A cantora

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Ultimamente tenho transbordado em olhos marejados. Semana passada fui a um show pequeno de uma cantora negra da minha cidade, uns arranjos minimalistas de dois metais e um violão, ela no fronte dos homens, corpo, voz, energia, o que parecia mínimo por ela se amplia. O espaço para o show era de uma sala estreita e o movimento do trombone quase alcançava a ponta do meu nariz várias vezes. Eu, sentada muito próxima aos músicos, e essa minha mania de olhar muito dentro dos olhos das pessoas como quem busca uma alma cúmplice, olhei várias vezes dentro dos olhos do senhor do trombone, também negro, com uns cabelos longos trançado após a leve calvície que o acentua uma testa reluzente. Ele também me olhava, talvez com um olhar mais curioso que cúmplice. Dessa curiosidade presente nos homens diante de uma mulher. As vezes acho que há um certo temor nesses olhares que buscam identificação e proximidade. Eles, por vezes, são mal interpretados e isso me frustra um pouco.

As músicas de Isaar falam da vida com um apropriamento minucioso e delicado de quem a vive. Das coisas miúdas e a miúde, da borboleta, do rio que dá pra ver da janela de casa, do azul nas coisas, de amor, de saudade. Teve uma hora que ela disse Se vocês acham que o show tá meio morgado, agora que ele vai ficar triste mesmo e começou a cantar uma música tão baixinha, tão de dentro e doída, a voz potente dela escondidinha. Acho que o que mais me impressionou no show era justo o que não estava ali pra impressionar, nada ostentava complexidade e, mesmo assim, o era em sua verdade melancólica tão presente que batia em mim. Lembrei de um seminário que participei sobre música de resistência latino-americana e acho que por causa desse seminário comecei o texto falando de uma cantora negra e a importância de falar de sua pele, da história que sua cor carrega consigo, das más interpretações sofridas por suas manifestações de identidade, da resistência presente quando já se nasce sob determinadas condições de raça, classe e gênero. Quando Amanda, que ministrava o seminário, nos questionou sobre qual era o conteúdo que identificávamos nas músicas que ela nos mostrava, fomos percebendo que, em sua maioria, elas falavam justo das coisas miúdas e a miúde, da borboleta, do rio que dá pra ver da janela de casa, do azul nas coisas, de amor, de saudade, da rotina na vida simples, da comida, da dança, das representações que seguram uma cultura e manifestações por gerações. Representações acolhedoras, que nos afastam de um sentimento de solidão e nos aproximam de uma coletividade por identificação. E eu olhava pra Isaar ali cantando. E o negro senhor do trombone, seu metal bem próximo ao meu nariz. Eu olhava pra mim, mulher, e o meu olhar reprimido por uma sociedade que o vulgariza, ainda e infelizmente.

Essa semana vi uma mulher negra que admiro decepcionada com a violência dos homens e com falta de sororidade entre mulheres. Essa semana uma outra mulher que também admiro, me confessou sentir-se triste por seu jeito de estar no mundo, que vejo belo e leve, provocar sentimentos de ciúmes em um casal que ela ama. Essa semana vi Isaar ali, negra, corpulenta e sua voz entoando no fronte. Foi quando senti vontade de abraça-las e meus olhos, mais uma vez, transbordaram.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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