Bonequinha de Luxo – Truman Capote

0

Se existe uma característica que possa dar uma idéia do que é a literatura americana, então ela só pode ser a objetividade. É impressionante como eles conseguem ligar dois pontos usando uma reta, sem desviar ou se perder no caminho. Com uma concisão jornalística, contam suas histórias através de ações, sem muito espaço para reflexão, apenas passando pela tangente dos sentimentos. E isso, quando se trata de autores como Hemingway, Fitzgerald e Truman Capote, já é o suficiente.

Capote é um dos escritores americanos mais conhecidos do século XX, tanto pelo que escreveu, quanto pela sua vida junto à alta sociedade. Sua obra mais significativa é A sangue frio, considerado uma referência do chamado jornalismo literário pelo seu estilo inovador. Mas foi com Bonequinha de luxo que ele primeiro conseguiu o passe de acesso às festas e colunas sociais. Adaptado para o cinema em 1961, a personagem Holly Golightly foi imortalizada na pele da atriz Audrey Hepburn.

Relançada pela Companhia das Letras, a nova edição brasileira de Bonequinha de luxo conta ainda com três contos – Uma casa de flores, Um violão de diamante e Memória de natal. A escolha deles não foi em vão. O volume reúne narrativas com as mesmas características. Todos mostram personagens que vivem à margem da sociedade, uma garota de programa caipira com sonhos de grandeza, uma prostituta, um presidiário e uma velha que depende da família. E, à exceção de Uma casa de flores, todas as outras histórias são narradas por um personagem secundário, que alimentam a chama da lembrança através da admiração pelos protagonistas.

No caso de Bonequinha de luxo, o narrador é um aspirante a escritor que mora no mesmo prédio de Holly. Ela só o chama de Fred, por se parecer com o irmão dela que está no exército, em plena Segunda Guerra Mundial. Sempre a sombra de Holly, pouco sabemos sobre o narrador. Ele praticamente só entra na história nos momentos em que ela participa de sua vida. Assume uma posição passiva e submissa diante dela, agindo como se ficasse maravilhado com a presença de Holly.

Holly Golightly é uma personagem que não liga para o que os outros dizem, tem regras próprias. Para ela, o mundo gira ao seu redor. É uma daquelas mulheres inatingíveis que sabem usar a beleza e seu jeito descontraído para conseguir o quer. Não se apega a nada, desistiu de fazer carreira em Hollywood, foi repentinamente para Nova Iorque, onde vive em meio a festas e gente influente como o milionário Rusty Trawler e José Ybarra-Jaegar, um diplomata brasileiro. Nutre o sonho de se casar com um homem rico e ser habitué da Tiffany’s, onde o silêncio, orgulho no ar e cheiro de carteira de crocodilo a tranqüilizam.

O mais intrigante em Holly é que, apesar desse espírito fútil, interesseiro e às vezes venenoso, ela continua sendo uma pessoa doce e cativante. Sua vontade de vencer na vida faz com que ela consiga superar seu jeito de menina, ingenuidade e insegurança, com coragem, independência e decisão. Assim é Holly Golightly, tão obstinada quanto a objetividade americana.

Thiago Corrêa
lido em Dez./Jan. de 2006
escrito em 11.01.2006

: : TRECHO : :
“É difícil demais e, quando você é inteligente, é muito constrangedor. Meus complexos não são tão inferiores assim: todo mundo acha que ser estrela de cinema éter um ego do mesmo tamanho de um bonde são coisas que andam de mãos dadas; na verdade, o essencial é não ter ego nenhum. Nada contra ser rica e famosa. Isso está nos meus planos, e qualquer dia desses vai dar certo; mas quando isso acontecer, quero estar com o meu ego aqui comigo. Ainda quero ser eu mesma quando acordar numa bela manhã para tomar café-da-manhã na Tiffany’s.” (p. 38)

: : FICHA TÉCNICA : :
Bonequinha de luxo
Truman Capote
Trad. Samuel Titan Jr.
Companhia das Letras, 1a. edição, 2005
145 páginas

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

Comente!