Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez

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Ler Cem Anos de Solidão é sentir saudade, é contemplar o pôr-do-sol pensando em alguém, desejando seu abraço, seu olhar, o sorriso e ao mesmo tempo, a cada página lida, perceber que o fim está se aproximando, que o alaranjado celestial não é eterno e que aquele olhar/sorriso já não existe mais além da dor da lembrança.

É um livro sobre o tempo, um livro triste que vai rasgando por dentro, sereno, como se fosse um amor que estivesse acabando e nada mais se pudesse fazer além de esperar o fim.

Gabriel García Márquez brinca com o tempo, transita no presente, vai pro futuro, volta pro passado… tudo numa naturalidade que não fragmenta, nem impede o fluxo da história. O melhor de tudo é que Gabriel García Márquez faz isso com simplicidade, deixando a impressão de que até parece ser fácil. Para se ter uma idéia, a primeira frase do livro já indica que o Coronel Aureliano Buendía ficará diante de um pelotão de fuzilamento, mas esse fato só vem a ser tratado 118 páginas depois. É um processo doloroso, vamos nos apegando aos personagens já sabendo como será o seu fim. Tudo em Cem Anos de Solidão tem o aspecto de uma despedida.

Assistimos a fundação de Macondo, acompanhamos a trajetória dos Buendía, a evolução histórica de uma parte da civilização, a chegada do cinema, o trem, os conflitos políticos, a invasão do capitalismo americano. É um livro sério, com grande teor político, levanta questionamentos sobre a necessidade de leis, a exploração humana, a política como uma forma de interesse pessoal, o poder acima de tudo e os métodos do capitalismo.

Porém, apesar de abordar esses temas, Cem Anos de Solidão não cai na burocracia dos discursos políticos. Gabriel García Márquez camufla sua denúncia através do cotidiano dos Buendía, dá um tom leve à história construindo cenas fantásticas, mesclando sonhos com realidade. Faz algo tipo Kafka em A Metamorfose, Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe, o cineasta Melies nas primeiras histórias do cinema. O impossível adquire tons de realidade que se confundem com poesia. É como se o autor dissesse que a literatura é o lugar ideal para os sonhos se realizarem.

Cem Anos de Solidão me tocou, entrou em minha alma, contaminando a alegria, transformando-a numa melancólica tristeza alaranjada de pôr-do-sol, bela e resignatária da qual tenho orgulho em senti-la. Agora me sinto mais parte do mundo que quero para mim. A leitura de Cem Anos de Solidão deveria ser obrigatória, não apenas pelo seu valor literário, mas pelo seu poder de humanização.

Thiago Corrêa
lido em Ago./Out. de 2004
escrito em 30.10.2004

: : TRECHO : :
“o Coronel Aureliano Buendía arranhou durante muitas horas, tentando rompê-la, a dura casca da sua solidão. Os seus únicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade” (p. 166)

: : FICHA TÉCNICA : :
Cem Anos de Solidão
Gabriel García Márquez
Trad. Eliane Zagury
Record, 53a. edição
394 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

6 Comentários

  1. Ciça Buendía em

    Como uma legítima Buendía, nascida em Macondo, apaixonada por García Márquez, não poderia deixar de aplaudir este comentário acima citado e de transcrevê-lo: “Cem Anos de Solidão me tocou, entrou em minha alma, contaminando a alegria, transformando-a numa melancólica tristeza alaranjada de pôr-do-sol, bela e resignatária da qual tenho orgulho em senti-la. Agora me sinto mais parte do mundo que quero para mim. A leitura de Cem Anos de Solidão deveria ser obrigatória, não apenas pelo seu valor literário, mas pelo seu poder de humanização”.

  2. Etiane Tavares em

    É incrivel que depois de ler Cem Anos de Solidão, há tantos anos , hoje sinto um reecontro com os Buendía. O pôr -do -sol alaranjado e a dor da solidão. Uma dor dilacerante, solitária e infitamente humana.

  3. esse livro tem umas das historias mas lindas de toda minha
    vida de leitorquero q vc tenha atensão toda voltada para esse livro
    q é incrivel acho q podemos definir a solidão no melhor sentido
    de tudo isso

  4. É a obra-prima que marcou a minha adolescência, Cem Anos de Solidão. O melhor livro que já li, e olha que não foram poucos nestes parcos anos de vida. E será meu favorito até a minha despedida, tenho certeza.

  5. Jailton Junior Ferreira Ribeiro em

    Adorei o livro e admito que só comecei a lê-lo por causa do seu subtítulo (ganhador nobel… bla bla bla). O tédio do início se transforma em emoção e esta em uma tristeza dupla que se traduz tanto no fim que os personagens vão tomando quanto na proximidade com o fim do livro. Isso chegou a mudar até o meu dia a dia… me deixou mais humano e melancólico ao mesmo tempo, quase incorporando o ar de solidão da linhagem Buendia.
    No entanto, a tristeza passa. Acho que sou uma pessoa melhor depois de ter lido “Cem anos de solidão” e sou muito grato ao Gabriel G. M. por isso.

    Abraço a todos.

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