Bartleby e companhia – Enrique Vila-Matas

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Talvez a melhor forma de se falar sobre o livro Bartleby e companhia fosse através do silêncio. De sons e palavras. Seria mais coerente fazer qualquer outra coisa ao invés de ficar matutando em frente ao computador na intenção de escolher os melhores termos para usar nesta resenha. No máximo, quem sabe, escrever uma desculpa para justificar o vazio. Mas o que seria do silêncio não fosse o barulho?

É justamente para valorizar o silêncio que existe a obra de Enrique Vila-Matas. Com ela, a “literatura do não” ganhou destaque, rendeu ao autor espanhol o Prêmio Cidade de Barcelona (2001) e foi considerado o melhor livro estrangeiro da França em 2002. Um paradoxo para uma obra que tem como tema o mal contemporâneo das letras.

Em Bartleby e companhia, Vila-Matas conta a história de um escritor que, para quebrar a abstinência de 25 anos sem escrever, resolve fazer um diário com casos de silêncio na literatura. Tira licença do trabalho e se isola no seu apartamento para se dedicar ao que ele chama de notas de rodapé de um texto invisível.

Assim, ele reúne uma série de curiosidades em torno de escritores que foram acometidos pelo mal de Bartleby, este um misterioso personagem de Hermann Melville que de repente torna-se apático e passa dias inteiros sem fazer nada. É o caso do jovem Clément Cadou, que depois de se encontrar com Witold Gombrowicz, um dos seus escritores preferidos, sentiu-se como uma peça de mobília perto do ídolo e, por isso, abandonou a promissora carreira literária para se dedicar à pintura de auto-retratos – guardas-roupas, sofás e poltronas.

Os motivos para a renúncia à literatura são muitos e as desculpas mostram que não foi por falta de imaginação. O francês Rimbaud, por exemplo, deixou de escrever poemas aos 19 anos para traficar armas na África. O mexicano Juan Rulfo teve na morte do seu tio Celerino, que sempre lhe contava histórias inspiradoras, a justificativa para o silêncio.

Já o espanhol Felipe Alfau culpou a língua inglesa, pois, segundo ele, ao aprender o inglês, passou a reparar em novas questões e se viu inseguro para continuar a escrever. Outro causa interessante é a de Robert Walser, que abandonou a literatura por discordar da sua fama, porque ela dava um sentido de propriedade aos textos, quando, para ele, a obra deixa de ser do autor quando é recriada pelos leitores.

Vila-Matas faz de Bartleby e companhia quase uma enciclopédia sobre a literatura do silêncio. Vai além das biografias, usa frases tiradas de livros, cartas e entrevistas, relembra obras e personagens do não. Um dos mais geniais é o Paranóico Pérez (criado por Antonio de la Mota Ruiz), que sempre que tem idéias para um romance, logo as vê publicadas no novo livro de Saramago.

Em meio a esses divertidos relatos, Vila-Matas também expõe as dificuldades do narrador para escrever as notas. Nesses intervalos, o personagem conta sobre sua solidão, seu azar com as mulheres, abre espaço para a invenção de novos casos do não, mostra os bastidores de sua caça aos bartlebys. E é nisso que está a grande sacada do autor espanhol. É graças a esses intervalos que Bartleby e companhia não é um mero almanaque, mas um romance. Uma obra híbrida, que costura histórias reais com ficção. Um ensaio acadêmico romanceado do silêncio, onde o narrador não se limita a citar as curiosidades do mal, mas a analisar o sentimento de vazio da humanidade e suas conseqüências para a literatura.

Thiago Corrêa
lido em Abr. de 2007
escrito em 22.04.2007

: : TRECHO : :
“Sou meramente uma voz escrita, quase sem vida privada nem pública, sou uma voz que atira palavras que de fragmento em fragmento vão enunciando a longa história da sombra de Bartleby sobre as literaturas contemporâneas. Sou QuaseWatt, sou mero fluxo discursivo. Nunca despertei paixões, muito menos agora, que sou apenas uma voz. Sou QuaseWatt. Eu as deixo dizer, minhas palavras, que não são minhas, eu, essa palavra, essa palavra que elas dizem, mas que dizem em vão. Sou QuaseWatt e em minha vida só houve três coisas: a impossibilidade de escrever, a possibilidade de fazê-lo e a solidão, física, evidentemente, que é com a qual agora sigo adiante.” (p. 55).

: : FICHA TÉCNICA : :
Bartleby e companhia
Enrique Vila-Matas
Trad. de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista
Cosac Naify
1a. edição, 2004
188 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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