5 perguntas para Sidney Rocha e o seu Fernanflor

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“Afora a sanha dos hormônios, era um menino como os outros: sonhava com sóis e gatos, sonhos esquecidos quando os ossos crescem”. Este trecho, retirado do novo romance do escritor cearense, radicado no Recife, Sidney Rocha, descreve Jeroni Fernanflor, o protagonista da narrativa, mas também dá um gostinho de como é a linguagem de Fernanflor, título do livro recém-lançado pela Editora Iluminuras. E a linguagem, como o próprio autor afirma, é o carro-chefe do romance. Musical e aberto ao experimentalismo, é impossível não se enredar nas idas e vindas do estilo de Rocha. Aqui, ele alcança um equilíbrio entre o hiperlirismo do seu romance anterior, Sofia, e os contos mais ácidos de Matriuskadestino das metáforas. Sidney Rocha toma como ponto de partida um tema tradicional na história do romance moderno – a jornada de formação de um jovem artista – para compor este que é um dos principais lançamentos de ficção brasileira em 2015. Por e-mail, o escritor conversou um pouco conosco sobre a obra.

fernanflorCRISTHIANO AGUIAR | Sidney, Fernanflor é o primeiro livro de uma trilogia chamada Geronimo. Por que escolher esse modo de organizar suas próximas obras? Poderia falar um pouco sobre como será essa trilogia?

SIDNEY ROCHA | É um processo mental e, embora arbitrário, goza de uma ordem em si mesma, ou é algum tipo de sonho de unidade, ou pela unidade, que é o que procuro. Quando escrevo caço sempre e calmamente a mesma coisa inesgotável. Escrevo com sonhos de conciliação. E, como a trilogia já está bem adiantada, agora é talvez só seguir o rastro do ‘animal’.

CA | Como foi o processo de escrita de Fernanflor?

SR | Já se fala demais sobre isso, de processo de escrita, e me lembro do que li em algum lugar: “Este romance não começa”. Penso na frase porque o romance começa antes de começar. Um leitor pode terminar de ler um romance mas talvez um escritor jamais termine de escrevê-lo. Assim, não penso no processo nem antes nem depois, porque não me lembro mais de nada disso, porque continuo mirando, imaginando ter encontrado o que busco. Ocorre que a busca do romance não termina, eu diria. Estes anos escrevendo a trilogia me deram alguma ilusão também sobre os textos, “puros” e “impuros” e, depois de compreender que tudo cabe no romance, termino por ceder à ideia de que no romance só cabe o que está lá, desde o princípio: a beleza. A busca da beleza. A loucura pela estética, pela linguagem. Então, no caso de Fernanflor, foi necessário acreditar mais ainda nessa ideia persecutória da estética, sem perder de vista jamais a narrativa.

CA | De que forma você situa seu novo romance em relação à sua obra, mas em especial em relação ao seu romance anterior, Sofia?

SR | Em breve voltarei aos contos de O destino das metáforas e Matriuska, além do Guerra de ninguém, e tentarei ver se o ‘animal’ ainda está lá. Se encontro o rastro, volto a caçá-lo. Não sei como situar isso, ainda, porque me obrigaria a um julgamento sobre meu trabalho, e isso seria algo bastante precário, no momento. Mas, quanto ao “conjunto”, a trilogia será talvez a parte mais definidora do meu trabalho, porque envolve muito do meu aprendizado. Sofia é de outro conjunto.

CA | Há uma relação muito forte com a imagem no teu romance e o próprio protagonista está relacionado ao campo das artes visuais. Gostaria que você comentasse um pouco isso.

SR | É a lógica. Fernanflor é pintor. Quem pinta está inserido nas artes visuais. As artes visuais são feitas de imagens etc. etc. À parte isso, o homem é um ser visual, e sempre que pode produz imagens, e entre elas está a pintura. Mas, também podemos responder de modo paradoxal, e invertendo o conhecido verso de Fernando Pessoa: “Pensar é estar doente dos olhos”. “Ver é estar doente do pensamento”. E produzir imagens do visto é a suprema doença e a suprema saúde.

CA | Sempre tenho curiosidade de saber que referências estavam na cabeça de um autor enquanto ele trabalhava em seu livro. No seu caso, que filmes, músicas, artistas e outros livros estavam na órbita de Fernanflor?

SR | Bem simples: entre os filmes, L’Arrivée diun Train a La Ciotat e O cão andaluz; artistas: Rodin e Rembrandt; livros: A consciência de Zeno e o Mahabharata.  Músicas: Clair de Lune, A survivor from Warsaw e All blues.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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