Boa viagem, Anette

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Sobre a madeira clara de uma cadeira reta sem estofado encostada em uma parede bege, um jato de sangue respingado vividamente como se lançado de uma única e violenta vez sobre as costas da cadeira, rebatendo na parede vermelho encorpado, respingado ferozmente sobre a cadeira clara e dura encostada em uma parede bege: foi o que Anette viu atendendo ao chamado de Ernst, que se espaçava dela pouco menos de um metro e meio. Ernst segurava um postal de arte pinçado por ele da grande estante de postais apoiada sobre parede direita do corredor que leva à livraria de artes da galeria Gropius Bau, em Berlim. Era janeiro e fazia um frio enorme. Ernst convidou Anette para ver a exposição Das Russische Bauhaus, em cartaz justamente na semana em que Anette visitaria a cidade e, já à porta do prédio histórico de colunas e arabescos que abriga a galeria, apressaram-se para livrar-se do vento chuvoso que lhes empurrava com resistência os passos.

Anette sorriu e, prontamente ao ver o postal apontado por Ernst, lembrou-se do trabalho de um dos seus artistas favoritos, Cildo Meireles, você entra e é um pequeno hall todo vermelho, paredes e tapetes, você tem que tirar os sapatos e colocar numa estante também vermelha para continuar caminhando pelo espaço e se deparar com o resto de uma casa inteira toda vermelha, sala, quarto, cozinha, sofá, cama, espelho, geladeira, uma imensidão vermelha que remete a várias coisas, de glamour e luxúria a universo pop e intimidade, não sei bem ao que remete, e você continua caminhando até que o vermelho, como um funil, vai virando uma marcação sobre o chão, como um caminho, que te leva a um corredor escuro de uma sala toda escura onde, ao final dela, última parede, uma luz amarela ilumina unicamente uma pia de cerâmica muito branca com uma torneira muito limpa de alumínio por onde escorre um líquido vermelho… a propósito, qual o nome do artista desse trabalho impresso no postal? Ernst deu os ombros e devolveu o postal à grande estante. Entraram na livraria enquanto aguardavam uma trégua da chuva que parecia não ter fim. Por essa hora eles já haviam visto todas as salas expositivas com a história da escola de design russa contada por gravuras e estudos arquitetônicos emoldurados pelas paredes, contemplando de temáticas comunistas a previsões futuristas.

Da Gropius Bau se pode ver ainda um trecho do muro que dividia Berlim num passado nem tão distante para a história do homem no mundo. Sabe que no entretrecho do muro de Berlim havia um espaço com várias armadilhas, cama de espinhos e outras atrocidades para evitar que cidadãos passassem de um lado para outro da cidade. Sempre me pergunto como as teorias de Marx foram implementadas de forma tão adversa do que em si elas propõem… Durante aquelas noites, enquanto os dois lados de uma mesma nação dormia, a faixa do muro era uma linha de iluminada entre dois breus por onde só grandes audaciosos ou loucos se atreviam passar.  Hoje, muro desativado, há um parque em um dos seus intervalos onde, no verão, há muita gente, festivais, é muito bonito. Você veio a Berlim na época errada Anette, deveria voltar com o sol, em agosto quem sabe.

Após muitas estantes e figuras de arte, o céu de Berlim pareceu acalmar-se. Ernst e Anette pegaram todos os seus agasalhos na chapelaria. Anette, pela falta de intimidade, precisou de um tempo até vesti-los todos de forma confortável e quente. Saíram da Gropious Bau ainda sob uma leve onda chuvosa. Pelo caminho em voltas perdidas, típicas dos que desbravam espaços seguindo para lugar nenhum, era possível ver muitos pinheiros abandonados pelas calçadas. Um corredor de pinheiros mortos. Ao termino das comemorações de fim de ano se abandona pelas ruas as árvores que, enfeitadas, revolviam lares em festa. Seguiram caminhando entre as pinheiros mortos e restos de iluminação natalina que ainda envolviam grandes árvores sem folhas pelos canteiros da cidade.  Na vinda pra Berlim vi um filme italiano “Termina sempre assim, com a morte. Mas primeiro havia vida escondida sob o blá, blá, blá. Está tudo sedimentado sob o falatório e os rumores. O silêncio e o sentimento. A emoção e o medo. Os insignificantes, inconstantes lampejos de beleza. Depois a miséria desgraçada e o homem miserável. Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo.”* Eu estava em um ônibus de viagem quando vi o filme e repeti esse trecho várias vezes até decorar.

Quando a noite já se apresentava, Ernst e Anette alcançaram um castelo construído por um rei romântico como presente para a cidade onde havia sido sediado um hospital a tempos atrás. Em meados dos anos 50, o castelo já abandonado foi invadido por artistas que o ocuparam com intervenções e exposições. Anos passados, o governo legitimou a ocupação e hoje esse castelo abriga galerias, restaurantes, escolas de arte e tudo mais, de salas que vão do luxuoso ao anárquico. Caminharam margeando o prédio até alcançarem uma entrada lateral em um escondido corredor entre o castelo e um grande muro onde estava pixado New Yorcker. Havia uma porta muito suja seguida por uma escadaria com pixações e cartazes com temas de festa a aulas de yoga. Ao fim dos degraus, uma ocupação completa de muros, salas e chão, entre pessoas, cartazes, grafites, projeções de vídeo e um balcão onde se vendia cerveja e alguma comida. Em uma das salas dessa ocupação, um grupo chileno entoava canções engajadas em violões rápidos e vozes assertivas. Sentados no chão da sala onde acontecia o conserto, entre goles de cerveja e já com outros amigos alemães de Ernst, ele se aproximou do ouvido de Anette e revelou Gosto muito do cinema italiano. Gosto muito da Itália de como produzem arte e essa incansável busca deles pela beleza suprema mas, sobretudo, do cinema italiano. Adoro quando Bertolucci coloca três belos jovens vivendo utopias numa bolha libertina em um apartamento enquanto Paris está imersa em uma revolução. Eles três numa virtuosa revolução poética dentro deles mesmos, pervertendo a moral enquanto se entretêm entre joguetes e blá, blá, blás sobre cinema. Anette tomou mais um gole de sua amarga cerveja alemã e sorriu. Um pouco ébria, ouvia quase atentamente o discursar de Ernst. Aproximou-se, agora ela, do ouvido dele Sabe que quando eu era adolescente adorava ver Beleza Roubada, do Bertolucci. Vi várias vezes repetidas, principalmente as cenas da festa e da dança contemporânea no jardim. Aquilo me parecia ao mesmo tempo que absurdo, meio mágico. Eu, menina que era, me identificava na ilusão dos amores inventados e o desprendimento dos artistas de almas livres. É uma atrocidade matar-nos a inocência e tolher-nos a liberdade. Nisso está a beleza. Ernst sorriu ao ouvir as elucubrações bêbadas dessa mulher que pouco conhecia. Pegou-a pela mão e levou-a a uma das janelas pixadas da ocupação, fora da sala do conserto engajado chileno, num corredor próximo ao bar. Contrariando o frio proveniente das ruas de Berlim, abriu a janela.  Abraçou Anette afetuosamente e debruçaram-se sobre o parapeito gelado. Sobre a grande beleza… Após um curto silêncio de vento gelado e paisagem nebulosa, Ernst disse, com o olhar perdido adiante O outro lado é o outro lado. Eu não vivo o outro lado. Portanto… que esse romance comece. No fundo… é apenas uma ilusão. Sim, é apenas uma ilusão.”*

 

*Trecho do filme A Grande Beleza – Paolo Sorrentino

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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