5 perguntas para Marcílio Machado Pereira

0
Marcílio Machado Pereira

Marcílio Machado Pereira

É impressionante a quantidade de pesquisas, guiadas pelas mais diferentes vertentes, realizadas hoje em dia no âmbito dos cursos de graduação e pós-graduação em Letras. Novas formas de leituras dos clássicos, problematizações sobre o cânone, discussões políticas sobre o texto literário, resgate de vozes esquecidas e oprimidas são, entre outros temas, instâncias privilegiadas pela pesquisa acadêmica contemporânea. Nem sempre, porém, essas pesquisas estão disponíveis para um público mais amplo, portanto é sempre uma alegria vermos a publicação, pela Editora Sieart, da coletânea de ensaios Entre as linhas do Piauí: 14 escritores em destaque, organizada pelo professor doutor (pela UERJ) Marcílio Machado Pereira, da Universidade Estadual do Piauí – campus Parnaíba.

Tomando como recorte um critério regional – a produção literária vinculada ao estado do Piauí -, os artigos do livro surpreendem ao nos apresentarem uma série de autores que deveriam ser melhor conhecidos nacionalmente. Para falar um pouco dessa publicação, bem como da literatura piauiense, de cânone literário, de literatura contemporânea e do papel dos cursos de Letras em todo esse processo, conversamos, por e-mail, com o próprio professor Marcílio Machado Pereira.

CRISTHIANO AGUIAR | Marcílio, você poderia nos apresentar o livro Entre as linhas do Piauí?

MARCÍLIO MACHADO PEREIRA | Trata-se de um livro produzido por graduandos do Curso de Letras-Português da cidade Parnaíba contendo 14 artigos e 2 ensaios sobre autores representativos da literatura piauiense (termo por si só polêmico na medida em que joga com a ideia de uma suposta identidade piauiense). A motivação surgiu pela constatação de que a maioria dos trabalhos sobre o tema classifica-se no campo das sínteses biobibliográficas, existindo poucos trabalhos de crítica literária. Pensou-se então em unir essas duas questões, com o foco recaindo na análise de textos literários. E é assim que apresentamos 14 escritores piauienses como os poetas Da Costa e Silva e Mario Faustino que se destacaram no Estado do Piauí ou nacionalmente.

CA | Quais são as principais características da literatura produzida no Piauí? É possível o estabelecimento, por exemplo, de vertentes ou temáticas recorrentes?

MMP | Em ensaio que fecha o livro observamos que a delimitação de uma literatura piauiense deve-se mais a uma necessidade metodológica e de preservação (ou resgate) da literatura feita aqui do que propriamente da afirmação de uma identidade diferente da nordestina, por exemplo. Pensar a partir de identidades é sempre perigoso e pode resvalar a qualquer momento para a supressão da alteridade. Não foi essa nossa intenção; ao contrário, a ideia foi sempre resgatar e reler textos que muitas vezes não encontram espaço acadêmico.

O que observamos em nossos autores de ficção pode ser, genericamente falando, encontrado em obras de autores de outros estados, pois o sentimento de amor à terra, o uso de uma linguagem típica e a recorrência de temáticas como a da seca, da miséria e da exploração não são exclusivas do Piauí. Por outro lado foi surpreendente constatar que poetas como Da Costa e Silva, Torquato Neto, Mario Faustino e H. Dobal se ligam muito mais a uma poesia filosófica, existencial e metapoética que a linhas geográfico-afetivas.

CA | E no caso da literatura contemporânea piauiense, que nomes hoje em dia se destacam?

MMP | Essa é a pergunta que esperamos responder se conseguirmos realizar uma espécie de volume 2 ou segunda parte, contendo autores contemporâneos. Eles existem, mas como em qualquer nível (até nacional) são menos estudados do que deveriam.

CA | Entre as linhas do Piauí é um trabalho surgido no contexto da produção acadêmica da UESPI e muitos dos autores tratados não são conhecidos nacionalmente como deveriam. É preciso ainda repensar o que se entende como o cânone da literatura brasileira? Qual o papel da universidade nesse processo?

MMP | Penso no cânone como num catálogo de referências que de vez em quando sofre alterações. Quando surge um Borges há o acirramento da eterna guerra entre os textos em busca da sobrevivência no cânone. Essa guerra é alimentada por academias, universidades, críticos literários e muitos outros que se interessam por aquilo que chamamos de literatura. Quando lemos Da Costa e Silva percebemos que ele merece uma atenção maior dos estudos literários brasileiros – esse é apenas um de muitos casos que merecem ser repensados. Se lermos o famoso manual do Bosi perceberemos facilmente o quanto a literatura contemporânea é preterida (são cerca de 20 páginas para recobrir quase meio século), mas não por fraqueza; ao contrário, as últimas décadas têm muito sido ricas literariamente. Por outro lado, autores como Bernardo Guimarães possuem grande espaço. Gostaria muito de ver a produção literária dos últimos 50 anos receber o devido tratamento, ou seja, ser reconhecida como um dos períodos mais férteis, experimentais e ricos de nossa história literária. E que as universidades contribuam com essa mudança de perspectiva, voltando os olhos para o que vem sendo escrito atualmente.

CA | Em relação ao estudo da produção literária do Piauí, há novos projetos de pesquisa em mente?

MMP | Temos um projeto de trabalhar a literatura contemporânea brasileira (em andamento) e para o ano que vem nos engajarmos num um segundo volume sobre a literatura piauiense. Lembrando sempre que esses projetos só são possíveis graças aos esforços dos graduandos do curso que enfrentam o desafio de ler os textos literários antes dos de crítica, justamente para fomentar o contato direto entre obra e leitor, algo cada vez mais difícil em uma época que ama os resumos.

Compartilhe

Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

Comente!