Devemos escrever em tempos de violência política?

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Gostaria de abrir a caixa-preta do Vacatussa. Há poucos dias, finalizávamos a edição das principais postagens do mês, quando uma bomba caiu: a truculenta repressão, feita pela Polícia Militar a mando do governador do Estado de Pernambuco, de um dos mais importantes movimentos sociais que o Recife já presenciou nos últimos anos. Me refiro ao Ocupe Estelita. Em breve troca de emails, nos questionamos: que diferença palavras podem fazer diante da violência? A leitura e o ato de escrever seriam meros “luxos”?

O italiano Italo Calvino, no seu ensaio Para quem se escreve? (a prateleira hipotética), levanta uma série de questionamentos sobre a função da literatura, e da atividade intelectual como um todo, no mundo contemporâneo. Após criticar perspectivas demagógicas que tentam patrulhar e controlar a leitura, ele chega a uma conclusão: “é preciso que a literatura reconheça quão modesto é seu peso político: a luta decide-se com base em linhas estratégicas, táticas gerais e em relações de força; nesse quadro, um livro é um grãozinho de areia, sobretudo em se tratando de literatura”. Concordo com esta perspectiva; ao contrário, porém, do que possa parecer, ela não é desanimadora.

O que aconteceu, por exemplo, logo após os confrontos entre manifestantes e a polícia de Alckmin (em São Paulo, no caso das manifestações de Junho de 2013), ou a polícia de João Lyra Neto (em Pernambuco, no caso do Ocupe Estelita)? Uma batalha de interpretações. Textos, artigos, contos, poemas, testemunhos, reportagens, desabafos – estas palavras, divulgadas através dos mais diversos suportes, procuraram dar conta de narrar a experiência do conflito. Desta maneira, toda uma dimensão textual foi se tornando tão importante quanto as manifestações tomando conta das ruas. Não há corpo que não precise da palavra e da narrativa. Isto é verdade nas diversas esferas da nossa vida: a amizade, o trabalho, o amor e o sexo. E é verdade, também, na atividade política. É exatamente isso que Calvino diz: “O efeito que uma obra importante (científica ou literária) pode ter na luta geral em andamento é levá-la para um nível de consciência mais alto, aumentar seus instrumentos de conhecimento, de previsão, de imaginação, de concentração, etc”.

A narrativa e a poesia são, ao contrário do texto que você está lendo agora, formas de conhecimento e de compartilhamento de experiências cujas ferramentas de trabalho extrapolam o encadeamento de argumentos. A literatura lança mão de outros recursos, tais como a imaginação, a pulsão, o instinto, o inacabado, a ambiguidade, o irracional, a ilusão, o prazer, a sedução. Nenhuma destas características é privilégio de poemas, contos ou romances. É na literatura (e nas artes em geral), contudo, que elas encontram uma utilização mais aprofundada e frequente. Conhecer através de uma espécie de vida possível e compartilhada: quanta força não há aqui? Repito: esta função não é exclusiva da literatura. Outras formas de arte, cada uma com seus recursos, a desempenham, mas penso que, por manter a linguagem verbal como o centro das suas preocupações, como a sua principal matéria-prima, as diversas manifestações literárias preservam uma importância cada vez mais necessária.

Desta maneira, ler e escrever se transformam em ato de resistência, mesmo quando aparentemente caminhem longe da urgência da rua e da praça. Boa parte das obras-primas conhecidas por nós foram escritas em épocas turbulentas. Que bom elas estarem aí, com seus mundos imaginários à nossa disposição, não como instrumentos da luta A ou B, mas como presenças ocupando o lugar do Nada que a violência quer nos impor.

 

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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