5 perguntas para Isadora Krieger

0

Durante a programação da Balada Literária do ano passado, um dos lançamentos mais legais do evento foi o divertido romance Memória da Bananeira (Carniceria Livros/A Oficina do Santo), da escritora catarinense, radicada em São Paulo, Isadora Krieger, uma das criadoras do saudoso sarau Cabaret Revoltaire. Seu livro, uma mistura das obras de Campos de Carvalho e Hilda Hilst, lança mão de uma linguagem experimental para renovar uma das mais tradicionais formas romanescas: o romance espistolar. Junte a isso, além do mais, um agudo senso de humor e uma visão sem amarras da relação entre palavra e sexo e você encontrará, nas palavras do escritor André Sant’Anna, que assina a orelha do romance, “um livro de nonsense afetuoso”.

Em entrevista por e-mail, Krieger conversou com a gente, entre outros temas, sobre o processo de criação do seu livro, o porquê de ter trocado a Moda pela Literatura e o motivo pelo qual ela considera que Deus é um globo de pista de dança.

CRISTHIANO AGUIAR – Isadora, além da literatura, você se dedicava ao trabalho com Moda. Como o interesse pela literatura – tanto a leitura de obras literárias, quanto a vocação para ser uma escritora – surgiu na sua vida? E uma curiosidade: você acha que Moda e Literatura se relacionam de alguma maneira?

ISADORA KRIEGER – Trabalhei com moda durante 9 anos. Meus pais sempre gostaram de ler, a minha mãe escreve poesia e o meu pai escrevia sobre cinema. Mas eu comecei a ler tarde, mesmo sentindo desde criança uma grande inquietação e aquele oco persistente, o buraco que assombra o Vizinho que Igualmente É Triste e os outros personagens da Memória da Bananeira. Quando tinha oito anos uma professora me disse: “Tu és uma existencialista”. Assim que cheguei em casa perguntei para o meu irmão o que era um existencialista. Achei que a professora tinha me ofendido, rs. A coisa mudou mesmo quando a minha mãe me deu O fio da navalha, do Somerset Maugham. Depois deste livro comecei a ler intensamente. No fim, troquei a roupa e a boate pela leitura e pela escrita. Foi nesta época que a escrita voltou com força (na infância gostava de escrever poemas), até chegar o ponto em que eu perdi totalmente o interesse em criar coleções e desfiles. Percebi que tinha encontrado o que Joseph Campbell chama de canal da bem-aventurança. Aí não tive dúvida, anunciei o fim da marca, organizei um bazar, vendi o estoque, fechei a loja e comecei tudo de novo. Não foi moleza. Mas agora sinto que estou fazendo exatamente aquilo que deveria estar fazendo. Se a literatura e a moda se relacionam de alguma maneira? Depende do artista, da relevância da moda para um escritor, da relevância da literatura para um estilista, aqui dá para citar o Yves Saint Laurent, que teve um trabalho próximo das outras artes. Ah, na Memória da Bananeira tem um personagem que é estilista, chama Respiro Paetês Transpiro Parfum e Serei Enterrado na Fila A, rs Tudo, absolutamente tudo, pode virar material de trabalho.

CA – Gostaria que você compartilhasse um pouco com os leitores da Vacatussa como foi o processo de criação de Memória da Bananeira.

