A dama de Alicante – Lucila Nogueira

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PRÓLOGO

Autora: Lucila Nogueira nasceu no Rio de Janeiro, em 1950, e mora no Recife. Além de poetiza, é professora da Pós-Graduação em Letras da UFPE. Tem 22 livros publicados. Venceu o Prêmio Manuel Bandeira (concedido pelo Governo de Pernambuco) de 1978 pelo livro Almenara e, em 1986, por Quasar.

Livro: A dama de Alicante é o quarto livro publicado de Lucila Nogueira. O volume reúne 45 poemas e uma série de cinco poemas intitulados E se inda houver amor. A edição conta com prefácio de Ivan Cavalcanti Proença.

Tema e enredo: A busca de uma identidade profunda, cuja revelação seria a própria descoberta do ser, conduz a autora, em alguns momentos do livro, à prática de uma espécie de confessionalismo poético.

Forma: Limpidez de linguagem em que predominam imagens luminosas, acentuado tom melódico, para o qual contribui destacadamente o seu manifesto gosto pelo ritmo largo e fluente dos decassílabos e o constante regresso à temática amorosa, ao tratamento lírico dos sentimentos fortes.

CRÍTICA

Desde a publicação de Almenara (1978), primeiro livro de poemas de Lucila Nogueira, a poesia desta autora vem apresentando como principais traços que a caracterizam uma extraordinária limpidez de linguagem em que predominam imagens luminosas, um acentuado tom melódico, para o qual contribui destacadamente o seu manifesto gosto pelo ritmo largo e fluente dos decassílabos e o constante regresso à temática amorosa, ao tratamento lírico dos sentimentos fortes, do amor-paixão, capaz, por vezes, de fazer lembrar Florbela Espanca, porque em ambas estão igualmente ausentes preconceitos inibidores e em ambas se valoriza a fraqueza que permite a revelação íntima e o tom confessional de alguns poemas.

É sobretudo a partir das três linhas acabadas de situar que se elaboram os poemas que compõem esta nova coletânea lírica de Lucila Nogueira, intitulada A dama de Alicante porventura para aventurar certa nostalgia ibérica que perpassa o livro, particularmente em poemas como o que ao volume empresta o título, ou em A visão de dona Joana, Rua do Lima, Meu sangue, O sono da Esfinge, A faca na cintura. Nostalgia que, como a reencontrar velhas origens perdidas, a fazem declarar: “cigana, sim, as garras de veludo / carrego a sorte na casa-rolante / e o teu segredo eu sei e o teu futuro / dançarina andaluz um véu de chamas” (p. 46).

A busca de uma identidade profunda, cuja revelação seria a própria descoberta do ser, conduz a autora, em alguns momentos do livro, à prática de uma espécie de confessionalismo poético também já presente em outros livros seu, notadamente em Peito aberto (1983). Distinga-se, entretanto, e desde já, confessionalismo e autobiografismo, caracterizando-se o primeiro termo como elemento condutor de forte carga lírica e existencial e até por vezes mais do que isso, altamente dramática. É nesse domínio, e não no da cura, simples e redutora referência autobiográfica, que se situa o confessional em Lucila Nogueira, a qual, em busca de uma identidade profunda que a defina como ser poético e angustiadamente existencial, ora se afirma uma “menina frágil que resiste”, ora a que “conquista o mundo, mas é triste” (Identidade, p. 13); ora se diz cigana, “a faca na cintura” (p. 46), ora se vê, em sonho, a Guinevere “sonâmbula no amor de Lancelot” (Guinevere, p. 50); ora se imagina, em Espanha, a dama antiga de Alicante ou de Castela, ou a louca Joana “caminhando nas noites de Granada” (A visão de dona Joana, p. 19), ora se revê, menina, “comendo um alfenim iluminado” durante “as tardes de leitura no sobrado” (Rua do Lima, p.21). São estes apenas alguns dos muitos aspectos do ser poético em que Lucila, estética e existencialmente, se reconhece, tentando definir, desde o primeiro poema do livro, a sua contraditória Identidade.

A recriação mítica e simbólica de si mesma associada à memória proustiana que emerge de poemas como Rua do Lima ou Meu sangue e que entre passado e presente faz ressurgir a infância, o amor o sonho, a vida, e que tudo isso dilui em mescla de luz e sombra numa realidade (ou irrealidade) mágica, dá à poética de Lucila Nogueira uma dimensão que a individualiza na poesia do seu tempo e da sua geração. Essa função lírica da vida e sonho, de memória e mito, de realidade e símbolo, de sombra e luz, elementos díspares que a autora trabalha com grande competência, imprimindo a tudo um tom personalíssimo, é que lhe permite falar de si sem autobiografismo, expor sentimentos e emoções universalizando-os, sem ter de necessariamente os assinar como exclusividades suas. É nesse grau de universalizado confessionalismo que se situa, por exemplo, a constatação angustiada do Confiteor: “Só entendo de amor, o da carne e o do espírito / […] sou mais a descoberta do que a melancolia / […] sou a dança infinita, sou a carne no cio” (p.45). É na mesma dimensão que se deve ler a arte poética da autora, cristalizada no poema Opção, e, ainda que pertencente a um outro universo temático, o do amor-paixão, que é sem dúvida onde Lucila melhor se realiza, também aquele que é um dos mais belos poemas deste livro e que abre com estes sonoros, vibrantes e apaixonados versos: “E se inda houver amor eu me apresento. / E me entrego ao princípio do oceano. / E se me atinge a onda, úmida eu tremo / esquecida de insones desenganos” (p. 65). É por esta via de transcendentalização do pessoal para o universal e do redimensionamento da realidade individual e quotidiana alçada às categorias de mitos e de símbolos que Lucila Nogueira realiza a sua poesia, de que temos um feliz e exemplar momento neste A dama de Alicante.

José Rodrigues de Paiva é professor de Letras da UFPE.

  • Colóquio/Letras, n.º 121-122, Lisboa, jul. 1991, p. 271-272.

 

FICHA TÉCNICA

A dama de Alicante
Lucila Nogueira
Oficina do Livro
1ª edição, 1990
69 páginas

TRECHO

“Sei me vestir de tola, se preciso
como essa antiga Dama de Alicante
inda que ao fim só resto que eu ensino
cama-de-gato que aprendi criança.

Sei me cobrir de frágil, de improviso
sob o furor de um cavaleiro andante
e as chaves da cidade conduzindo
pedir que permaneça por encanto.

Filtros de amor, doce paixão de abismo
navegam meu olhar, como essa dama
alegre que, misteriosamente
um dia suicidou-se em Alicante.” (poema A dama de Alicante, p. 18)

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