Constatações ébrias

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Encontrar-se ébrio alivia qualquer julgamento de discurso. Ele está bêbado! Logo, não te darão ouvidos. Você pode falar sapiências ou  insanidades, Mas ele está bêbado! Não te darão ouvidos. Isso, confesso, alivia  minha condição pensante e eu, homem crítico, sentado, cotovelos apoiados sobre  esse balcão de madeira há tantas horas, algumas delas risonho, sociável,  mergulhado em alegria e gozo, outras delas imerso em pensamentos, solitário,  apegado às minhas, tão só minhas suposições mundanas, aqui, ainda aqui,  cotovelos sobre o balcão de madeira há tantas horas, já sem saber enumerar  doses de whisky, eu sigo pensando sobre tudo em que existo e que a minha volta  existe, mas não falo nada pois ninguém, em sã consciência, vai querer ouvir ou  aprofundar-se em temas sobre o que existo e a minha volta existe. Ainda mais de  um bêbado. Mesmo os estudiosos acadêmicos, os que decorrem sobre esses  temas, filósofos, sociólogos, antropólogos, quais sejam, os tratam com uma certa  distância, como se fossem eles alheios às suas implicações, como se fossem, os  temas, tão somente objetos de estudo, quando não são, e desenvolvem teses  articuladíssimas, grande eloquentes, supremas, tão – aparentemente – distantes  deles mesmos. Que grande ilusão. Mas devo concordar que estão certos esses  que evitam tais embates, ou que os discutem com certa distância. Aprofundar-se  em tais questões te vai por louco, ou te obrigará a beber, ininterruptamente até,  para suportá-las todas.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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