Bartleby, o escriturário – Herman Melville

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O vazio que incomoda

Numa época onde os altos índices de violência, a intolerância religiosa, os discursos políticos e a desigualdade social beiram o absurdo, a arte parece investir cada vez mais nos extremos para atrair os olhares. São exposições de tripas humanas plastificadas, fotos reunindo dezenas de pessoas nuas, filmes de catástrofes, serial killers e invasões alienígenas, livros sobre conspirações históricas e choques culturais entre o ocidente e oriente.

O que os adeptos do denuncismo a base do tratamento de choque não sabem, porém, é que a duração de um tapa na cara não passa de alguns minutos, enquanto um simples gesto pode ser mais perturbador. O livro Bartleby, o escriturário, escrito por Herman Melville, é um exemplo disso. O autor de Moby Dick conta a história do escrivão Bartleby, através de um advogado de Wall Street, que o emprega como copista.

Apesar do escritório ter outros dois copistas não menos excêntricos, que se alternam diariamente nos períodos de mau humor, o narrador concentra o foco em Bartleby. Ele inicialmente parece ser um profissional capaz e reservado. Nada se sabe sobre ele, onde trabalhou, de onde veio, onde mora, se é casado, tem família ou mesmo qual sua idade. Até certo momento, isso desperta curiosidade, mas não importa, porque quieto no seu canto, ele faz o seu trabalho de maneira eficiente e sem incomodar os colegas.

O pacato Bartleby passa a ser considerado um problema depois que resiste a idéia de checar uma cópia que ele mesmo fez. Sem qualquer constrangimento, simplesmente diz: “prefiro não fazer”. E só. Não explica o porquê, nem inventa desculpas. A situação se complica ainda mais quando Bartleby anuncia que prefere não mais trabalhar. Ainda assim, ele continua no escritório, em pé, olhando para a parede de tijolo do prédio vizinho.

Sem ver nas negações um indício de protesto, nem de desafio a sua autoridade, o advogado sente-se desarmado para lidar com a melancolia do silêncio de Bartleby. Por ser ele quem conta a história, a reação dos leitores acompanha os passos do narrador. Primeiro vem a curiosidade, depois a solidariedade e por fim a impotência seguida de rejeição.

Aos poucos, Melville vai pingando gotas de mistério em torno de Bartleby. O narrador não o vê comendo nada além de balas de gengibre, depois descobre que ele nunca sai do escritório e dorme por lá mesmo. A excentricidade do copista, porém, torna-se ainda mais intrigante quando ela se mistura com a admiração do advogado pelo funcionário. Ele tenta ajudar, compreender as razões de Bartleby, mas não consegue romper a solidão do funcionário.

Ao perceber que a presença dele começa a incomodar seus clientes e colegas, o narrador começa a tomar providências. Manda o copista embora, oferece ajuda financeira, mas nada adianta. Até que ele próprio resolve mudar o endereço do escritório. Bartleby fica, lembrando um pouco a inconveniência do personagem de Paulo Miklos no filme O Invasor, mas sem qualquer cheiro de maldade.

Com sutileza, Melville constrói Bartleby como a antítese de uma época onde os valores materiais e o trabalho adquiriram status de indispensável, e a ganância passou a ser uma qualidade. Seu personagem, sem nem precisar falar, consegue inverter essa lógica e colocar os leitores diante de um paradigma – quem tem a vida mais absurda? Em meio aos monstros, terroristas e assassinos das histórias de hoje, a renúncia silenciosa do inofensivo Bartleby é a que causa mais destruição.

Thiago Corrêa
lido em Mai. de 2007
escrito em 18.05.2007

: : TRECHO : :
“Bati o olho nele fixamente. Sua face chupada mostrava-se calma, e os olhos cinzentos, parados e opacos. Nem uma ruga de tensão. Tivesse eu percebido a menor inquietação, raiva, impaciência ou mesmo impertinência em seus modos, ou por outras palavras, tivesse eu sentido alguma coisa de normalmente humano em Bartleby, que sem dúvida o teria violentamente escorraçado do meu escritório.” (p. 33).

: : FICHA TÉCNICA : :
Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street
Herman Melville
Trad. de Luís de Lima
Rocco
1a. edição, 1986
100 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

3 Comentários

  1. Pingback: A cabeça do futebol - Vários - vacatussa

  2. Jerônimo Ayala em

    Faltou dizer: Depois da morte de Bartleby, o advogado descobre que, ante de trabalhar com ele, o funcionário era responsável pelas cartas que retornam pois o destinatário não foi encontrado.

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