Cronópios – 05.11.2005

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Cronópios – 05.11.2005
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=715

Raimundo Carrero: “Não existe inspiração nem talento, mas trabalho, muito trabalho”
Por Astier Basílio
(Texto a ser publicado no Correio das Artes da Paraíba)

O escritor pernambucano Raimundo Carrero, além de ser um dos mais representativos escritores do Nordeste na atualidade, já recebeu os principais prêmios conferidos a autores de ficção no país, como por exemplo, o Jabuti pelo livro de contos “As Sombrias Ruínas da Alma” (1999) e o Machado de Assis e APCA pela romance “Somos Pedras que se Consomem” (1995). Seu último trabalho na área de literatura foi o romance “Ao Redor do Escorpião Uma Tarântula?” (Iluminuras). O escritor será uma das grandes atrações do Fenart este ano. Raimundo Carrero ministrará uma oficina de criação literária que tem sido sucesso nas principais bienais do livro do país, a exemplo da Flip, em Paraty, onde esteve este ano. Do resultado de 15 anos de oficinas ministradas em Recife, Carrero publica o livro “Os Segredos da Ficção”. Nesta entrevista, o autor fala sobre o processo de criação, os métodos e exercícios necessários ao aspirante, além de saudar a nova geração de escritores e afirma que  os blogs, zines, e-mails, vieram para salvar a literatura em pleno reinado da imagem. “Os jovens estão escrevendo e bem. Não há nenhum perigo. Pelo contrário, eles alimentam o texto em todos os momentos. Criam linguagens novas? Qual é o problema? Todas as gerações criaram linguagens. Fico muito feliz quando vejo os jovens criando sua própria linguagem”

A Oficina que o senhor oferece tem obtido bastante sucesso, pois, já foi ministrada em várias bienais e encontros literários. A quais fatores o sr. credita esse interesse?

Acho que devido à seriedade e ao método do meu trabalho. Afinal, estou completando trinta anos de literatura e tenho uma bagagem de escritor, com 14 livros publicados. Além, é claro, do meu trabalho nas oficinas que ministro há 15 anos. E agora, com a publicação do meu livro “Os Segredos da Ficção”, que tenta organizar o trabalho criador, a curiosidade é muito grande. Discutimos a teoria e a prática da escrita. Sem contar que a escola brasileira não oferece muito campo para a criatividade. E todos sentem falta disso. A minha Oficina, no Recife, funciona o ano inteiro e são seis turmas. São aulas à tarde e à noite.

Qual o perfil das pessoas que participam das suas Oficinas?

O universo de interessados é muito diversificado. Vai de meninos de 15 anos a pessoas com mais de 70 anos. O que me agrada porque convivo com varas gerações ao mesmo tempo.

Como se dá a sua Oficina, em termos metodológicos?

Procuramos, em primeiro lugar, acabar com o mito da inspiração e do talento. Não existe inspiração nem talento, mas trabalho, muito trabalho. Deve-se escrever todos os dias, independente das dificuldades. Todos nós temos uma voz narrativa e devemos trabalhar com ela, até para escrever bilhetes. Depois segue-se o Impulso, a Intuição e a Técnica. Nos dois primeiros momentos qualquer pessoa pode trabalhar, mas na técnica é preciso estudo. Assim começamos os nossos trabalhos. Fazemos exercícios, discutimos criação de personagens, desenvolvimento das cenas e dos diálogos, montagem da história. Enfim, um trabalho lento e curioso. E que sempre oferece bons resultados. Estudamos também o emprego criador, e não apenas gramatical, dos artigos, dos pronomes, dos tempos verbais, conjunções adversativas e aditivas.

Qualquer pessoa que tenha disciplina pode ser escritor? O que é fundamental para quem deseja escrever ficção?

