Cuidado, aqui há ficção

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Há algumas semanas, o escritor paulista Ricardo Lísias foi envolvido em um imbróglio digno da sua ótima ficção. O caso, na verdade, é tão enrolado, que confesso a vocês não ter certeza de que o entendi direito. Ao que parece, o autor será investigado pela Polícia Federal, a partir de provocação do Ministério Público, por ter supostamente falsificado um documento público, crime que pode dar ao infrator uma pena de reclusão de dois a seis anos, bem como multa. O detalhe, porém, é este: não há falsificação, porque o documento faz parte da sua novela, publicada pela editora e-galáxia, Delegado Tobias. Antes de mais nada – e falo isso em nome de toda a equipe da Vacatussa – toda a nossa solidariedade e apoio a Lísias e ao seu trabalho, cuja ficção tem se revelado uma das mais instigantes da produção contemporânea brasileira.

Não consigo, contudo, deixar esse episódio passar sem comentar o quanto a própria ideia de ficção – esse é o tema da nossa conversa de hoje – retira parte da sua pertinência social justamente por seu poder de nublar fronteiras muitas vezes julgadas imutáveis. Esse poder desestabilizante do ficcional, como demonstra a equivocada investigação contra Lísias, pode suscitar consequências jurídicas, algumas até mesmo perigosas. A história da literatura, do livro e da leitura está repleta de episódios muito singulares. Logo mais vamos relembrar alguns deles.

O que ocorreu com a novela Delegado Tobias implica em um completo desconhecimento do que é ficção. O texto ficcional, mesmo aquele que procura ser o mais realista possível, é sempre um ato de fingir, para tomar emprestada a definição consolidade por Wolfgang Iser. O escritor propõe para o seu possível leitor um pacto, o do compartilhamento de um mundo fundado na linguagem. Mundo este que não é uma fuga da realidade, como tantas vezes pensamos, mas sim um cosmos paralelo e, ao mesmo tempo, profundamente enraízado na experiência de um tempo, de uma história, de uma cultura, de um cotidiano. O desconhecimento desse mecanismo básico da ficção, no caso do Episódio Lísias, é um equívoco primário, porém não me surpreende de todo. Por quê? É que narrativas como o romance, ou a novela, por exemplo, tradicionalmente flertam com textos não ficcionais, entre eles textos jurídicos. Uma das características básicas do gênero romance, afinal de contas, é a de incorporar dentro de si próprio inúmeros gêneros textuais, inclusive os não ficcionais. Cabe tudo no romance: “imitações” de cartas, de pareceres, de e-mails, de peças jurídicas, de chats, letras de músicas, desenhos, organogramas, slides de powerpoint… Cabe, inclusive, um agravo de instrumento, o documento da discórdia contido na novela de Lísias .

Sou um dos partidários da hipótese de que a moderna prosa de ficção nasce não no século XVIII, mas sim nos romances picarescos surgidos na península ibérica a partir do XVI. A modernidade ficcional se consolida quando os então novos relatos cada vez mais assimilam, como pensam Auerbach e Bakhtin, as dinâmicas da vida cotidiana, ou seja, suas cores, cheiros, lugares, sobrenomes e, em especial, os múltiplos usos, dialetos e variantes da linguagem da rua e do dia-a-dia. O primeiro dos romances picarescos, Lazarilho de Tormes, é estruturado como um depoimento, uma carta, do Lazarilho a uma poderosa autoridade. Portanto, este livro é só um dos exemplos possíveis da frequente incorporação, para criar um “efeito de realidade”, de textos que, por sua natureza, vinculam a narrativa ficcional a uma atmosfera vinculada ao não ficcional. É o caso das peças jurídicas, por exemplo. Foi exatamente isso que Lísias fez.

Esse poder da ficção me atrai muito. Mas muitos foram aqueles que a consideraram perigosa. Continuemos no século XVI com os espanhóis. Minha fonte é o livro organizado por Franco Moretti, A cultura do romance. Em 1543, é promulgado, em Valladolid, um decreto proibindo introduzir nas “Índias”, em especial no Peru, “livros de histórias profanas”, ou seja, romances: “decorre que os índios educados na leitura, atraídos por essas histórias, abandonam os livros da santa e reta doutrina e extraem destas obras mentirosas maus hábitos e vícios”. Duas ideias ainda hoje defendidas por muitas pessoas estão presentes nesta proibição. A primeira, a de que existe um campo separado entre a Verdade, por um lado, e a Mentira, por outro, cujo representante por excelência do segundo polo seria a ficção. A segunda ideia é o mito de que todo texto ficcional é diretamente pedagógico e, por conseguinte, todo leitor seria uma lousa em branco, 100% influenciável. Recordo, por exemplo, na minha infância e adolescência de ouvir muitos pastores e parentes condenarem novelas e filmes justamente por causa disso, pois “só ensinam o que não presta”. Em 1698, na Alemanha, um certo Gotthard Heidegger escreve uma condenação do romance. “Quem lê romances lê mentiras”, afirma. Em seguida, observa o quanto o romance, a ficção como um todo, na verdade, intensifica os próprios efeitos nefastos quando cria histórias baseadas em fatos reais. Nestes casos, para G. Heidegger, os romances “não apenas mentem, mas promovem um verdadeiro ultraje à verdade, pois a contaminam com um rio de mentiras”.

