Balzac, o amor e outros demônios

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Para Cybelle, que salvou a noite

 

Sempre pensei que o amor e a literatura tinham algo em comum: ambos são um ato de leitura. Gosto muito da sabedoria das diferentes religiões, porque elas personificam certos estados, experiências e sentimentos que constituem parte fundamental da nossa existência. Muitas vezes penso no mal, na morte e no amor em termos de personagens, tais como o Diabo, ou Afrodite. Embora neles não acredite, estes personagens possuem uma existência concreta na minha vida: o meu pacto com o mundo sempre foi o da ficção. Já xinguei muito o amor e nisto não estou sozinho. Uma das minhas poetas preferidas, Safo, ou o que sobrou de sua voz, em certo momento cantou: “Imortal Afrodite do trono de flores/Filha de Zeus, tu que teces enganos”. É a respeito disto que gostaria de conversar com vocês.

Tenho acompanhado nas últimas semanas – o doutorado no Mackenzie tem me devolvido ao século XIX –  as desventuras de Lucien de Rubempré, protagonista do romance Ilusões perdidas, de Balzac. Nosso amigo Lucien é um jovem poeta, ambicioso e ingênuo, que se muda de uma pequena cidade provinciana para a luminosa e enlameada Paris, em busca de amor e glórias literárias. Já fui Rubempré duas vezes. Primeiro, aos 18, quando saí de Campina Grande e me mudei para Recife; agora, aos 30, quando saio de Pernambuco e chego até São Paulo. Em comum, os mesmos amores míopes no peito; as mesmas ambições e pretensões; as mesmas ilusões de relevância. A cena que gostaria de lembrar do romance balzaquiano é uma das mais conhecidas, na qual Lucien e o até então grande amor de sua vida, Mme. de Bargeton, recém-chegados a Paris, assistem a um espetáculo teatral e são submetidos ao escrutínio da nobreza parisiense. A aristocracia, claro, não perdoa os ares provincianos dos dois personagens e lhes impõe um doloroso rito de humilhação.

Em Angouleme, pequena cidade onde os dois personagens viviam, antes da mudança à capital, tudo parecia fazer sentido. Nunca houve amantes mais arrebatados: diante dos olhos de Rubempré, que “queriam achar tudo bom”, Mme. de Bargeton parecia uma aristocrata belíssima, com forte caráter e presença de espírito, marcada ainda por uma aguda sensibilidade literária e inteligência. À sua amante, Lucien era nada menos do que um Gênio e a encarnação da Beleza (maiúsculas inclusas no pacote). No entanto… Subitamente, tudo se modifica. Aquilo que parecia pleno de significado se transforma em desconforto, distância, desilusão. Agora, “apesar da extrema beleza”, Bargeton percebia, ao observá-lo no teatro, que nosso poeta “não tinha boa apresentação”. Na verdade, “achava-o lastimável”. A avaliação do seu amante não seria mais amena: comparando-a com as mulheres parisienses, concluía que sua amada era “seca, pretensiosa, malvestida sobretudo!”. Balzac, sempre implacável (por isso o admiro), conclui: “a verdade é que dois amantes muitas vezes se separam em menos tempo do que precisaram para se unir”.

Dois amantes podem ser também um escritor e seu leitor. Em algum lugar de A dupla chama, Octavio Paz sustenta que no amor precisamos convencer a vontade do outro. Não é, afinal de contas, um bom resumo para o nosso trabalho? Cada texto literário é um pedido de hipoteca de um pedaço do tempo e do amor dos seus possíveis leitores. É fascinante que as roupas e o próprio corpo de Bargeton e Rubempré não tenham mudado; mudaram as condições de leitura que cada um impôs ao outro. É por isso, talvez, que o lado pouco indagado, porém real, do amor seja um reino composto pelo medo, posse e paranoia: quem sabe quando as regras do jogo vão mudar e nascerá uma necessidade dilacerante, aquela que pede favores à distância e ao silêncio? Estamos atados a tantos corpos e textos; a palavras que mudam ao sabor dos ventos de cada época; enredados em ardis criados pelas deusas de rostos terríveis, vincados, cujos olhares inescrutáveis se mantém fixos diante de nós; nomes que se movem de modo nem sempre compreensível, vontades escondidas na nosso própria sombra.

Desta forma, no amor sou sempre vítima, algoz, credor, juiz, tirano, devedor e suplicante. Como os romances e os sonetos, preciso ser habitado para conseguir sobreviver; e haverá em mim a falta, a fratura, através da qual sou regido pela deusa.

Crônica publicada originalmente no site Outros Críticos e no suplemento Pernambuco

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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