Demian – Hermann Hesse

2

Enquanto o mundo se diverte ao redor da televisão, em mesas de bar ou no escuro das boates, alguém está enclausurado num canto, sozinho, escrevendo ou lendo algum livro. Literatura é arte para solitários, feita por gente com o mal da crítica e da observação, gente que se isola, mantém distância por não conseguir ser como os outros. Arte da frustração, das ruminações silenciosas em meio ao barulho, do inconformismo e da necessidade em dialogar. Arte de, sobre e para outsiders.

Tema recorrente da literatura, a incompatibilidade social é o mote principal de Demian (1919), livro escrito por Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de 1946. Nele, o autor de Sidarta e O Lobo da Estepe retrata o doloroso processo de (trans)formação intelectual de Emil Sinclair, o narrador que cresce, enxerga novos horizontes e já não se encaixa no universo do seu lar.

De família burguesa e bem sucedida, Sinclair é uma espécie de Adão do mundo moderno, que, numa referência à Bíblia, vê-se expulso do paraíso por causa do fruto proibido. Depois de contar vantagem aos colegas fantasiando uma história sobre roubos de maçã, Sinclair passa ser chantageado por Franz Kromer, um garoto mais velho de escola pública, que ameaça denunciá-lo.

Com medo, Sinclair cria uma distância da família, recolhendo-se à solidão enquanto fica sob influência do mundo sombrio de Kromer. O isolamento só termina com a chegada do novo aluno Max Demian. Demonstrando segurança e convicção em suas idéias, ele logo conquista a amizade de Sinclair, ajudando-o a se livrar do algoz. O narrador constrói Demian como um herói cheio de mistérios, o messias que, ao invés de guiá-lo, encoraja-o a construir seus próprios caminhos rumo à vida adulta, questionando princípios morais já adquiridos.

O trajeto de Sinclair é recheado de solidão, paixões platônicas e incertezas. Durante sua busca existencial, ele tenta se achar em meio ao dualismo da influência da igreja e das aventuras nos bares com seus colegas de escola. Mas só encontra consolo na imaginação.

Sob influência das idéias de Nietzsche, Hesse parte de um viés psicológico para retratar os conflitos internos que passam os jovens no processo de construção de uma identidade própria. Demian é um O Apanhador no Campo de Centeio (1959), de J.D. Salinger, mais antigo, puritano e sem tanta rebeldia. No conteúdo e na forma.

Seguindo quase sempre uma linearidade baseada nas memórias do narrador, o autor fica preso no tom burocrático da realidade criada por adulto querendo reviver dramas da adolescência com a profundidade de um copo d’água. Ao contrário de obras como Memórias do Subsolo (1864), de Fiódor Dostoiévski, e A Metamorfose (1916), de Franz Kafka, que tratam do mesmo tema com inventividade e sem precisar ser tão óbvio e direto.

Thiago Corrêa
lido em Dez./Fev. de 2007
escrito em 04.03.2007

: : TRECHO : :
“Não podia dizer que Max Demian me parecesse simpático; ao contrário, dava-me a impressão de ser frio, um tanto orgulhoso e demasiadamente seguro de seu próprio valor; eu sentia que seus olhos já viam as coisas como os olhos de um adulto, com aquela expressão um tanto melancólica, sulcada de relâmpagos de ironia, que nunca se encontra nas crianças.” (p. 42)

: : SERVIÇO : :
Demian
Hermann Hesse
Trad. Ivo Barroso
Record
36a. edição, 2005
188 páginas

: : LEIA TAMBÉM : :
Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

2 Comentários

  1. adorei a pesquisa e o resumo, mas acho que faltou algumas simbologias e explicacoes do conteudo da obra, nota: 6,5

  2. Maria Lúcia Ariza em

    Este foi um dos melhores e mais importantes livros que li. Li Demian na minha adolescência e o reli mais duas vezes como adulta e descobri tantas coisas novas.Este livro é um clássico que influenciou muito a minha vida.

Comente!