganhando versões para os quadrinhos através da residência artística que reuniu 12 quadrinistas e os colocou numa experiência coletiva de criação, com discussões, trocas e desafios. O fruto dessa residência é o livro Ascenso: a poesia de Ascenso Ferreira transcriada para os quadrinhos.

O volume foi construído a partir da seleção de 12 poemas que revelam diferentes períodos e interesses de Ascenso Ferreira, reunindo versos que transitam pela nostalgia, pelo humor, pela crítica, pela observação sobre o provincianismo, o moralismo do interior, o diálogo com expressões da cultura popular e a fase modernista do poeta. Algo que, no volume, parece se intensificar pela singularidade do olhar de cada um dos 12 artistas escolhidos (Ana Blue, Christiano Mascaro, Flavão, Laerte Silvino, Eloar Guazzelli, João Lin, Liz França, Luciano Félix, Rafael Anderson, Raoni Assis e Tiago Acioli) e pela liberdade editorial que tiveram para trabalhar.

Como explica o coordenador editorial do projeto João Lin (junto com a poetisa Cida Pedrosa e Sennor Ramos) em seu texto de introdução, a ideia não era simplesmente levar os versos de Ascenso Ferreira para a linguagem dos quadrinhos, mas “extrapolar a dimensão semântica dos poemas, buscando o que está além do significado estrito das palavras”. Assim, as entrelinhas dos versos de Ascenso Ferreira foram visualmente traduzidos em opções de cores, traços, texturas e mesmo em intepretações narrativas dos quadrinistas; funcionando como convites para o trabalho autoral, subvertendo o engessamento a que as adaptações de obras literárias para os quadrinhos foram submetidas com as aquisições desses títulos pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE).

Em imagens, as entrelinhas do tom prosaico de causo de Oropa, França e Bahia, por exemplo, se transforma na textura da xilogravura pelas mãos de Laerte Silvino. A aspereza de uma terra castigada pelo sol descrita nos versos de Sertão se converte nos desenhos cheios de linhas, detalhes e cores quentes de Raoni Assis. A denúncia sobre o processo de destruição da memória urbana do Recife (isso lá nos anos 1940, 1950) presente em Vamos embora, Maria vira as imagens cinzentas e o traço rústico de Christiano Mascaro. A sonoridade e o espírito de nostalgia que conduz o Trem de Alagoas ganham formas de onomatopeias visuais (o famoso “Vou danado pra Catende…” vira a fumaça do comboio) e de uma paleta de cores em tons pastéis no olhar de Luciano Félix. Por mais fiéis que os quadrinistas tenham sido ao texto original, o processo de mudança para a linguagem dos quadrinhos exige transformações. Versos se emudecem enquanto paisagens (como acontece em Trem de Alagoas), personagens secundários ganham vontades (caso do ótimo Cinema de Ana Blue, que dá voz e desejo a dona Nina) e enredos são criados para dar movimento à trama (exemplo de A força da lua de Rafael Anderson).

Embora nem sempre essa liberdade de dialogar com os versos de Ascenso Ferreira seja correspondido em termos de qualidade; o projeto ao menos mostra a versatilidade do trabalho de quadrinistas de Pernambuco (de fora, apenas Eloar Guazzelli participou do projeto). Nesse sentido, o volume cumpre sua função de coletânea, servindo como um bom portfolio da produção atual, dado o convívio de estilos e estratégias narrativas tão diferentes, a exemplo da alternância de cores com outros em preto e branco; da nitidez do caricato com ruídos imagéticos; da presença de narrativas mais lineares com outros mais sensoriais (Sertão, Xangô), de narrações em off com a opção de dar voz a personagens, de layouts que vão da sequência básica de quadros (A força da lua, Soluço como o do mar) a páginas que parecem ter sido concebidas como um todo, como telas a serem emolduradas, tamanha a harmonia (casos de Oropa, França e Bahia, Cinema, Trem de Alagoas, Sertão e Xangô).

Relido em outubro de 2015
Escrito em 05.09.2015


Relação com o escritor: Conheço alguns dos quadrinistas por já ter trabalhado com eles durante minhas passagens pelas redações de jornal e por já ter encomendado ilustrações a eles para a Revista Vacatussa.

FICHA TÉCNICA

Ascenso: a poesia de Ascenso Ferreira transcriada para os quadrinhos
Vários
Sesc-PE
1ª edição, 2015
80 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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