5 perguntas para Cristiano Ramos

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Exceto talvez para os seus amigos mais íntimos, a estreia na poesia do poeta, professor e crítico literário Cristiano Ramos tomou todos que acompanhavam seu trabalho de surpresa. Já firmado como uma das mais promissoras vozes da crítica literária atual, Ramos agora também se junta ao rol de poetas cuja estreia não pode deixar de chamar nossa atenção. Pois seu primeiro livro de poemas, Muito antes da meia-noite, recém-lançado pela cada vez mais chique editora carioca Confraria do Vento, contém sóbrias, portanto instigantes, reflexões sobre temas que dizem respeito a todos nós, seus agora leitores. E que temas seriam esses? Segundo o poeta e crítico José Juva, o livro de Ramos é “calcado num exercício de recuperação e invenção de memórias pessoais e que reflete sobre a tensão na existência das irmãs siamesas: morte e vida”. Para falar sobre essas tensões, bem como sobre poesia de modo geral, conversamos por e-mail com Cristiano Ramos.

muito-antes-da-meia-noiteCRISTHIANO AGUIAR | Cristiano, sempre imaginei que quando pudesse ler um livro seu de literatura, eu leria um romance, ou livro de contos. Ao ler seu livro Muito antes da meia-noite, porém, descubro que você tem escrito poesia desde os anos 90. Gostaria que comentasse conosco como ocorreu a sua descoberta da poesia e por que nunca tinha publicado seus poemas antes.

CRISTIANO RAMOS | Poesia foi primeira linguagem que me emocionou e pareceu familiar. Em nada fui precoce: demorei a falar, aprendi a ler com quase oito anos, e só comecei a vencer a timidez doentia lá pelos treze – justo quando descobri a poesia. Era linguagem/espelho onde minha existência parecia menos obtusa – ou melhor, ela assim continuava, mas agora eu podia pensá-la e até exprimi-la. Comecei escrevendo por deslumbre, fascinado com aquela experiência de alteridade e comunicação; imitava os autores, cada poeta lido era convite para navegar noutras dicções. Contudo, nem me passava pela cabeça publicá-los. Quando hipótese chegou, veio junto a dúvida que ainda me acompanha: esses meus textos são mais que poemas? Ou seja (e tomo emprestada formulação de Octavio Paz): no encontro desses versos com o leitor, a poesia acontece?

CA | Você desempenha, com muito destaque, a função de crítico literário militante e também de intelectual público. Diante disso, por que a poesia? Qual função social enxerga hoje nela?

CR | Ainda menino, crítica chegou na carona de João Cabral, porque bibliotecária trouxe exegeses junto com os livros que pedi. Lembro que, ao ler ensaios de Antonio Carlos Secchin, pensei “é isso que desejo da vida, escrever sobre literatura”! Na minha ingenuidade, os livros eram algo tão fantástico, tão extraordinário, que estudá-los e comentá-los devia ser profissão viável e muito respeitada! A família, que me desejava médico, não se desapontaria tanto! De toda forma, e para bem ou para o mal, tornei-me crítico literário. Sigo, entretanto, sem ter resposta para esta sua pergunta. Tentando de forma negativa, penso sobre como seria o mundo sem poesia; e, mesmo que eu não possa comprovar ou bem especular, suspeito que algo de fundamental seria perdido. Este dizer/lugar/ser pode até ser vilipendiado ou negligenciado; porém, com seu definitivo desaparecimento, talvez chegássemos à antessala de nossa própria extinção – não que a poesia seja requisito para sobrevivência da espécie, mas porque seu sumiço seria sintoma de um mal incontornável.

CA | Sinto em sua poesia uma série de metáforas espaciais relacionadas ao escuro, às profundezas, aos interiores, ou àquilo que, antes escondido, se revela. É o caso, por exemplo, do poema sem título da página 19: “Toda reforma descobre palavras”. Poderia comentar um pouco essa impressão?

CR | A poesia me chegou quando tudo era escuridão! Tudo era estranho: falar, ler, escrever, sonhar, viver… Certa forma, eu ainda não tinha nascido, saí do ventre materno e caí noutro breu. Eu era o menino esquisito, cujos parentes arriscavam diversas formas de fracasso, menos o suicídio – que tentei (confesso aqui pela primeira vez), para descobrir que até nisso era inepto. A tentativa só rendeu terríveis dor de cabeça, febre e diarréia, que atribuíram à minha “saúde de passarinho”. Continuada a vida e a leitura de poesia, segui na escuridão, mas ela começou a ser vivida, refletida, ressignificada. Então, mesmo com a conquista de mais coragem e de algum domínio de outras linguagens, a poesia persistiu como veículo para algumas ideias que não consigo acessar ou expressar de outra forma. Talvez por isso minha paixão por Octavio Paz – por dividirmos essa crença na voz poética como algo além!

CA | Vários dos poemas do seu livro lidam com a ideia da mortalidade. Que sabedoria a poesia tem a nos ensinar sobre esse tema?

CR | Sou humanista tardio e problemático (em nossos dias, pode haver outro tipo?). Como Todorov, assumo esse “jardim imperfeito”. Acredito que não nos podemos libertados dos valores – e, se pudéssemos, creio que já não seriamos nem racionais, nem materialistas, tampouco humanistas, sequer humanos. Não podemos é deixar de pensá-los e desejar aprimorá-los sempre!  Também creio nas possibilidades sapienciais da literatura. Afinal, se toda experiência é capaz de nos ensinar algo, por que com as literárias seria diferente? Então, quando escrevo poesia, muitas vezes busco sim algum precário aprendizado – contudo, sem jamais querer textos de auto-ajuda! Vejo duas diferenças: a sabedoria que me interessa não implica paz ou felicidade, ela costuma é inquietar, desasossegar; e não desejo repassá-la – pelo contrário, quaisquer versos apenas serão poesia se permitirem que cada leitor faça sua própria jornada, reelabore suas próprias memórias, tenha suas próprias aprendizagens e desaprendizagens.

CA | Você prepara um novo livro de poemas e, pelo pouco que pude saber dele, o livro caminhará por uma trilha diferente da de Muito antes da meia-noite. Ao que parece, haverá elementos mais narrativos nos poemas. Como será esse novo projeto?

CR | A “meia-noite” – citada no título deste livro recém lançado – foi momento de alguma clareza (mesmo que frágil) sobre a poesia que eu ainda poderia desejar: menos memorialística, com um “eu” mais narrativo e nada confiável, com menos variações formais, e com maior diálogo entre os diferentes poemas. Este segundo (e tenho quase certo que derradeiro) livro de poesias será o “Véspera das águas & Antologia Mínima de Poetas Submersos”. Na noite anterior à inundação de uma vila, dois narradores visitam seus lugares e objetos, e os versos sugerem questionamento: ainda-e-como somos, quando esses vestígios (submersos sejam lá sob quais marés) restam apenas como memórias e, portanto, como invenções? Primeira versão do livro está pronta, mas suspeito que novamente será lida por muitos poetas e críticos amigos, e retrabalhada por anos, naquela tentativa (vã?) de que, ao encontrar eventuais leitores, aconteça poesia. Sinto que falhar nessa demanda sempre me será aceitável; mas abandoná-la, imperdoável.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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