Contos Completos – Virginia Woolf

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Com o recente lançamento dos Contos Completos de Virginia Woolf, pela editora Cosac Naify, o leitor brasileiro tem uma oportunidade de ouro para conhecer essa grande dama da literatura inglesa do século XX. Pois é uma pena que Woolf seja pouco conhecida (e ainda menos lida) pelo grande público, cujo primeiro contato com a escritora se deu através do filme As Horas (2002), de Stephen Daldry, na atuação oscarizada da estrela Nicole Kidman.

No entanto, a lânguida e apática personagem cinematográfica não faz jus à Virginia Woolf que transborda das páginas dessa edição muito bem cuidada — e com belíssima capa, por sinal, e ótimas referências ao final, que servem como guia através da obra. Os quarenta e seis contos revelam uma artista magistral: observadora sensível, porém cáustica, crítica e sempre forte, mesmo quando delicada.

Vários dos textos interagem entre si, formando uma espécie de tecido onde a autora costura a sua obra. Por vezes parecemos ver a mesma cena sob óticas diferentes, Virginia mergulhando no mundo interior de cada um dos personagens, que transitam de um texto a outro sem muitos pudores. Em Uma simples melodia, por exemplo, observamos (com outros olhos) personagens antes apresentados em Felicidade, O vestido novo e O homem que amava a sua espécie, todos eles convivendo numa mesma festa, na casa de Clarissa Dalloway. Sim, a mesma Mrs. Dalloway do mais célebre romance da escritora.

À medida que se sucedem os contos, percebemos que Clarissa Dalloway não é só uma personagem, mas um verdadeiro universo, uma força (o alter ego da própria Virginia Woolf) quase que onipresente; ela reúne personagens, tem efeito catalisador em outros (como no introspectivo A apresentação), permeia todo um elenco de pessoas, situações e sentimentos. Mrs. Woolf faz com que os seus núcleos girem em torno de Clarissa, da sua casa, de sua festa, de sua personalidade, de modo que a própria Dalloway lance uma luz ímpar sobre as outras figuras.

Ao mesmo tempo, é interessante perceber as nuances da pena de Virginia Woolf. Se já nos primeiros contos (escritos antes de 1917) a autora começava a fazer uma dura crítica da sociedade em que vivia, iniciando um flerte com o feminismo, ela também se move facilmente pelo terreno pantanoso da introspecção, um lirismo que, mais tarde (especialmente na década de 20), viria a ser sua marca registrada, o famoso “fluxo de consciência”. E é justamente nesses monólogos internos, por vezes aparentemente desconexos e abandonados, que a sua obra se mostra inovadora e, por que não, arrasadora.

Virginia Woolf era uma observadora impiedosa, e freqüentemente parece se por em apartado do mundo que examina, como mera espectadora do teatro das relações e dos sentimentos humanos. Seus textos, entretanto (ou talvez por isso mesmo), trazem uma miríade de temas difíceis, que a escritora tratou com delicadeza singular: a superficialidade da sociedade da época, o isolamento das pessoas, o sentimento de inadequação (social, cultural, sexual), o medo, a solidão.

E tudo isso, muitas vezes, num breve e cotidiano fragmento de vida, como o simples ato de Clarissa Dalloway sair para comprar luvas. É, com certeza, uma ótima oportunidade.

Aline Arroxelas

: : FICHA TÉCNICA : :
Contos Completos
Virginia Woolf
Cosac Naify, 1a. edição

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