IK – A ideia inicial era fazer um livro de prosa e poesia. Entre os textos havia uma troca de bilhetes entre a Gioconda e o Genésio. Só que esta troca de bilhetes cresceu tanto que os bilhetes viraram epístolas. Foi assim que percebi que a história era outra. Então suprimi tudo que não era dos dois e comecei a escrever a Memória da Bananeira. Escrever uma história é conhecer os personagens, descobrir a voz de cada um, alguns personagens logo falam, outros são mais arredios. Por isso não posso ter pressa, principalmente nesta etapa. Depois que descubro as vozes a história flui com mais facilidade, me divirto, me surpreendo, me emociono com os personagens. E, claro, sempre tem a parte mais técnica, de dar forma para os jorros, de encontrar as palavras certas, de lapidação do texto, de analisar a sonoridade das frases, de reler em voz alta, de reler e reler, eu releio tantas vezes o meu texto que chego a decorar muitos trechos. Acontecem coisas extremamente sutis e meio malucas também. Vou contar um episódio engraçado, num momento da história a Gioconda colocou um prendedor de roupa no nariz, no início achei que isto não combinava com a sua personalidade, por ser um pouco ridículo. A principal questão era (sempre é): este personagem realmente faria algo assim? Então, lá fui eu na área de serviço pegar um prendedor de roupa e colocar no meu nariz, porque imitar os meus personagens às vezes me ajuda a esclarecer as dúvidas que surgem. Foi o que aconteceu neste caso, compreendi que a Gioconda estava desesperada. E eu nunca vi alguém desesperado se preocupar com o ridículo. Tem outra, na peça que estou escrevendo, tem um personagem inspirado no Kierkegaard e um globo de pista de dança que representa Deus. Na semana passada, de madrugada, chegando do trabalho, encontrei na frente do meu computador, bem em cima do livro do Kierkegaard, um pequeno globo de pista de dança. Pensei: Gente, Deus se materializou! Esses dias, enquanto escrevia, entrou um vento na sala e Deus caiu da mesa, mas sofreu apenas alguns arranhões, rs.

CA – Sempre que escrevemos um texto de ficção, há uma série de autores e obras que de alguma maneira orbitam a gente enquanto referências (algumas bem involuntárias, aliás). No caso de Memória da Bananeira, como se deu a questão das influências e diálogos com outros autores?

IK – Sim, estas aproximações geralmente acontecem de uma forma misteriosa. Por exemplo, fazia tempo que queria conhecer a Casa do Sol, mas nunca dava certo. E, justamente quando comecei a escrever a Memória da Bananeira, conheci o Jurandy Valença. Nos tornamos amigos e ele me levou na cerimônia do tombamento da casa. Acabei fazendo uma residência artística na Casa do Sol, a última carta do livro escrevi inteira lá, foram dias muito criativos e bonitos. Acontece também, quando surge uma dificuldade com a história, de eu alimentar o meu inconsciente propositalmente, alimentá-lo com filmes, músicas e livros que tenham a ver. Além da Hilda, outros autores e obras importantes foram: A Negação da Morte do Ernest Becker, O Outsider do Colin Wilson, Memória, Sonhos e Reflexões, do Jung, A Lua vem da Ásia, do Campos de Carvalho e Teorema, do Pasolini.

CA – Duas características chamam atenção no teu romance: o experimentalismo da linguagem e o humor. Poderia falar um pouco sobre isso?

IK – Nos meus primeiros textos o experimentalismo já aparecia. Com a Memória da Bananeira tive certeza que este é o meu jeito de contar uma história. Eu adoro a liberdade que o experimentalismo na linguagem me dá. Bom, descobri a aptidão para o humor na infância, na terceira série, quando os alunos da escola tiveram de expor trabalhos no pátio. Eu escrevi um poema engraçado, cada verso era dedicado a um professor. Mas o pessoal da escola ficou furioso, tiraram o cartaz com o poema do pátio, me chamaram na diretoria e me obrigaram a pedir desculpa para cada um dos professores. Lembro que fiquei surpresa, não entendi o motivo de tanto alvoroço. Eu acho o humor importantíssimo, inclusive, conversei com uma amiga sobre isto esses dias, o humor salva a gente. Por exemplo, você sai de casa e escuta uma voz te dizer: hoje você vai morrer. Então, você tem duas opções, ou acha que realmente vai morrer e surta. Ou você diz pra voz: obrigado por avisar, arrasou na dica. É isto, o humor tem a capacidade de nos salvar da loucura, daquela loucura que a Hilda chamava de excesso de lucidez. É justamente esta inversão de sentido através do humor que faço quando escrevo. Mas pra isto acontecer preciso estar disposta a tudo, não ter nenhum tipo de pudor.

CA – Por fim, que projetos nós, seus leitores, podemos aguardar para o futuro próximo?

IK – Estou escrevendo uma peça de teatro, chama Amadeleite, que será publicada no início de 2016, pela Carniceria Livros. Também vou participar de uma antologia, Amor versão Beta, organizada pelo Ivan Hegen.

Compartilhe

Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

Comente!