5 perguntas para Eduardo Cesar Maia

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A chamada crítica de rodapé, que até pouco tempo era o palco principal para a difusão e a análise da literatura no Brasil, teve no pernambucano Álvaro Lins um dos seus expoentes. Com a chegada dos cursos de Letras, porém, a crítica de rodapé acabou perdendo prestígio diante de uma proposta de visão científica pleiteada pela academia. Mas graças ao trabalho de alguns pesquisadores esse legado tem sido recuperado, devolvendo a importância de Álvaro Lins ao mundo das letras. Um desses pesquisadores é o jornalista e crítico Eduardo Cesar Maia, responsável pela organização do livro Álvaro Lins: sobre crítica e críticos (2012) e Álvaro Lins: sete escritores do Nordeste, que será lançado amanhã, 19 de março de 2015, às 19h, no Museu do Estado de Pernambuco, Av. Rui Barbosa, 960, Graças, Recife.

THIAGO CORRÊA – Como se deu o recorte para compor Álvaro Lins: sete escritores do Nordeste? Como foi o processo de escolha? Quem ficou de fora?

EDUARDO CESAR MAIA – Álvaro Lins: sete escritores do Nordeste é a segunda etapa de um projeto mais amplo de resgate, redimensionamento e atualização do pensamento e da obra crítica do intelectual pernambucano. É muito curioso como o crítico mais influente do país e dos mais argutos daquele tempo pode estar, em nossos dias, quase que completamente esquecido, tanto por acadêmicos como por jornalistas.

O processo de escolha dos artigos e ensaios para este livro obedece ao projeto mais amplo que venho construindo. Em Sobre crítica e críticos, publicado em 2012, selecionei textos em que Lins trata da atividade crítica em si mesma: reflexões, portanto sobre teoria e crítica literária. Agora, em Sete escritores do Nordeste, procuro mostrar o crítico em ação, enfrentando textos concretos, romances, contos e poemas de grandes autores pernambucanos e nordestinos. Esse recorte no Nordeste obedece, primeiramente, a uma curiosidade inicial minha. Lins saiu de Pernambuco muito jovem e fez carreira e fama no Rio de Janeiro, mas ele sempre esteve atento aos escritores e às circunstância políticas e sociais de sua terra. No livro, é possível confirmar essa atenção e também a honestidade intelectual dele, mesmo quando avaliava a obra de amigos ou  de desafetos. Outro fator para o recorte em Pernambuco e no Nordeste foi de ordem mais pragmática: recebi apoio do Funcultura para a pesquisa e, claro, trata-se de um incentivo que visa a promoção de valores artísticos e culturais do nosso estado e região.

De fora da seleção ficaram muitos autores, até porque Lins escreveu sobre a maioria dos escritores de seu tempo. A questão é que muitos deles se perderam no tempo; outros, como Gilberto Freyre, não eram propriamente escritores literários em sentido estrito.

No volume que publicarei ainda este ano – se tudo der certo – apresentarei minhas próprias ideias sobre a tradição crítica a qual Lins se filia. Proponho uma revisão crítica da tradição humanista, tão censurada quanto mal compreendida no século passado e ainda em nossos dias.

TC – A partir da escolha dos textos críticos sobre esses autores, que Nordeste é possível encontrar em suas obras?

ECM – É possível encontrar vários nordestes, ou pelo menos sete deles! Cada autor desses construiu um universo particular – e foi justamente isso que os fez importantes – a partir de sua visão peculiar de mundo e, claro, de suas circunstâncias “nordestinas”; cada um deles enfrentou essa questão da identidade regional a partir de suas idiossincrasias e de sua visão de arte. O que é o Nordeste na poesia de Jorge de Lima? Ou na poesia de alcance universalista de Augusto dos Anjos? E na prosa memorialística de Zé Lins? E no teatro trágico de um “exilado” como Nelson Rodrigues? Essa identidade e essa herança é particularíssima na obra de cada um e a recriação poética do Nordeste não obedece a nada fixo e determinístico, ou a qualquer lugar-comum folclórico, sociológico ou psicológico… Ainda que tudo isso obviamente influencie. Álvaro Lins era um crítico que buscava justamente encontrar na arte de cada um a singularidade, a persona artística. É bom lembrar que o grande modelo de crítica para ele era Sainte-Beuve, o autor das biografias literárias dos grandes escritores franceses.

TC – Uma coisa que me chamou atenção foi a forma como Álvaro Lins utilizava trechos das obras dos escritores para tentar compor a biografia do autor, caso de Augusto dos Anjos e de Graciliano Ramos. Até que ponto isso é válido?

ECM – O biografismo – esse mesmo que tem seu ápice com a crítica de Sainte-Beuve – foi muito criticado pela crítica e pela teoria literária do século XX. Parece-me que essa crítica tinha alguma razoabilidade naquele momento de excessiva preocupação com a vida privada dos autores – e principalmente com as fofocas –, em detrimento da literatura em si; mas, como costuma acontecer sempre, a crítica acabou se tornando ela mesma excessiva e radical. Tentar entender a figura humana, a personalidade e a visão de mundo do escritor-artista pode, a meu ver, trazer elementos muito interessantes para a apreciação de sua obra. Sei que essa não é uma visão muito popular em nossos dias, mas eu me considero em boa companhia ao lado de críticos dessa estirpe, ainda que estejam quase desaparecidos.

TC – Outro ponto interessante é como Álvaro Lins tinha uma visão ampla sobre o autor, buscando sempre contextualizá-los a partir de obras anteriores. Esse seria um dos segredos de Álvaro Lins? Como organizador, qual a sua contribuição para potencializar essa amplitude?

ECM – Álvaro era um crítico-jornalista. Ele acompanhava quase tudo que era publicado e escrevia sobre os autores consagrados e também sobre os estreantes. De fato, ele acompanhou obra a obra o amadurecimento artístico de muitos escritores brasileiros daquele período. Isso confere uma importância extra a seu legado crítico, a meu ver. Lendo os textos de Lins sobre um autor como Graciliano Ramos, por exemplo, você pode observar tanto o desenvolvimento do autor como o do crítico; é muito interessante ver como os valores, os parâmetros estéticos, a visão política de Álvaro Lins vão evoluindo e se reformando em contato com as obras que lê. Não que ele não tivesse opiniões fortes e, por vezes, certa cabeça dura para alguns temas, mas sua honestidade intelectual era a mais marcante de suas características: o contato com uma grande obra fazia com que ele se repensasse enquanto crítico e revisasse suas avaliações anteriores sobre o autor em questão.

TC – Considerando o cenário da crítica hoje, que lições você acha que esses textos de Álvaro Lins podem dar?

ECM – A crítica hoje, para usar a expressão de Riobaldo, lida “com ideias arranjadas”, com pré-avaliações baseadas mais em pré-concepções ideológicas e/ou teóricas. O personalismo crítico de Lins é uma lição, sim, para nosso tempo de resenhas jornalísticas, jargões acadêmicos abstrusos e de excessiva militância ideológica. Para críticos como Álvaro Lins, a formação de uma personalidade crítica era a busca principal – e interminável. Ler os ensaios críticos do pernambucano é exercitar, através de seu exemplo, a autonomia intelectual. Coisa rara em nosso tempo de sectarismos, modismos e espírito de rebanho.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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