Das utopias

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Nos séculos XVI e XVII, mulheres que expunham seu pensamento sociopolítico eram declaradas histéricas e por vezes queimadas como bruxas. Séculos de opressão nos deixaram poucas, porém representativas mulheres na categoria de heroínas, por sua audácia, coragem e efetiva interferência no curso da história. Essas mulheres, inseridas em conjunturas nada promissoras, tinham certamente dentro de si uma chama de sonho e crença que as projetava pra frente, mesmo que, aos olhos de seus contemporâneos, elas não passassem de umas loucas idealistas. Se não fosse a audácia e crença dessas mulheres, que constataram quão injusta vinha sendo sua posição no mundo e impuseram a sua verdade com luta e firmeza, certamente não teríamos representantes femininas em cargos de poder hoje em dia, liderando famílias, mães independentes, lésbicas sem medo de expor seu amor na rua, nem movimentos de resistência feminista como Marcha das Vadias, o Coed Topless Pulp Fiction, isso para citar os mais famosos e populares mundialmente.

O sonho de voar acompanhou o homem por ininterruptos séculos. Uma máquina que o livrasse dos perigos dos mares nas viagens intercontinentais… Um homem comum, em meados do século XIX, jamais pensaria que isso seria possível, que loucura!? Dominar os céus!? O céu pertence aos deuses! Eis que alguns, numa tentativa de parceria com esses deuses, quem sabe, resolveram por tais máquinas a tentar planar no céu. Pasmem, uma delas vingou! E sim, homem comum do século XXI, você pode gastar poucas horas e ir, a qualquer momento, para qualquer lugar do mundo, pelo ar!

O que será que o homem primata, com seus rabiscos rupestres, pensaria da internet?

Quando os retratistas renascentistas imaginariam a fotografia?

Gandhi venceu uma guerra sem levantar armas.

A Europa, que já foi o grande centro do mundo, está em crise.

A igreja católica vem ensaiando abertura à homossexualidade.

Ser atriz deixou de ser máscara de puta e ganhou status de celebridade.

As putas ganharam espaço na constituição de alguns países.

Nações legalizam o uso da maconha e as políticas antidrogas estão saindo do âmbito repressivo (finalmente!).

Lula foi presidente do país por 2 mandatos consecutivos.

Temos uma mulher no poder supremo executivo brasileiro.

Temos um homem negro no poder supremo executivo norte-americano.

Faz uns 7 anos, quando eu disse aqui em casa que estava a fim de começar a ir de bicicleta para o trabalho, fui tachada de louca. Hoje em dia, ser ciclista é hype e grandes marcas tem usado isso como mídia.

Qualidade de vida tem ganhado mais espaço no desejo das pessoas em lugar da ganância monetária acumulativa dos yuppies das décadas de 80 e 90, e isso tem gerado um movimento de pessoas que deixam de vender suas horas para empresas e começam a investi-las em dinâmicas que deem mais sentido a suas vidas.

Esses são apenas alguns exemplos Das Utopias. Isso tudo, em algum momento do mundo, ou da vida de alguém, já foi um sonho, idealista demais pra ser verdade, mas agora, pasmem: é!

Faz uns dois anos, eu estava vendo um Roda Viva com o sociólogo Chico de Oliveira. Era a época auge dos julgamentos contra o mensalão e da descrença na política de esquerda brasileira. Perguntaram, a esse senhor sociólogo, se com toda essa confusão no país, ele ainda acreditava na política e na ideologia esquerdista. Sabiamente, ele disse: É preciso perseguir a utopia desesperadamente. Fazer a política do possível, qualquer um faz.

Todo método científico, um dia, já foi uma projeção utópica.

Todo sistema social/político começou com poucos adeptos e contrariava um amplo e poderoso sistema vigente.

Toda luta parte da vontade de um ser, feito da mesma matéria de todos os demais seres humanos do mundo, todos eles genuinamente capazes.

Recentemente tenho lido alguns anarquistas, Bakunin, Proudhon, Thoreau, ainda vou chegar em Tolstoi, mas vamos um por vez. Dentro da fala deles, muita coisa tem me parecido absolutamente… lógica! Isso me faz lembrar dos miniparágrafos, no finalzinho dos capítulos dos livros de história do colégio, dedicados aos movimentos anarquistas. E lembrar minha professora, nessa época, que quando alcançava esse miniparágrafo, dizia: então… E os anarquistas, que são sonhadores, querem um mundo ideal, inalcançável, blábláblá pula, próximo capítulo.

Somos educados para não acreditar no ideal. Nem pensar na possibilidade do ideal e sim louvar o racional, quando a racionalidade deveria ser só um meio de se buscar o ideal, mesmo que esse ideal, em sua plenitude, não seja alcançado nunca por ser ele extremamente mutável. O ideal pertence ao futuro, e assim deve ser. Ele precisa estar lá na frente sempre e dar sentido à nossa caminhada, eis o papel da utopia. Uma educação pela racionalidade é uma poderosa ferramenta de poder, pois uma massa descrente é mais facilmente conduzida. Falta de esperança não move montanhas e como já dizia o coelho de Alice, para quem não sabe onde que ir, qualquer caminho serve.

O título desse texto vem de um dos meus poemas favoritos de Mário Quintana.

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Apesar de terminar com poesia, que a utopia não se restrinja aos poetas e romancistas, aos artistas de uma geração. Utopia é uma questão de ponto de vista. Resistir é questão de crença. Transformar é questão de determinação.

Dedico esse texto a todos os envolvidos no movimento OcupeEstelita.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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