Crítica: O menino mais estranho do mundo – Helder Herik

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PRÓLOGO

Autor: Helder Herik nasceu em Garanhuns-PE, em 1979. É professor de literatura e foi um dos fundadores do selo u-Carbureto. Como poeta, publicou Amorte, As plantas crescem latindo, Sobre a lápide: o musgo, A invenção dos avós e Rinoceronte dromedário (Cepe, 2015), com o qual foi um dos vencedores do 2º Prêmio Pernambuco de Literatura.

Ilustradora: Luísa Vasconcelos nasceu no Recife-PE, em 1997. É designer formada pela UFPE e trabalhou na Cepe Editora, onde integrou a equipe vencedora do prêmio bronze e prata do Brasil Design Award, na categoria Design Editorial de Revistas, Jornais e Publicações Periódicas, em 2019. Além de O menino mais estranho do mundo, ilustrou os livros Os filhos do deserto combatem na solidão de Lourenço Cazarré e Um novo abraço de Henrique Vale.

Livro: O menino mais estranho do mundo marca a estreia de Helder Herik tanto na prosa como no segmento de livros infantis. Com o título, ele venceu o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria infanto-juvenil. A edição, lançada em outubro de 2019, é uma brochura, com lombada quadrada e conta com 80 páginas.

Tema e enredo: O livro conta a história de Dário, um menino traquina e com bastante imaginação. Entre suas peripécias, ele adestra um sapo, cuja língua usa como gravata e treina uma aranha para palitar seus dentes.

Forma: A história segue uma estrutura que foge a tradicional narrativa dos três atos (começo, meio e fim). O menino mais estranho do mundo é construído por uma sequência de acúmulos, de sucessão de causos sobre o personagem, a exemplo do que ocorre no clássico O menino maluquinho, de Ziraldo.

CRÍTICA

O estranho como criatividade

O livro O menino mais estranho do mundo é duplamente significativo na trajetória do poeta Helder Herik, pois marca sua primeira experiência no gênero da prosa e no universo infantil. Além disso, foi com esse título que Helder Herik conquistou o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria infanto-juvenil, reconhecimento que teve como consequência a sua publicação pela Cepe Editora em outubro de 2019, na 2ª Feira da Literatura Infantil (Flitin).

Para quem acompanha a jornada de Helder Herik como autor, contudo, esse ponto de inflexão não chega a ser surpreendente. Em seus livros anteriores, ele já vinha dando sinais de aproximação tanto da prosa, como de uma perspectiva de enxergar as coisas e explicá-las pelo olhar da inocência imaginativa das crianças. No livro A invenção dos avós, inclusive, há o bom conto Os manequins. E os versos de Helder Herik já apresentavam características narrativas, sem muita preocupação com métricas e rimas, mas com ideias, imagens, histórias.

Mesmo que voltados aos adultos, é possível perceber nessas obras certo frescor infantil, nos levando a associar o trabalho de Helder Herik a uma linhagem de autores como Manoel de Barros e de Adriana Falcão (em Mania de explicação ou A gaiola), que se aventuram em temas complexos para tentar traduzi-los de uma maneira simples e surpreendente.

Em O menino mais estranho do mundo, Helder Herik nos apresenta o menino Dário. Para isso, ele se vale de uma estrutura narrativa baseada na sucessão de estripulias do garoto. A cada virada de página, uma invencionice, sem necessariamente se prender a uma ordem cronológica de causa e consequência. Não há conflitos a serem superados (embora haja a sugestão de inadaptação na rigidez escolar, mas que passa como mais um fato pontual, sem provocar reações). Não há mudanças no caráter de Dário, provações, arrependimentos, transformações. No máximo, o incremento e variantes de algumas ideias. É como se fosse uma série de tirinhas, cada episódio pode ser lido de foram independente, embora haja relações no conjunto, como eventuais sequências temáticas.

Dentro dessa estrutura narrativa alternativa, que foge ao modelo clássico dos três atos – começo (apresentação), meio (conflito) e fim (resolução) – observado por Aristóteles, o autor nos apresenta Dário. Por esses tijolinhos episódicos, vamos construindo a personalidade do menino, enxergamos a dimensão de sua capacidade imaginativa, bem como seu gosto por traquinagens. Uma estrutura que remete ao clássico O menino maluquinho de Ziraldo e oferece a oportunidade para que o autor libere sua criatividade, gerando imagens e situações bem divertidas.

O que, por sua vez, é explorado por Luísa Vasconcelos nas ilustrações, materializando as peripécias do personagem. Se por um lado ela segue estritamente aquilo que está no texto, materializando em imagens as ideias de Helder Herik, por outro ela dá uma importante contribuição ao livro ao traduzir as entrelinhas da história, oferecendo um sentido visual àquilo que não está escrito, mas sugerido. Ao optar por trabalhar com grandes espaços em branco nas suas ilustrações, ela sugere uma leitura sobre a solidão e o isolamento do menino Dário, fazendo-o ocupar esse deserto com sua imaginação.

E assim, entre outras coisas, o menino adestra um sapo, usa a língua do anfíbio como gravata, treina uma aranha para lhe palitar os dentes, dá comida para as letras dos livros. Para quem acompanha a carreira de Helder Herik, será possível relacionar algumas dessas ideias presentes em O menino mais estranho do mundo com passagens de outros livros do autor. Em A invenção dos avós, por exemplo, existe a ideia do adestramento de sapos, da mágica de juntar as orelhas e transformá-las em borboleta, bem como a abordagem da dislexia como tema, que também aparece em Rinoceronte dromedário, e em O menino mais estranho do mundo reaparece na sutil sugestão das letras como formigas. E para quem está descobrindo Helder Herik agora, vale a imersão em seus livros anteriores para ligar esses pontos e entender como uma mesma ideia pode ser reciclada e ganhar novos sentidos.

Thiago Corrêa Ramos é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.


Lido em março de 2020. Relido em abril de 2020.
Escrito em 22.04.2020


Relação com o escritor: Entrevistei Helder Herik algumas vezes e tive a oportunidade de publicar alguns poemas dele na Revista Vacatussa. Desde que passei a morar em Garanhuns, nossa aproximação aumentou, com encontros recorrentes em eventos de literários na cidade.

TRECHO

“Dário pôs mira no olho vesgo
Pensou até sair fumaça da cabeça,
Disse dos livros serem formigueiro das letras” (p. 24)

FICHA TÉCNICA

O menino mais estranho do mundo
Helder Herik
Ilustrações: Luísa Vasconcelos
Cepe
1ª edição, 2019
80 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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