Desertificação – Arthur Mota

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Água. Olha pros lados, não enxerga nada. Reflexo difuso. Branca, negra, marrom. Barro. Céu azul cinza. Chuva que não para. Ruas que se transmutam em vias fluviais. Plu-vias. Violentamente.

Em meio ao subir das águas, procura.

                Filho, cadê tu?

Desespero. Já haviam sido brutalmente separados num outro dia de céu azul cinza como esse. Seu estado civil teve de ser modificado. Estranho quando se tem 20 e poucos anos e na testa estampado “viúvo”. O menino, órfão parte de mãe, ainda tornou-se filho único. Divisão por dois.

Rápido aumento do nível. Invasão dos cômodos, aliás, do único. Coisas miúdas, sacolas, lixo, brinquedos – uma boneca descabelada, pequenos jogos de panela de plástico, escovas de cabelo… Tudo se torna rio, correnteza.

A vida passa. O sofá passa, a televisão passa, as roupas passam, a cômoda passa, as recordações passam.

Sai correndo ou nadando. Bate a porta. Violentamente.

                Filho, filho! Cadê tu? Fala comigo, pelo amor de deus, responde!

               Tô aqui painho! Calma, tava só dormindo…

Alivia. Ultrapassa a porta, em direção ao filho. Arranca-o com a violência dos que amam. Dormia na parte de cima do beliche. Já não havia parte de baixo.

Tudo vai passar. Baratas, ratos, gabirus, bichos mortos. Sacos pretos de lixo flutuam pelo mar negro, pelo barro. Água putrefata. Leptospirose, hepatite A, hepatite B, febre tifoide, cólera, dengue. Quase tudo passa.

Sai de casa, segurando o filho pelo braço. Pés descalços. Firme. Abre os olhos, enxerga.

                Perdi tudo! (Não tinha nada).

Olha para os lados, 360 graus, enxerga o mar.

Água. Deserto.

Arthur Mota nasceu em Recife-PE, 1985. Estudante de Letras da UFRPE, mantém o blog literário obraentreaberta.blogspot.com.br desde 2011, e participa do blog colaborativo Varal, onde publica seus poemas e contos.

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