Cordilheira – Daniel Galera

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A fronteira entre a vida e a ficção

Primeiro rebento da coleção Amores Expressos – que tinha como proposta enviar cada um dos 17 autores participantes a uma cidade do mundo para escrever uma história de amor –, Cordilheira parece ter sido uma boa escolha para a estréia do projeto, se considerarmos que rendeu ao autor Daniel Galera o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional de 2008 e o terceiro lugar na categoria romance do Jabuti de 2009. No livro, Galera usa a temporada de um mês em Buenos Aires para desenvolver a história de uma jovem escritora, que, assim como ele, precisa viajar à capital argentina por compromissos profissionais.

Interseções que emprestam a vivência do escritor à personagem, em especial na construção do seu cotidiano de badalada autora contemporânea em meio a convites, negociações e participações em eventos. Esses relatos sobre os bastidores do mercado editorial revelam-se ainda mais curiosos pelo desinteresse da protagonista Anita van der Goltz Vianna em prosseguir com sua carreira de escritora, o que nos permite enxergar o circuito de feiras literárias pelo viés crítico de uma narradora que já não agüenta tanta mise-en-scène. Convidada para participar da Feira do Livro de Buenos Aires, ela aceita mais por ver na viagem a possibilidade de uma fuga, um recomeço.

Anita parte para a Argentina na intenção de se desvencilhar do suicídio de uma amiga próxima e concretizar aquilo que a fez terminar o seu relacionamento, interrompido pelo desejo da narradora em engravidar. E logo ela encontra um candidato para lhe esporrar esperma entre as pernas. A história então envereda para uma trama romântica, com contornos sombrios. Seu novo companheiro, José Holden, introduz Anita a um círculo de amizades formado por escritores obscuros que se revelam seguidores do guatemalteco Jupiter Irrisari, responsável por lançar, no início do século 20, a ideia de assumir a identidade dos seus personagens na vida.

Enquanto a história se desenvolve e a personagem desvenda o mistério em torno dos seus companheiros, Galera tece um emaranhado de referências literárias, mistura gêneros textuais, combina discursos de ficção com o da crítica e insere trechos de outras obras. Essas partes e comentários, além de enriquecer a história com elementos narrativos e aumentar as camadas ficcionais, também funcionam no sentido de alimentar os questionamentos sobre o papel da literatura e a fronteira entre o real e a ficção, possibilitando a abertura de caminhos paralelos para a análise da idealização dos personagens em comparação com suas vidas.

Ainda que sirvam para revelar alguns dos interesses deste autor que é considerado um dos expoentes da literatura contemporânea, essas reflexões metalingüísticas, porém, parecem ficar a meio caminho na intenção de imersão dos leitores. Tal como Anita, Galera mantém distância dos seus personagens e pensamentos, apenas apresentando-os e relatando episódios na superfície do que poderia ser, de fato, uma análise sobre a linguagem literária. A narrativa fica nos fatos, fragmentos de impressões e pensamentos soltos, incapaz de nos fazer sentir a insegurança de Anita e a necessidade dos outros personagens em reafirmar suas obras em vida.

Mesmo com a própria protagonista, a relação do autor guarda uma fronteira. Talvez por se tratar de uma narradora mulher, o escritor não consegue se fundir à personalidade de Anita, ele a constrói a partir de uma visão masculina. O recurso fica evidente na observação da personagem sobre uma camisa azul e amarela, que ela associa a um time de futebol, mas não consegue identificá-la como o uniforme do Boca Juniors.

Uma atitude que também remete à sua condição de estrangeiro solitário num país estranho, na preocupação em transmitir sua experiência de viajante em longas descrições sobre os ambientes encontrados em Buenos Aires. Esse trechos, no entanto, revelam-se deslocados dentro da narrativa por terem sido escritos mais na intenção de situar as condições de criação do que em acrescentar elementos à história.

Thiago Corrêa
lido em Set. de 2009
escrito em 17.03.2010

: : TRECHO : :

“Até que ali pelos vinte anos comecei a escrever um romance que era um pouco sobre mim, um pouco sobre minha mãe como eu imaginava e outro tanto sobre ninguém em especial, apenas uma tentativa de afirmar que eu podia criar por conta própria o tipo de ficção que tinha um papel tão importante na minha vida, o tipo de ficção que havia encantado uma mãe e uma filha e criado um vínculo entre elas, mesmo que ambas jamais tivessem respirado simultaneamente sobre a terra.” (p. 54).

: : FICHA TÉCNICA : :

Cordilheira
Daniel Galera
Coleção Amores Expressos – Buenos Aires, Argentina
Companhia das Letras
1a. edição, 2008
175 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

2 Comentários

  1. Silvia Aparecida em

    Oi Tiago, apreciei muito a leitura que você faz do livro. Quero agradecer, pois contribuiu com o meu trabalho de conclusão de curso que estou prestes a acabar (entrego dia 22.11).
    Muito obrigada.
    É incrível como tem surgido no Brasil, escritores tão atentos a forma de narrar como Galera e outros, que vem despontando ao mesmo tempo que ele.

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