Clube da Luta – Chuck Palahniuk

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Daqui a uns quinze anos, quando minha geração virar quarentona, e a gente começar a procurar algo que possa nos definir, um dos filmes mais lembrados será, sem dúvida, Clube da Luta, dirigido por David Fincher. O que poucos vão lembrar, no entanto, é que o filme deve pelo menos 90% da sua genialidade ao livro homônimo de Chuck Palahniuk.

Com uma objetividade típica da escrita americana, Palahniuk escreve com uma linguagem cinematográfica, estreitando de maneira impressionante a relação entre o cinema e a literatura. O livro é quase um roteiro escrito em forma de prosa, faltando apenas as indicações técnicas para filmagem. As histórias são praticamente as mesmas, a única diferença está na maneira como elas terminam. O que chega a ser irrelevante, já que a revelação final, a grande reviravolta da trama, existe em ambas.

Nem mesmo transformar em imagens as palavras do autor, exigiu grandes esforços dos roteiristas. Bastou colocá-las em prática. Exemplo perfeito dessa pré-disposição ao cinema de Clube da Luta, é a explicação sobre o aviso para a troca dos rolos de filme numa sala antiga de projeção, que, apesar de ser bem escrita, funciona melhor na película por se tratar de uma questão particular da linguagem cinematográfica.

Além disso, a história de Palahniuk é ágil, pop, irônica e repleta de frases de efeito que não só merecem grifo, mas devem ser repetidas feito mantras de uma geração onde o discurso do bom mocismo começa a se desgastar, deixando brechas para ser visto como uma forma de controle social. E eis que surge na vida de um corretor de seguros com crises de insônia, Tyler Durden, a personificação do instinto, a resposta de um bando de selvagens aparentemente domesticados pela televisão.

Tyler é uma espécie de Jim Morrison ou Kurt Cobain sem talento para música. Suas habilidades, no entanto, são outras. Sabe fazer sabão, bombas e dar uma chance de vingança aos frustrados que encontraram no Clube da Luta a oportunidade de retomar a vida. É através do sabão, feito na base da gordura humana jogada fora pelos hospitais de estética, que Tyler consegue recursos para espalhar filiais do clube pelo país e financiar ações terroristas em busca de uma revolução.

Com um gosto pelo humor negro, Palahniuk propõe uma solução peculiar para os maus de um povo regido pela lógica do consumo, castrado de vontades próprias. Enxerga a cura justamente naquilo que outros tenderiam a ver como sintomas de uma sociedade doentia. É nas mazelas e distúrbios sociais da escória, na mente pervertida e no ímpeto jovem de Tyler Durden, que o autor encontra a salvação. Para ele, a vidinha normal de trabalho e televisão é que deve ser combatida.

Thiago Corrêa
lido em Ago. de 2006
escrito em 11.10.2006

: : TRECHO : :
“O clube da luta não é futebol pela televisão. Você não está assistindo a um bando de homens que nem me conhece batendo um no outro ao vivo via satélite com delay de dois minutos, comerciais de cerveja a cada dez minutos e uma pausa para a vinheta da estação. Depois de conhecer o clube da luta, assistir a futebol pela televisão é como ver filme de sacanagem quando você poderia estar dando uma boa trepada.” (pp. 51-52)

: : FICHA TÉCNICA : :
Clube da Luta
Chuck Palahniuk
Trad. Vera Caputo
Nova Alexandria, 1a. edição, 2000
224 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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