Crítica: Polinização – Julio Cavani e Cavani Rosas

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PRÓLOGO

Autores: Julio Cavani nasceu em Recife-PE, em 1980. É jornalista, curador do Festival Animage e dirigiu os curta-metragem História natural e a animação Deixem Diana em paz. É autor do livro infantil O coelho e o leão (Vacatussa, 2019) e a biografia José Cláudio: pinturas a mão livre (Cepe, 2019).

Cavani Rosas nasceu no Recife-PE, em 1952. É desenhista, escultor e ilustrador. Colabora com as revistas Continente, Le Monde Diplomatique, Caros Amigos e os jornais Jornal do Commercio, Folha de S. Paulo e Diario de Pernambuco. Ilustrou o livro infantil Hipopocaré, o rei da Galhofa de Antônio Guinho e, com quadrinhos, fez a arte do volume Argonauta (Livrinho do Papel Finíssimo, 2008) e Cavani Rosas ilustra Fred Navarro (2015), coletânea com quatro histórias roteirizadas por Fred Navarro.

Livro: Polinização é a primeira experiência de Julio Cavani como roteirista no gênero dos quadrinhos. O miolo é em preto e branco e a edição traz como conteúdo extra 12 páginas com esboços de Cavani Rosas, a título de estudos na elaboração do visual dos personagens e cenário que compõem a graphic novel. O livro integra a coleção CepeHQ, lançada no fim de 2019.

Tema e enredo: Na cidade Deep River, assistimos à consequência da política de tolerância adotada pelo governo em relação à produção e consumo de um pólen com efeito entorpecente. Seja através do cotidiano do bicho-preguiça Zero ou por um painel construído pelo noticiário; acompanhamos a repercussão da medida, com reflexos no campo artístico, econômico, social e político, gerando uma reação da ala mais conservadora da sociedade.

Forma: O talento de Cavani Rosas encontra um vasto terreno para explorar no mundo imaginário de Deep River, com paisagens futuristas, habitantes antropozoomórficos e os efeitos entorpecentes do pólen. Em termos de narrativa, Polinização se desenvolve em dois planos, por meio do cotidiano do professor Zero (um bicho-preguiça) e através do recurso do coro grego (aqui representado por uma aula do próprio Zero e principalmente pelo noticiário na televisão), que permite uma visão mais geral dos acontecimentos na sociedade.

CRÍTICA

O pólen da discórdia

A arte, por mais imaginária, inventiva ou abstrata que seja, acaba sendo um reflexo do seu tempo. Seja uma reação das ideias que circulam no momento, resposta a uma demanda do mercado, uma forma de negação ou continuidade ao que é produzido por seus pares ou ao contexto político do mundo. O surgimento da graphic novel Polinização – com roteiro de Julio Cavani e arte do seu pai, o artista plástico Cavani Rosas – pode ser visto dentro de uma safra de obras que procuram discutir o cenário instável que se tornou a recente política brasileira.

Lançado em novembro de 2019, o título, junto com a coletânea O obscuro fichário dos artistas mundanos, foi o responsável por inaugurar o selo Cepe HQ, voltado à publicação do gênero dos quadrinhos. Embora a narrativa traga elementos de ficção científica (como sugere o design arrojado dos veículos e do armamento das forças policiais) e se passe num lugar imaginário chamado Deep River, habitado por figuras antropozoomórficas (animais com características humanas, que falam, andam e se vestem como pessoas); a história fala sobre um mundo bastante próximo ao que vivemos e conhecemos.

A prática de humanizar animais ou deslocar histórias para sociedades e mundos alternativos às vezes é usada como forma de recontextualizar fatos num plano ficcional, atenuando os efeitos de nossas leituras, sem as amarras políticas e sociais que carregamos. Clássicos como A revolução dos bichos, fábula adulta escrita por George Orwell em 1945, e a graphic novel Maus de Art Spiegelman se valem da estratégia de humanizar animais para evocar um olhar crítico sobre dois dos episódios de mais dolorosos vividos pela civilização no século XX. Em sua história sobre a revolta dos animais da Granja Solar contra os maus tratos do seu proprietário, George Orwell faz uma alusão ao desvio totalitário que transformaram as ideias de igualdade do comunismo no stalinismo. Já em Maus, Art Spiegelman se vale dos bichos para abordar com crueza e sensibilidade os dramas vividos por seu pai durante o Holocausto.

Em Polinização, Julio Cavani e Cavani Rosas exploram o universo imaginário – meio místico, meio ficção científica – habitado por figuras antropozoomórficas para tratar de temas bastantes sensíveis ao conservador e reacionário Brasil de hoje, apontando semelhanças históricas e de costumes, entre a nossa sociedade e as formas de organização política, crenças, discussões e mobilidade dos moradores de Deep River. Ao tirar o filtro da ficção, enxergamos a cidade fictícia regida dentro dos mesmos parâmetros da nossa sociedade. Os empregos dos seus cidadãos são iguais aos nossos, há professores (caso do bicho-preguiça Zero, protagonista da história), garçonetes (como a ursa CJ, namorada do Zero), apresentadores de televisão, políticos, policiais, agricultores. Eles se divertem de modo semelhante, indo a festivais de música com bandas e DJs; locomovem-se com carros, helicópteros, bicicletas e barcos; organizam-se politicamente elegendo prefeitos-presidentes, frequentam rituais, utilizam jornais e a televisão para se informar e padecem dos mesmos problemas que a gente.

