Da artimanha do diabo

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Em respeito a Deus e ao Islamismo a mulher veste o véu. O Alcorão determina que a mulher esconda suas partes atrativas (quase tudo) porque o problema não está no homem que a olha com olhos de cobiça, mas na própria mulher que se deixa flagrar, exibindo-se sem pudor. A culpa, portanto, jamais é do homem, mesmo quando se comete atos violentos como o estupro, e sim da mulher e sua natureza sedutora, hipnótica. Acho que no Paquistão não haveria nenhuma dúvida quanto à Capitu.

A religião sempre demonizou a mulher. Falo em particular dos monoteísmos e se hoje o Cristianismo em países laicos parece brando, ele já foi tão radical quanto é o Islamismo na atualidade. Domingo assisti a uma reportagem na Globo News, no programa Sem Fronteiras, o tema era o feminismo, o pós-feminismo, para ser exato. Algumas feministas, sucessoras de Simone de Beauvoir, foram entrevistadas e falou-se em conquistas e tantas outras ainda por que lutar e, claro, mostrou-se as mulheres cobertas pela burca ou niqab ou hijab, a maioria pretos e longos, do tamanho da tradição religiosa. Quanto mais religiosa, mais desaparece a mulher dentro dele. Mulheres dos países islâmicos e sua sujeição, seu papel de irrelevância diante dos homens, seus senhores, irmão-pai-marido a quem devem obediência.

Lembrou-me o livro de Azar Nafisi, Lendo Lolita em Teerã, que li ano passado. Nele a autora conta a experiência de ser mulher no Irã da revolução, o Irã depois do Xá Mohammad Reza Pahlevi, o Irã da República Islâmica sob o comando do aiatolá Khomeini, um homem crente, temente a Deus. O mote é interessante: ela, a autora, ex-professora da Universidade de Teerã, reúne sete mulheres na sua casa, sempre às quintas-feiras pela manhã para ler e conversar sobre obras da literatura ocidental proibidas em seu país, dada a vinculação delas com o grande satã. Orgulho e Preconceito, Madame Bovary, Lolita, entre outras, são as obras lidas e nesse clube do livro, mais do que crítica literária, o que parece de fato relevante é a terapia que produz nessas mulheres o encontro delas com as personagens femininas, criaturas com as quais são comparadas, confrontadas, com quem experimentam trocar experiências de viver num mundo sob a égide do machismo, da intolerância, da inferioridade.

E volto a pensar no programa do Sem Fronteiras. Nele, em nenhum momento, fez-se referência à religião, em nenhum momento comentou-se, mesmo que superficialmente, que a religião é uma das grandes responsáveis pelo papel que desempenha a mulher nesses países onde esse jeito de ver o mundo, garantido pelo braço forte do homem, está presente desde as ações mais comezinhas de cidadãos comuns até as atitudes de chefes de estado. E me dei conta de como a religião, em nosso tempo, tornou-se inatacável. Saudades do século XVIII, saudades de Voltaire. Já repararam que mesmo quando se faz denúncia de pedofilia na Igreja ou de pastores evangélicos retidos na alfândega, com a cueca cheia de dólares, isso sempre é anunciado como um fato alheio à religião, cirurgicamente isolado do contexto, conservando os brios e a dignidade da instituição e do imaginário sagrado? Sei que deveria estar falando de futebol, mas já vou concluir: parece-me que a religião, assim como o diabo, conseguiu convencer a todos de que não existe; não como um problema a ser discutido, pelo menos.

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