Escrever e ler; ler e escrever; escrever e ler. Inevitável. Quem quer ser escritor, tem que ser um leitor obstinado. E ler como um criador. Tentando compreender cada passo, assim como o músico lê uma partitura: nota por nota, compasso por compasso, movimento por movimento. Entendendo o tempo verbal, o foco narrativo, as frases, os parágrafos, os diálogos, as vírgulas, os pontos. E mais tarde se exercitando. Criando histórias, personagens e cena. Dessa forma, qualquer pessoa, desde que muito interessada, pode ser escritor, sim. Disciplina, muita disciplina.

O sr. recomenda alguns exercícios ou lições para escrever ficção?

Sempre peço que escrevam textos em casa, mas sem essa exigência de lições. Deixo que fiquem à vontade. Durante os debates, em sala de aula, aí sim, procuro discutir os problemas ficcionais. Mas sempre alertando: uma coisa é escrever bem, outra coisa é escrever ficção. O que muitas vezes parece confuso ou ruim num texto de prosa – artigo, conferência, ensaio – pode resolver muito bem um problema da ficção. O texto de ficção deve, entre outras coisas, responder à pulsação do personagem. Por isso, uma cena tem três movimentos: a) Pulsação do personagem; b) Pulsação da cena; e c) Pulsação do leitor. É preciso ter muito cuidado. Muita paciência.

O que o jovem escritor deve evitar e fazer após dominar os meandros da criação literária?

Tudo pode e nada pode, essa é a regra. Depende de quem faz e como faz. O jovem escritor deve evitar a preguiça. Escrever, escrever e escrever. Ler os grandes, os consagrados. Conhecer a intimidade dos seus textos. Mais uma vez: estudar cena por cena. E, na verdade, ninguém nunca consegue dominar completamente os segredos da ficção. Eles se revelam e se mostram a cada passo, mas não inteiramente. Até porque cada escritor tem a sua própria técnica – a questão é ir descobrindo aos poucos, estudando os próprios textos. Descobrir o que está escrevendo. Nunca esqueçam: estudem os próprios textos. Vejam o que eles lhe oferecem. E apliquem as técnicas consagradas às suas técnicas. Aí estará surgindo um novo escritor. Isso é básico.

O sr. acredita que os blogs da internet facilitam ou dificultam o processo de aprendizagem do escritor, que hoje em dia se iniciam na escrita através desse meio?

Os blogs, zines, e-mails, vieram para salvar a literatura em pleno reinado da imagem. Os jovens estão escrevendo e bem. Não há nenhum perigo. Pelo contrário, eles alimentam o texto em todos os momentos. Criam linguagens novas? Qual é o problema? Todas as gerações criaram linguagens. Fico muito feliz quando vejo os jovens criando sua própria linguagem. Agora mesmo um grupo que se conheceu nas minhas oficinas, no Recife, criou um zine – Vacatussa, que está fazendo o maior sucesso. Só posso ficar alegre. Se servi para alguma coisa, eles estão escrevendo. Nada melhor. Os jovens estão certos. Outro dia, estava lendo um ensaio de Henry James sobre Flaubert e ele alertava, contristado: “Mesmo numa época em que se publica como nunca”. Isso no começo do século XX. Hoje ele teria arrepio. Não tem problema. Os meninos escrevem bem. E é o que basta. Na linguagem deles. Pronto.         

Qual a avaliação que o sr. faz da nova geração de escritores?

Gosto muito. É muito diversificada, é verdade, mas continuamos produzindo muito bem. É impossível apontar nomes, mas Marcelino Freire, pelo menos, é uma referência. E Miguel Sanches Neto, no Paraná. André Laurentino, no Rio de Janeiro. E muitos outros nomes, ainda.

O sr. lançará algum livro na Fenart? Está trabalhando em algum romance na atualidade?

Desta vez fico devendo um novo livro para lançamento. Mas estou, sim, escrevendo um novo romance e devo lançá-lo na Paraíba. Sem dúvida.

Astier Basilio é jornalista e escreve no Correio das Artes da Paraíba. E-mail: astierb@uol.com.br

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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