A trama gira em torno de um tipo de pólen, extraído de plantas proibidas cultivadas na ilha de Tunda, na bacia hidrográfica do rio Tombo, que margeia a cidade de Deep River. Quem nos localiza no tempo e espaço da narrativa é o professor Zero, numa aula que serve de prólogo à história. Segundo o bicho-preguiça, a substância é um “entorpecente leve”, que poderia ser utilizado em tratamentos médicos e que teria uso ancestral, na mística sociedade tundeana. Na sequência, entendemos que, apesar dessa aura de lenda em torno do pólen, trata-se de uma substância conhecida em Deep River, consumida em shows de rock, e que já vinha suscitando discussões sobre a sua legalização.

Algo que de fato ocorre, com a política de legalização implantada pela prefeita presidenta Mama Flora. A partir do recurso narrativo de coro do teatro grego, aqui desempenhado pelo noticiário da televisão (que alterna notícias, com pequenos fragmentos da vida de Zero e debates na TV), conhecemos as implicações da medida na sociedade, como o incremento na economia pela venda regulamentada da substância e sua consequente arrecadação dos impostos, surgimento de vagas de emprego, diminuição dos índices de criminalidade e da população carcerária, redução dos danos à saúde pelo controle na produção do pólen e mais liberdade artística.

No exercício de traduzir a ficção, o pólen representa uma espécie de maconha e as discussões sobre a legalização convergem nos argumentos defendidos por movimentos como a Marcha da Maconha, que ganham cada vez mais respaldo no meio jurídico (com a flexibilização nas políticas de drogas em países como Portugal, Uruguai e Espanha) e científico (com a recente decisão para liberação do consumo com fins medicinais no Brasil). O que também pode ser uma metáfora às políticas sociais promovidas pelos governos do PT, em prol de uma sociedade menos desigual e mais tolerante, dada a semelhança dos eventos da narrativa com o golpe/impeachment sofrido pela presidenta Dilma Rousseff.

Ainda que o recurso utilizado seja o mesmo de Maus e A revolução dos bichos, a comparação entre os dois clássicos com Polinização revela diferenças curiosas. Em Maus, Art Spiegelman recorre à figura dos ratos para representar os judeus e dos gatos para os nazistas, como uma forma de sustentar a narrativa numa lógica de cadeia alimentar, de presas contra predadores. Na fábula de George Orwell, algo similar acontece, com as espécies assumindo determinados papéis: os porcos como políticos, cachorros como as forças de repressão, por exemplo. Em Polinização, apesar de haver ligações óbvias entre certas espécies com seus papéis narrativos, caso do Adolfo Chacal (como diz o nome, um chacal), cachorros como policiais e do grupo conservador religioso Cordeiros da Luz (formado por cordeiros); a sociedade é mais diversa, mais liberal, com casos de relacionamentos entre espécies diferentes e hibridismos (macaco com orelhas de coelho) provocados por essas uniões. Um universo de possibilidades onde floresce o talento e a criatividade da arte de Cavani Rosas.

Mas a diferença mais gritante talvez seja em termos de experiência narrativa. Se é praticamente impossível não reagir e se indignar com os relatos contados por Maus ou cair em profunda descrença com a humanidade após as sucessivas manipulações dos porcos em A revolução dos bichos, por ambas as narrativas se aproximarem dos personagens e compartilhar suas experiências com os leitores; em Polinização há uma distância abissal que nos afasta de Zero e CJ. O recurso do coro grego, ao ser usado em demasia, acaba por sufocar a narrativa, colocando-se como uma barreira para entrarmos na história. Em números, mais da metade das páginas da graphic novel (35 páginas) são ocupadas pelo painel apresentado pelo noticiário, debate e o discurso professoral que abre a narrativa, tudo isso intercalado às 32 páginas com a trajetória de Zero. Como efeito, nós lemos, entendemos o que se passa em Deep River, mas não vivenciamos os medos, alegrias e decepções dos personagens.

Zero, a quem cabe o papel de protagonista, revela-se um personagem periférico aos principais acontecimentos da história, que não se envolve nem vê o golpe de estado proferido pelo Adolfo Chacal, nem participa dos protestos e confrontos contra a polícia. A sensação é que ele assiste a tudo como nós, leitores, em transe, pela televisão. E quando alguma consequência desses fatos respinga na vida dele, as cenas se passam de maneira rápida, alheia a emoções, sem evocar qualquer nível de tensão. Ele é parado numa blitz carregando a planta proibida, mas logo é liberado, sem sofrer um baculejo ou ameaça. Depois, numa festa invadida pela polícia, é preso, e depois volta pra casa, de boa, resumindo a experiência para CJ com a explicação de que voltava de um quartel do exército.

Ao contrário de Maus e A revolução dos bichos, a experiência individual dos personagens em Polinização, diante das agressões provocadas pelo sistema de repressão, são incapazes de nos transmitir a gravidade e a dimensão das ameaças do regime que os cerca. Para Zero e CJ, tudo se resume ao sacrifício de abdicar do consumo de pólen. Uma consequência que soa ingênua diante dos perigos que se erguem diante dos nossos horizontes. Mas que talvez se encaixe como uma boa alusão ao aparente conformismo da sociedade brasileira, explicando aí a escolha de um bicho-preguiça como protagonista.

Thiago Corrêa Ramos é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.


Lido em janeiro de 2019 e Relido em fevereiro de 2019
Escrito em 11.02.2020


Relação com o escritor: Sou amigo pessoal de Julio Cavani, antes mesmo de trabalharmos juntos no Diario de Pernambuco. Em 2019, editei e publiquei pela Vacatussa o livro infantil O coelho e o leão, escrito por ele e ilustrado pela Lorota.

FICHA TÉCNICA

Polinização
Julio Cavani (roteiro) e Cavani Rosas (arte)
Cepe
1ª edição, 2019
87 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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