É esse “rio de mentiras” que necessita ser controlado e podado pelo Estado, ou por qualquer aparato ideológico ameaçado devido ao potencial transgressor da ficção. Delegado Tobias, porém, não é o primeiro livro, como bem sabemos, a ser objeto de polêmica nas cortes. Pelo contrário, uma ótima história da literatura poderia ser feita somente com livros ligados a querelas jurídicas. Lembramos sempre do famoso caso de Madame Bovary, de Flaubert, processado pela suposta obscenidade do livro. Hoje em dia, podemos até entender o quanto a obra-prima do escritor francês, com seu retrato intenso do adultério feminino, do tédio matrimonial e das mediocridades provincianas, chocou parte do público-leitor da Europa do século XIX. Menos lembrado entre nós, porém, é o fato de que um pilar do modernismo em língua inglesa, Ulisses, de Joyce, publicado em 1922, também foi objeto de censura e reprovação. Me permitam abrir um parêntese anedótico. Ninguém menos do que outro nome fundamental do modernismo em língua inglesa, Virgina Woolf, foi uma das mais ferranhas detratoras do romance. Até hoje, sentimos admiração por quem leu o Ulisses. Se não concluímos sua leitura, confessamos, culpados (é o meu caso): “dormi na primeira dezena de páginas”, ou “poxa, ainda não li esse livro”. Woolf, por outro lado, não só impediu, trabalhando para a editora Hogarth Press, a publicação do Ulisses em 1918, como julgava o romance vulgar e incoerente. Todo clássico hoje, para nós, possui uma presunção de inocência, não importam seus possíveis defeitos; para alguns leitores, contudo, a suposta vulgaridade e incoerência do Ulisses foram motivo para banimentos, julgamentos, intervenções do poder judiciário. Em 1933, por exemplo, o juiz John Woolsey profere sentença permitindo a livre circulação do Ulisses nos Estados Unidos. Na época, pendia sobre o livro um mandato de apreensão, pois se proibia nos EUA a importação de livros estrangeiros considerados obscenos. Woolsey, que ao longo da sua sentença mostra uma ótima compreensão das inovações trazidas pelo modernismo como um todo para a prosa de ficção, conclui que o Ulisses “é uma tentativa séria e honesta de desenvolver um novo método literário para a observação e a descrição do gênero humano”. E completa: “sem dúvida um pouco emético [induzidor do asco, do vômito], mas nunca apresenta a tendência de ser afrodisíaco”.

Por fim, é inegável uma certa aura que se cria ao redor de escritores perseguidos pelo próprio estatuto da ficcionalidade. Meu último exemplo, contudo, é cheio de malandragem. Trata-se do caso James Frey, o ex-queridinho da Oprah Winfrey. Se vocês entrarem no site da editora Objetiva, que publicou por aqui o livro polêmico dele, Um milhão de pedacinhos, verão que a obra é classificada, ainda hoje, como um livro de não ficção, pois sua ficha catalográfica a situa no terreno das Biografias/Memórias. Assim Frey e sua editora original venderam o livro: como um relato autobiográfico da superação de um homem fraturado pelas drogas e pela criminalidade. Com essa história de superação, Frey concedeu entrevistas para a Oprah (que depois o xingaria de mentiroso), foi traduzido para dezenas de linguas e vendeu milhões de exemplares. Logo se descobriu, contudo, o quanto boa parte do seu livro era a mais pura invenção. Aqui entra o dado mais fascinante, porém. Como Frey se defende? Afirmando que seu livro foi entendido “errado” pela editora que o publicou. Um milhão de pedacinhos tratava-se, na verdade, de uma obra “predominantemente ficcional”, nas suas palavras. Diante do desmascaramento e mesmo da possibilidade de processos judiciais, Frey assumiu a máscara da ficcionalidade, porque sabia o quanto não se exige do discurso da ficção, até certo ponto, uma responsabilização por aquilo que ela própria diz. Se numa biografia há necessidade da verificabilidade dos fatos, para a lógica da ficção essa exigência simplesmente não faz sentido. É fundamental saber se Getúlio Vargas existiu ou não, mas sobre Capitu ou Bentinho não precisamos desta pergunta.

Há uma frase escrita por Orhan Pamuk no seu ensaio “O que nossa mente faz quando lemos um romance” que não me sai da cabeça. Ela é simples: “Um romance é uma segunda vida”. De certo modo, todos os gêneros literários cabem nessa definição e a cumprem através de suas condições específicas. Dentre eles, a prosa de ficção continua a ser o meu favorito, porque a sua mera existência revela, com frequência, o quanto nossas casas, monumentos, catedrais, todas essas verdades, normas, profissões de fé, discursos, foram construídos em cima de fundações menos sólidas do que ousamos aceitar.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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