Curso de leitura

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Acho que falta um curso de leitura. Sim, um curso. Há curso para tudo, até para… Não, não vou dizer. Não quero ofender a ninguém. Todo mundo tem o direito de fazer o curso que quiser. Pois então, por que não há um curso de leitura? Isso mesmo, você ouviu bem: leitura. As pessoas não sabem ler, e isso não é novidade, fala-se em analfabeto funcional, o sujeito que sabe juntar as sílabas, soletrar e formar a palavra que é pronunciada por ele num gesto mecânico. As palavras formam a frase, oração, parágrafo e aí o nosso amigo se embaralha todo e não consegue entender o que acabou de ler.

Tudo bem, esta é uma discussão, válida, sem dúvida, mas não é desse leitor – sem dúvida nenhuma aquele que mais carece de atenção – de quem desejo falar, mas de outro, um caso, talvez, menos complicado e que tem sua problemática – menos caótica –situada numa outra esfera. Falo do leitor médio. Ele sabe juntar as letras e formar as palavras, frases e orações e, diferente do outro, entende o que lê. Seu ecletismo lhe permite passear pela ficção e não raro a poesia. Comparece a lançamentos de livros de poesia, tem amigos poetas e sabe de cor pelo menos um soneto de Augusto dos Anjos. Gosta de romances, apesar de opiniões como a de um amigo advogado, que considera esse tipo de leitura uma perda de tempo. Ele – o tal amigo bacharel – não sabe, mas repete com suas palavras um axioma de Oscar Wilde. Pois bem, o leitor, esse sujeito que se senta para ler um livro sem futuro, como são os livros de literatura, normalmente perde tempo mesmo, mas não pelas razões sustentadas pelo senhor pragmático, e sim porque não tem critério, lê o que lhe cai às mãos e não distingue um autor do outro; pra ele livro é livro, as duas capas guardando o miolo de algum modo conferem legitimidade às palavras ali impressas.

Imagino esse leitor diante de enormes prateleiras de livros. Ele vai à livraria e se sente o mais notável dos homens, um sujeito raro, pertencente à fina flor de uma sociedade sob a égide da cultura. Seus confrades são homens e mulheres – uma minoria, certamente – abnegados defensores de certo ideal dos antepassados, hoje vilipendiado pelas novas gerações. De fato, ele vai à livraria, cumpri um ritual, pois é um iniciado da tal sociedade, mas quando se vê diante das prateleiras de livros compreende como ninguém o significado da palavra Babel. As lombadas, com nomes de autores e obras não lhe dizem nada, ele se sente confuso, sente uma vertigem e é preciso ser levado às pressas ao banheiro onde vomita por dez ou vinte minutos. Quando se sente recobrado, atribui à indisposição os efeitos de uma intoxicação alimentar. Naquele dia desiste das prateleiras, vai ao mostruário e pega o primeiro livro escrito por bruxos ou espíritos desencarnados que encontra. Paga com o cartão de crédito e sai da livraria aliviado do vômito e da incursão no mundo de babel.

Não há exagero, é mais ou menos esse o perfil do leitor médio brasileiro. Ele não conhece a produção do passado – os clássicos – tampouco a da chamada pós-modernidade ou contemporaneidade. O sujeito afirma que leu uma edição resumida do Dom Quixote – dos tais famigerados paradidáticos – e nem se dá conta do sacrilégio cometido. Os eventos de literatura que se espalham pelo país, como a Flip, reúnem de um lado escritores consagrados que desenvolvem suas falas para aspirantes a escritores, jornalistas culturais, editores ou professores da área de letras que trazem seus alunos – alguns muito bem intencionados, outros nem tanto – como parte integrante de algum projeto pedagógico de incentivo à leitura blá, blá, blá. Nesses eventos, os escritores famosos não passam de ilustres desconhecidos. No país inteiro, e de acordo com Marçal Aquino, numa tirada bem humorada, não deve existir mais de 1000 leitores potenciais, aquele tipo que não se enquadra em nenhuma das categorias mencionadas, e mesmo assim cultiva o hábito de ir à livraria, onde escolhe um bom livro e o compra com a mais genuína intenção de ler porque isso lhe causa prazer.

Ainda estamos naquela de nos comparar com a Argentina e nos espantar com o número de livrarias de Buenos Aires; uma para cada seis mil habitantes, contra uma para cada setenta mil brasileiros. É um saco, muita gente não gosta de tocar nesse assunto, fazer o quê?

O leitor médio devia aprender com aquele cara que gosta de futebol. Ele não joga nada, é perna de pau, mas tem seu time do coração, uma paixão que influenciou a esposa e os filhos – às vezes a esposa é quem influencia o marido – pois bem, o cara não joga nada, não é jogador, treinador ou cartola, mas está por dentro de tudo, é capaz de fazer um diagnóstico da situação de seu time bem como dos adversários. Acompanha os campeonatos estaduais, nacionais e internacionais, sabe a escalação do time e se amarra nos programas de televisão especializados em comentar lances, além do caderno de esporte, o melhor caderno do jornal, o único lido do começo ao fim.

Coisa muito diversa acontece com o leitor médio. Ele não assiste a nenhum programa de televisão que entreviste o escritor, não lê o jornal que traz resenhas de livros, não compra nem lê revista especializada no assunto nem pertence ao clube do livro, por isso não conhece nenhum escritor. Muitas vezes acontece de estar lendo um livro e quando lhe perguntam o autor ele não sabe responder, diz que não se liga nessas coisas. Nunca compra livro; compartilha a opinião de que o livro é caro, não importa quanto sejam seus rendimentos, se de um salário mínimo ou cinquenta. Desconhece as edições de bolso ou aquelas que contam com a participação de algum fundo de apoio à cultura, como foi o caso da belíssima coleção de Grandes Escritores da Atualidade, da Planeta DeAgostini; nomes como Saramago, Ian McEwan, Ernesto Sabato, Ítalo Calvino, Rubem Fonseca, entre outros, editados no melhor papel, capa dura e de excelentes traduções ao preço módico de dezesseis reais, adquiridos na banca de revista. Não, o nosso leitor médio só lê o que lhe cai às mãos – já que não compra. Não estabelece um padrão, não distingue Stephen King de Philip Roth, seu nível de leitura não progride, de vez em quando – quando alguém lhe empresta – lê reportagens ou biografias de famosos, mas sua paixão mesmo são os livros de auto-ajuda.

É por isso que eu sugiro um curso. Um curso de iniciação à leitura, uma coisa que já acontece nas oficinas de criação literária, Carrero que o diga. Mas não falo de um curso para quem deseja escrever, mas para quem deseja lê, que a leitura é uma arte tão importante – decerto mais prazerosa – quanto a escrita. Uma vez eu li uma frase escrita numa dessas revistas de divulgação de literatura, a frase é curiosa e se aplica aqui: não devemos ler os bons livros, dizia a frase, mas os ótimos. É isso o que quero dizer com curso de leitura; os leitores precisam entender que há muita coisa boa a ser lida, mas a vida da gente não ajuda, é curta. E aí, paciência, não adianta culpar Adão, o tempo é finito, sejamos criteriosos em nossas escolhas.

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[author_info]Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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